Desde que o Taliban retornou ao poder no Afeganistão em meados de agosto de 2021 após uma insurgência contra o governo local, vinte anos depois de sua expulsão pelas tropas americanas na sequência dos ataques de 11 de setembro, o país da Ásia Central enfrenta uma realidade amarga que muitos dizem, e os números apontam na mesma direção, ser ainda pior do que o regime taliban (1996-2001) antes da ocupação americana de 20 anos.
Logo no primeiro dia no poder, o Taliban fechou o Ministério dos Assuntos da Mulher reinstaurando o Ministério do Vício e da Virtude, no qual o grupo mobilizou soldados talibans para impor rigorosamente seus decretos que restringem agressivamente a vida das mulheres, em todos os aspectos.
Sob restrições ao estudo, trabalho e até mesmo à circulação e aparição pública, as mulheres no Afeganistão têm sido presas arbitrariamente, submetidas a tortura, libertadas apenas sob a condição de que suas famílias imponham estrita obediência às regras do Taliban em casa.
Atualmente, o Afeganistão apresenta a pontuação mais baixa segundo o Índice Populacional Mundial de 2026 de World Population Review; ocupa a 109ª posição entre 123 países segundo pesquisa do Índice Global da Fome de 2025; o país centro-asiático é ainda o país mais inseguro do mundo para mulheres entre 181 países analisados pela organização não-governamental (ONG) internacional Mulheres, Paz e Segurança 2025-2026, e também o país mais perigoso do mundo para mulheres de acordo com outra pesquisa de World Population Review de 2026.
Nesta entrevista, o professor doutor Timo Kivimäki aborda a aplicação da lei internacional para punir os crimes do Taliban, outrossim considerando a possibilidade de comunicação internacional com o grupo em vez de se manter distância. Ele discute ainda a falta de legitimidade da ocupação do Afeganistão pelos EUA em outubro de 2001, expondo diversas contradições na militarização unilateral do Afeganistao.
A Rússia é o único país até agora que reconhece formalmente o Taliban como o governo legítimo do Afeganistão. Mas diversas nações mantêm algum tipo de relação com o Talibã, como China, Irã, Turquia, Cazaquistão, Tadjiquistão, Paquistão, Catar e Emirados Árabes Unidos.
Em março deste ano, os EUA encerraram a assistência externa ao Afeganistão, revertendo as políticas de assistência externa e imigração da administração Biden em relação ao país.
Em 9 de julho de 2025, o Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu mandados de prisão contra o líder supremo do Taliban, Hibatullah Akhundzada, e o juiz-chefe do grupo, Abdul Hakim Haqqani, por crimes contra a humanidade, incluindo perseguição contra mulheres, meninas e outras pessoas.
A decisão ocorreu após o TPI ter divulgado sua Política sobre o Crime de Perseguição de Gênero, no final de 2022. Até o momento, Akhundzada e Haqqani não foram localizados para serem julgados em no Tribuna em Hague, na Holanda, enquanto diversas vozes no Afeganistão e em outras partes do mundo questionam o TPI por não processar outros membros do Taliban.
Com o passar do tempo, os relatos locais sobre os atos de terror do Taliban contra mulheres e meninas apenas se agravam.
Tudo isso sob o silêncio absoluto da comunidade internacional enquanto, como aponta o dr. Kivimäki nesta entrevista, a ONU se enfraqueceu seriamente ao longo da última década.
No caso específico dos EUA, essa omissão levanta dúvidas sobre sua eficácia na luta internacional pela democracia, pelos direitos humanos, contra o terrorismo e as drogas. E também sobre a sinceridade de Trump em suas intervenções unilaterais no exterior.
Na maioria dos casos, essas intervenções são feitas sob razões no mínimo questionáveis, violando leis internacionais, Após o fim da Guerra Fria, este é um precedente escancarado precisamente por George Bush em 2001, através da ocupação unilateral do Afeganistão, e um ano e meio mais tarde do Iraque – sob o silêncio mundial.
Como destaca nesta entrevista o especialista finlandês em conflitos internacionais, “se quisermos aprender com nossos erros e evitar repeti-los, precisamos examinar o que deu errado”. O governo Trump, assim como outros governos americanos nos últimos anos, não parece disposto a fazê-lo.
A seguir, a entrevista integral com um dos mais respeitados analistas do mundo contemporâneo, na área de relações internacionais.
Edu Montesanti: O Taliban está de volta ao poder de forma agressiva, talvez ainda mais violento em comparação com a primeira vez que a organização esteve no poder, de 1996 a 2001. O que deu errado no Afeganistão em relação à ocupação dos EUA?
