“O mundo está sendo devastado por um punhado de tiranos”: a viagem do Papa Leão à África
Em sua recente jornada de 11 dias por cinco países da África, o Papa Leão XIV denunciou “tiranos” e “colonização”. Desta missão que incluiu Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial — cerca de 17.700 quilômetros percorridos, dezoito voos aéreos, homilias rezadas em quatro idiomas, diversas visitas a centros de caridade e até mesquitas com o fim de dialogar com as diferenças pela paz —, retornou um pontífice já bem menos ¨discreto¨ diante os problemas mundiais. Incisivo, cuja voz ecoou, inevitavelmente, por todo o mundo, isto nao significa que tenha agradado a todos. ¨Politicamente correto¨ ou nao, a realidade é que o mundo teve que ouvir as verdades ditas pelo Papa desta vez, ainda que inconvenentes.
Insistindo para que seus discursos no continente africano fossem lidos em outros lugares, levando-se em conta o público a quem se dirigia, Leão XIV observou, já de volta ao Vaticano em tempos profundamente sombrios onde a ignorancia parece claramente prevalecer sobre razao, a indiferenca em contraposicao a empatia, que a democracia “permanece saudável apenas quando enraizada na lei moral, e em uma verdadeira visão da pessoa humana”.
Sem esse alicerce, alertou ele, as democracias se transformam em “uma tirania majoritária ou em uma máscara para o domínio das elites econômicas e tecnológicas”. O poder, acrescentou o pontífice, não é um fim em si mesmo, mas uma confiança — “o verdadeiro poder vem da virtude, não da força”.
“O mundo está sendo devastado por um punhado de tiranos”, disse o Papa. Denunciou “os mestres da guerra” por gastar bilhões de dólares em assassinatos, enquanto “os recursos necessários para a cura, educação e restauração de vidas não são encontrados em lugar nenhum”.
Neste contexto, os Estados Unidos gastaram mais de 916 bilhões de dólares em defesa no ano passado, enquanto o Medicaid, o auxílio-moradia e as escolas públicas seguem abandonadas pelo Estado. Os “senhores da guerra” que devastam a África, também denunciados por Leão XIV, não estão apenas a um oceano de distância da Casa Branca, do Capitólio ou das empresas de defesa que fazem lobby em ambos os lugares. “A verdadeira justiça busca não tanto punir, mas sim ajudar a reconstruir as vidas das vítimas, dos infratores, e das comunidades feridas pelo mal”, havia afirmado na África o pontífice.
Em entrevista coletiva a bordo do voo de volta da África, no último dia 222, Leão XIV abordou o Irã, a migração especialmente aos EUA, seu país de origem, a pena de morte e as questões LGBTQ+. Ele disse que carrega consigo a foto de um menino libanês morto na guerra de agressao sionista-americana no Oriente Médio.
Disse aos repórteres o que vem dizendo ao mundo desde que os Estados Unidos e Israel começaram a bombardear o Irã: “Como Igreja — repito — como pastor, não posso ser a favor da guerra”. A primeira pergunta na entrevista veio de Ignazio Ingrao da rede Tg1, se o pontífice esperava uma mudança de regime no Irã. “A questão não é se haverá ou não mudança de regime. A questão é como promover os valores em que acreditamos, sem a morte de tantas pessoas inocentes”.
Voltou, nesta série de perguntas de jornalistas, a qualificar de “inaceitável” a ameaça de Trump de destruir a civilização do Irã, pelo que suplicou aos católicos americanos que ligassem aos seus congressistas. O Papa afirmou que a “ilusão de onipotência” que rege as potências nucleares mundiais deve acabar.
Diante da pressão de Washington através das perguntas dos jornalistas, o Papa não recuou em nenhuma delas — nem em relação ao Irã, nem a Israel, nem à crescente campanha por guerras. Ele disse ainda aos repórteres que condena a pena de morte em todos os lugares onde ela é praticada.
As execuções de membros da oposição realizadas pelo regime iraniano naquela mesma manhã se enquadram nessa condenação. “Condeno todas as ações injustas”, afirmou. “Condeno o assassinato de pessoas. Condeno a pena de morte. Acredito que a vida humana deve ser respeitada”.
Disse que a África é frequentemente tratada como local de extração de minerais para benefício dos países mais ricos. Esses países, por sua vez, constroem muros contra os povos cujas terras natais foram devastadas.
Ao mesmo tempo que reconheceu que os Estados têm o direito de regulamentar suas fronteiras, insistiu que o ser humano que chega às fronteiras é um ser humano a quem é devida a dignidade inerente a todo ser humano. O trabalho pela justiça, argumentou, deve começar na origem — nas economias ricas que se beneficiam do mesmo subdesenvolvimento que se recusam a combater.
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