Timo Kivimäki: Esta é uma questão forte e que tem recebido atenção limitada na grande mídia por razões compreensíveis. A experiência de uma intervenção que produziu pouco além de perdas adicionais de vidas, é profundamente traumática.
No entanto, se quisermos aprender com nossos erros e evitar repeti-los, precisamos examinar o que correu mal. Meu grupo de pesquisa fez isso e identificamos pelo menos quatro fatores contribuintes.
Primeiro, os Estados Unidos agiram no Afeganistão sem mandato da ONU. A intervenção e a mudança de regime ocorreram antes de a ONU aprová-las, e a coligação liderada pelos EUA continuou controlando o país sem permitir que a ONU assumisse responsabilidade pela manutenção da paz.
Esta ação unilateral é estruturalmente propensa ao fracasso. Na nossa investigação sobre operações unilaterais ocidentais e russas destinadas a desescalar a violência, apenas um dos 14 casos pós-Guerra Fria reduziu o número de mortes no conflito, tanto durante quantto após a intervenção, em comparação com os níveis anteriores à intervenção.
Em dois terços dos casos, o número de vítimas mortais aumentou durante e após a operação, ou a intervenção evoluiu para uma ocupação semipermanente marcada por elevados níveis de violência.
Em contraste, a manutenção da paz da ONU produziu este tipo de fracasso apenas no Ruanda, apesar de operar em quase quarenta países desde a Guerra Fria. Em quatro outros casos, ocorreram fracassos semelhantes, mas aí o fator que contribuiu foi a intervenção unilateral simultânea de um dos países ocidentais.
O problema central é que o Afeganistão é um Estado membro da ONU, e poderia mais facilmente ter aceitado a autoridade da ONU com a qual está formalmente comprometido. Não tem essa relação com os Estados Unidos, pelo que o controle militar dos EUA parecia inevitavelmente uma ocupação, independentemente da intenção. as intervenções unilaterais sem mandato da ONU são ilegais e ilegítimas; criam resistência e oferecem oportunidades ao poder militar interveniente para promover seus interesses egoísta,s em nome de uma causa humanitária.
Assim, por um lado, nenhuma nação pode tolerar a ideia de outro Estado vir a ditar a política interna e decidir quem pode participar nas eleições e, portanto, se houver tal intervenção, é compreensível que tal intervenção seja resistida militarmente.
Por outro lado, as potências intervenientes tendem a utilizar seu papel poderoso para seu próprio benefício, em vez de usarem-no com o motivo declaratório de gerar democracia, paz e combater o terrorismo.
Por estas razões, metade das intervenções unilaterais dos EUA após a Guerra Fria aumentaram a violência, se medida como um aumento no número de mortes por violência organizada, durante e após a operação, em comparação com a situação antes da operação dos EUA.
Todas as intervenções unilaterais dos EUA aumentaram o número de mortes durante a operação. Isso, nós revelamos em meu livro Failure to Protect.
No Afeganistão, o número de mortes começou a aumentar alguns anos após a intervenção inicial dos EUA, em 2001, e o aumento repentino durante a presidência de Obama iniciou o aumento constante das mortes, até o acordo dos EUA com os Taliban em 2020, e à retirada em 2021.
Os dados de conflito do Programa de Dados de Conflitos de Uppsala, somados aos dados sobre o número aproximado de tropas dos EUA, mostram isto claramente.
Em segundo lugar, como demonstrou Habib Wardak, a operação liderada pelos EUA foi conduzida com sensibilidade insuficiente aos hábitos, costumes e identidades locais.
Em vez de respeitar os modos de vida, a política e a organização social dos afegãos, a intervenção empurrou o país para modelos ocidentais, seculares e individualistas. Isto criou um sentimento de que um inimigo interno dos EUA deve ser apoiado, independentemente de quem fosse esse inimigo interno, tornando o apelo dos Taliban mais forte, permitindo-lhes reconquistar o país com resistência mínima.
Para muitos afegãos, quase tudo parecia preferível ao domínio estrangeiro. Esta ameaça à identidade afegã estava intimamente ligada ao facto de a intervenção ter sido levada a cabo por intervenientes externos em cujas decisões os afegãos não tinham representação.
O problema não era apenas o fato de os estrangeiros estarem no comando, mas também de conduzirem o país a uma direção que os afegãos não reconheciam como a sua.
No Iraque, uma resistência semelhante à estranheza do domínio dos EUA virou opinião popular tão integralmente contra os ocupantes, que uma pesquisa de opinião do Departamento de Defesa do Reino Unido sugeriu que mais de 90 por cento da população queria todas as tropas estrangeiras fora do país, e uma enorme maioria sentiu que matar soldados estrangeiros era justificável.
No Afeganistão, os próprios soldados que os EUA treinaram para assumir maior poder, adquirir proeminência e prosperidade no país, não foram capazes de parar de matar seus treinadores, apesar dos claros benefícios partidários que obtiveram do domínio dos EUA no país.
Assim, o facto de a administração “democrática” liderada pelos EUA não se sentir como afegã, parecia estrangeira, e algo que ameaçava a propriedade e a identidade afegã do país, as pessoas resistiram a tal governo.
Em terceiro lugar, e mais uma vez ligada à natureza estrangeira da intervenção, a abordagem dos EUA à segurança refletiu as prioridades ocidentais. A segurança foi definida em termos militares, e enquadrada como algo que defendia o país da ameaça de inimigos externos.
Como resultado, o foco estava na construção de equipamento e capacidade militar. No entanto, as principais ameaças à segurança do Afeganistão não eram externas ou militares. As pessoas estavam inseguras devido às dificuldades económicas, à fome, ao desemprego, à governação ineficaz e ilegítima e à ausência de uma autoridade nacional unificadora.
Como mostra a investigação de Sidiqullah Sahel, a ocupação não conseguiu resolver as verdadeiras preocupações de segurança dos afegãos comuns. A segurança era tratada como uma questão militar, enquanto o que as pessoas realmente precisavam era de segurança humana.
Por último, a construção do Estado e o desenvolvimento económico concentraram-se nas zonas urbanas, especialmente em Cabul, enquanto as regiões rurais ficaram subdesenvolvidas.
O domínio dos EUA também se concentrou muito na construção da capital, Cabl e da sua elite nacional, ao mesmo tempo que discriminava o campo e desconsiderava o desenvolvimento rural. Isto explica por que razão a resistência ao governo afegão liderado pelos EUA, veio principalmente das zonas rurais.
As áreas urbanas eram vistas como privilegiadas, e isto deu origem à rebelião rural e ao apoio dos Taliban, uma organização rural. Isto aprofundou as divisões internas e alimentou a resistência à República Islâmica do Afeganistão, apoiada pelos EUA.
Depois que o cansaço da guerra americana se instalou, o Taliban enfrentou poucas dificuldades para retomar o país. O trabalho de Mohammad Mustafa Raheal na nossa equipe, destacou o papel central desta divisão rural-urbana no eventual colapso.
Pois quais as razões, a seu ver, para que a grande mídia atualmente desconsidere o Afeganistão, já por muito tempo depois da histeria inicial pós-atentados do 11 de Setembro, seguida pela ocupação dos EUA em 2001, professor Kivimäki?
A mídia internacional é amplamente controlada pelo poder, e pelos recursos financeiros do Ocidente. Escrever criticamente sobre as guerras e intervenções ocidentais tornou-se muito perigoso. Ser crítico não é bom para a carreira de ninguém, ao passo que revelar a verdade com provas de irregularidades nas guerras ocidentais tornou-se perigoso para os jornalistas de investigação.
Na Europa, já existem vários jornalistas que não foram julgados nem condenados por nada, mas que vivem em condições semelhantes às das prisões, com os seus bens e contas bancárias congelados por decisões do executivo.
O declínio da divisão de poderes entre os sectores executivo, legislativo e judicial está a desgastar-se rapidamente, e os meios de comunicação social e o meio académico são os primeiros a experimentar isso.
Portanto, é por isso que ouvimos falar dos horrores do domínio taliban, mas não ouvimos por que razão os afegãos estavam dispostos a aceitar a substituição do domínio liderado pelos EUA por praticamente qualquer coisa doméstica.
Vozes locais dizem-me há muito tempo que a luta entre EUA e Taliban é um engano total: o alardeado “antagonismo profundo entre os Taliban e o Ocidente”, dizem, é uma pura mentira. Ambos são aliados, trabalham juntos, incluindo no tráfico de heroína. Os EUA usam os Taliban, dizem essas vozes, como fantoche, uma justificativa para mais intervenções, para a defesa de interesses económicos e regionais no Afeganistão. Qual sua opinião sobre isto?
Esta não é a minha opinião. Afirmar que os Taliban são um fantoche dos EUA está londe de ser minha opinião.
Dizem que o Estado Islâmico (ISIS) está prestes a substituir o Taliban: como o senhor avalia esta consideração?
O ISIS e o Taliban são adversários há muito tempo, e não espero que o ISIS derrote ou substitua os+ Taliban. Minha preocupação é diferente: elementos do governo taliban parecem estar se aproximando do modelo do ISIS.
Os talibans têm lutado para satisfazer as expectativas ocidentais, mesmo em áreas onde inicialmente expressaram intenções mais democráticas.
Por exemplo, o movimento comprometeu-se publicamente a proporcionar educação às jovens mulheres desde o nível primário até o ensino superior, mas este compromisso nunca foi implementado. Uma das razões reside no profundo antagonismo entre o Taliban e o Ocidente, refletido de forma mais visível no congelamento dos ativos estrangeiros do Afeganistão nos Estados Unidos e na Europa.
A dinâmica é compreensível. Se considerarmos a forma como os indivíduos com opiniões pró-Rússia são tratados nas sociedades ocidentais, torna-se mais fácil ver porque as vozes mais moderadas dentro do governo taliban têm dificuldade em avançar suas posições.
Tal como políticos e académicos pró-Rússia enfrentam marginalização no Ocidente devido à hostilidade geopolítica, mais membros reformistas do Taliban enfrentam a marginalização dentro da sua própria administração. São constantemente confrontados com a narrativa de que o Ocidente “roubou” 13 bilhões de dólares do Afeganistão.
Esta dinâmica, creio eu, ajuda a explicar porque é que os Taliban se deslocaram numa direcção mais comumente associada ao ISIS do que à sua própria trajectória anterior.
A comunidade internacional também já esqueceu o Afeganistão. O senhor não vê uma minimização dos crimes dos talibans a nível internacional, o que poderia levar a uma normalização do grupo terrorista?
O isolamento e a percepção de tratamento injusto – especialmente a recusa em negociar termos razoáveis para libertar os fundos congelados do Afeganistão – estão empurrando tanto o país como o Taliban para posições cada vez mais antiocidentais.
Esta mudança torna mais difícil para as figuras pró-democráticas dentro do governo, que existem, manter influência. Geopoliticamente, os laços crescentes do Afeganistão com a China e a Rússia amplificarão as consequências negativas a longo prazo para o Ocidente.
O padrão é familiar. Durante a Guerra Fria, a pressão ocidental levou muitos movimentos nacionalistas e antiimperialistas, primeiro para a esfera soviética e, finalmente, ao comunismo. Parece que estamos repetindo esse erro.
O senhor não receia que um reconhecimento generalizado dos talibans tornaria impossível responsabilizar o grupo por seus crimes? Tem sido amplamente debatido em todo o mundo que reconhecer o Taliban normalizaria seus crimes, fortalecendo o apartheid de gênero no Afeganistão. Como avalia essa visão?
O isolamento não ajudará a resolver os crimes passados , ou mesmo presentes, dos talibans. Sem comunicação, não temos como contribuir de forma significativa para o desenvolvimento positivo no Afeganistão, ou para o futuro da nossa relação com o país.
O Taliban governa o Afeganistão independentemente do reconhecimento ocidental, e essa realidade não deve ser ignorada.
A forma como o regime taliban trata as mulheres é desprezível, não há dúvida disso. No entanto, a injustiça do Ocidente em relação ao Afeganistão tornou muito difícil para aqueles dentro do Talibã, que apoiam uma maior igualdade de gênero, terem voz no governo.
O Taliban prometeu permitir que meninas ingressassem no sistema educacional e nas universidades afegãs, mas essa promessa nunca foi cumprida. Aqueles que fizeram a promessa e apoiaram essa abertura foram silenciados como apoiadores do inimigo ocidental injusto, apesar de eu ouvir dizer que eles eram maioria no governo taliban.
Não há desculpa para a discriminação do Taliban contra as mulheres, mas, se pensarmos em como políticas razoáveis no Ocidente se tornam inaceitáveis se nossos próprios inimigos, digamos, os russos, preferem que adotemos tais políticas, devemos entender por que o congelamento de fundos afegãos em bancos ocidentais não está ajudando as meninas e mulheres afegãs.
Qualquer pessoa que promova políticas que agradem a Putin no Ocidente será considerada pouco confiável e traidora; portanto, é compreensível por que as pessoas que apoiam a igualdade de gênero no governo taliban não conseguem ter sua voz ouvida.
Qual sua avaliação sobre a atuação do Tribunal Penal Internacional (TPI)?
O TPI tem sido muito construtivo, e suas investigações melhoraram, em vez de pôr em perigo, as perspectivas de paz e não-violência. Investigámos isto apenas no ano passado e publicámos os nossos resultados num artigo numa revista chamada Global Society.
Contudo, o TPI é sistematicamente menos eficaz quando o seu funcionamento se baseia na dissuasão e não no diálogo.
No Afeganistão, o problema especial com o TPI é que desde 2007 o TPI tem tentado investigar casos de tortura dos EUA no país, mas esta investigação tem sido sempre bloqueada pela forte resistência política do Ocidente, especialmente dos EUA, embora já tenha havido um reconhecimento por parte do TPI de que havia uma base razoável para acreditar que as forças dos EUA e os membros da CIA cometeram crimes de guerra.
Assim, simplesmente investigar os Taliban e não investigar os crimes de guerra anteriores seria objeto de resistência por razões compreensíveis.
Quais as soluções para dissuadir os crimes do Taliban, que medidas eficazes podem ser enxergadas no sentido de se democratizar o Afeganistão?
Acredito que, em geral, a dissuasão não ajuda a promover a democracia e uma melhor governação. Especialmente quando a ameaça muitas vezes visa todo o país, promove uma mentalidade que justifica ainda mais abusos e violência: sabemos que as prioridades de segurança que tal dissuasão ameaçaria tendem a justificar a violência em vez da democracia. Contudo, penso que o TPI poderia ser útil no Afeganistão.
Por um lado, esta organização não se concentra em que todo o Talibã ou o Afeganistão punam a todos, culpados e inocentes, como as sanções e a guerra tendem a fazer. A ideia de lidar com os indivíduos que participaram nos crimes mais atrozes poderia ser aceitável para o governo Taliban, e isto poderia ser construtivo.
No entanto, isto não pode ocorrer como uma intervenção discriminatória. Se o TPI não for autorizado a investigar a existência de instalações de tortura americanas e de indivíduos que estiveram envolvidos em crimes hediondos apenas porque eram americanos, seria difícil imaginar que o governo afegão ficaria feliz em deixar o TPI investigar o seu próprio povo.
Deixar o TPI fazer algo construtivo no Afeganistão exigiria compromissos também por parte dos EUA, compromissos que não ameaçariam o país, mas apenas aqueles que estavam, como indivíduos, envolvidos em atrocidades. Esses indivíduos não foram, contra todas as declarações, julgados nos EUA e, portanto, o TPI deveria ter jurisdição sobre os crimes que cometeram no Afeganistão.
Se isso não fosse possível, também não creio que seria possível investigar indivíduos do governo taliban.
Em uma entrevista concedida a mim em 2016, o senhor observou ¨a importância de fortalecer a ONU, em vez de impor força focada nas interpretações das normas pelos estados.¨ O que mudou desde então? A ONU foi fortalecida de lá para cá?
Penso que a ONU enfraqueceu-se substancialmente, primeiro devido ao moralismo internacionalista dos presidentes democratas dos EUA, e depois pelo excepcionalismo dos presidentes republicanos.
Biden e Obama falaram coisas boas sobre a ONU, mas sentiram que os EUA eram obrigações morais e algum tipo de liderança natural no mundo e, portanto, iniciaram muitas guerras de protecção que deveriam ter exigido que o mandato da ONU fosse legal, e que depois acabaram por provocar muita resistência violenta e, assim, escalar a violência.
O problema com esta linha foi que Obama e Biden sentiram que as suas interpretações do que é justo eram consideradas unilaterais, enquanto na realidade as pessoas em diferentes partes do mundo pensam de forma diferente sobre equidade, justiça e moralidade.
Obama e Biden consideraram tais desvios do seu conceito de moralidade como desonestidade e criminalidade. Embora Trump e Bush não tivessem esta aparente superioridade moral, enfatizaram os interesses dos EUA e desconsideraram os compromissos dos EUA com os acordos e o direito internacional e muito menos a primazia nas relações internacionais dos Estados Unidos.
Isto significou que os EUA não impuseram a sua própria compreensão da democracia a outras nações durante os presidentes republicanos, mas roubaram mais ou menos os países em prol dos seus interesses nacionais. Bush tentou justificar isto com algum discurso de democracia versus autocracia, enquanto Trump nem sequer tenta.
Ele diz “nós temos o petróleo [sírio]”, e afirma que os europeus são cobardes quando não o juntam ao Irão para retirar o petróleo do Irão. Tanto a ilegalidade republicana como a superioridade moral americana percebida pelos democratas reduzem a autoridade da ONU, enquanto a dívida crescente dos EUA para com o orçamento da ONU e o orçamento de manutenção da paz da ONU reduz a capacidade da ONU de realizar operações de manutenção da paz com bons recursos.
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