A Falência Eleitoral e Moral do MAS – e de Evo Morales

Partido que esteve no poder boliviano por quase 20 anos ininterruptamente, não apresentou nenhum candidato para as eleições subnacionais deste ano

Pela primeira vez em 20 anos, o Movimento ao Socialismo (MAS) da Bolívia não conseguiu lançar sequer um candidato às eleições subnacionais, em nenhum dos nove departamentos (estados) do país andino que elegeram novos governadores, prefeitos e assembleístas no último domingo (22).

Se surpreendeu (positivamente) que sequer foram ao segundo turno na disputa pelo governo de Santa Cruz seus “velhos caciques”, Luis Fernando Camacho, do partido Creemos, e Branko Marinković, do partido Demócratas; a ilustre ausência do MAS, que elegeu quatro vezes Evo Morales à presidência, não causou comoção; pelo contrário: tida como natural, quase nada foi assunto por todo o país.

Os velhos “analistas” e “ativistas” (em muitos casos ativistas por interesses políticos, nestes casos invariavelmente sustentados com doações de pagadores de impostos, “entre outras¨ fontes ¨incertas¨) estão agora completamente calados.

Na verdade, desde que teve início o dessaudoso mandato do ex-presidente Luis Arce do MAS em 2020, agora preso por corrupção, a exemplo de seu filho, pouco se fala da Bolívia entre esses mesmos “analistas” e “ativistas”. Até que, com o passar do tempo, foi-se “perdendo o interesse” pela Bolívia por parte dos outrora “apaixonados” defensores do “progressismo” boliviano.

Onde estão eles para comentar a Bolívia agora, por cuja causa manifestavam tanta paixão até um passado não muito remoto? Eles não têm nada a dizer sobre o porquê do país andino ter chegado a esta situação? Ou, ou que já seria muito antético, deixando seus leitores ¨na saudade¨ (justo neste momento), perderam mesmo o interesse? Está tudo realmente fora de lugar nesta equação.

Dias atrás, congressistas, inclusive do MAS (ala afinada com Morales), afirmaram com base em evidências de que “os filhos de Arce eram donos de instituições públicas”. Em dezembro de 2024, o ex-chefe antidrogas da Bolívia nos anos do governo de Evo Morales, Maximiliano D’ávila Pérez, foi preso e extraditado aos Estados Unidos, acusado de importação de cocaína em grandes quantidades e uso de metralhadoras no contexto do narcotráfico. Apenas um aterrorizante vislumbre, bem resumido, da corrupção na Bolívia.

Junto dos fracassos políticos e econômicos do novo governo, bem como de casos de corrupção, vinham à tona os abusos de Morales, além das aparições públicas que desconstruíam totalmente o personagem internacionalmente criado sobre ele.

O próprio silêncio hoje de “intelectuais” locais como Álvaro García Linera, ex-vice-presidente nos anos de Morales, lançado ao mais completo ostracismo mesmo entre os correligionários, contraria a narrativa favorável ao MAS e a cada um de seus personagens – incluído o “sábio” e “respeitado” Linera quem, sem exagero, dificilmente venceria uma eleição boliviana para síndico de condomínio, que fosse (não de hoje,e ele sabe bem disso, por isso nunca atreveu-se a se expor a nnenhuma candidatura).

Desde 2021, Linera e Morales trocam acusações — o primeiro acusa o segundo de “sede pelo poder”, enquanto o segundo acusa aquele que foi seu vice por 15 anos de, entre outras coisas, ter utilizado os indígenas politicamente. Ambos têm razão em suas acusações, que estão longe de serem o todo do poder putrefato que lideraram.

Tudo se complicou porque a realidade foi ficando tão evidente no país andino que, ao abordá-lo, já não teria mais como sustentar suas velhas narrativas sobre a “progressiva” Bolívia “modernizada” por Evo Morales. Até que, logo no primeiro ano de mandato, Arce começou a medir ferozmente forças com seu mentor político, Morales, de quem foi ministro da Economia.

Antes disso, logo que retornou do autoexílio na Argentina em 2020, era frequente Evo Morales ser intensamente xingado e agredido nas próprias reuniões do MAS, na maioria dos casos, acusado (com razão) de praticar “dedaço”, isto é, indicar ele mesmo nomes que deveriam candidatar-se pelo partido. Em diferentes ocasiões, Morales recebeu inglório “batismo” de volta para casa da zona riopratense: sequências de “chuvas de cadeiras” nos encontros partidários, por parte de seus furiosos correligionários.

Nas eleições presidenciais de 2025, a participação do MAS foi previsivelmente pífia – marcando, já na campanha, o descolamento definitivo dos tão apaixonados, historicamente “analistas cativos”, da “progressista” Bolívia.

A votação em favor de Eduardo del Castillo, candidato “massista” – como se diz entre os bolivianos, ex-ministro – e ex-ministro de Governo de Arce, seria de causar pena se não se tivesse ciência do que foram os anos do MAS no poder, e particularmente do governo do qual fez parte: 3,16 por cento dos votos.

Menos 0,17 por cento, e o MAS teria perdido a personalidade jurídica, ou seja, não existiria mais (segundo a legislação eleitoral na Bolívia, partidos que não atingem 3 por cento de votação são desabilitados).

Mas, afinal, o que deu errado para que o MAS, que outrora ostentava tanto poder e popularidade nos quatro cantos do país ao centro da América do Sul, tenha falido eleitoral e moralmente?

Creditar isso à raivosa divisão interna do MAS por poder seria uma consideração excessivamente simplista. O que já seria gravíssimo, especialmente levando-se em conta a narrativa dos “analistas” sobre o MAS e do partido sobre si mesmo.

Ocorre que a Bolívia, que já possui histórico de corrupção, violência, golpes de Estado como poucos países na região e aliança ao narcotráfico das altas cúpulas políticas envolvendo todos os partidos políticos, nos anos em que o MAS esteve no poder.

Algo que pode ser dito, em seu conjunto, singular na região. Apenas estando na Bolívia para se ter ideia do nível de corrupção, das drogas sensivelmente presentes nas ruas,em toda a parte e na própria economia do país, além do sistema de justiça completamente cooptado pelo partido dominante.

E dos abusos de poder em geral que chegaram a ponto de massacrar comunidades indígenas em diferentes regiões do país. Como os casos dos chiquitanos em Santa Cruz e dos povos originários de Chaparina, em 2011 (leia Indígenas Chiquitanos Acampan en Santa Cruz de la Sierra por Edu Montesanti, 2019, e La Represión en Chaparina Permanece en la Impunidad por Fundación Observatorio de Derechos Humanos y Justicia, Bolivia, publicação sem data especificada).

Houve até forte repressão policial contra portadores de necessidades especiais que, em La Paz, protestavam pacificamente por melhores condições dos serviços do Estado: imagens de cadeiras de rodas rolando pelas ruas para um lado e “cadeirantes” para outro inundaram os meios de comunicação na Bolívia. Enquadrando-se, como pode-se ver em algumas imagens a seguir, no ¨apenas estando presente para crer¨ apontado mais acima, sobre a realidade boliviana.

Em rigorosamente todos os casos de terrorismo de Estado, mesmo os que envolveram assassinatos de civis, sem justiça até hoje.

Foi durante os primeiros anos de Morales no poder – algo continuado fielmente por Arce – que a região do Chapare, departamento de Cochabamba, tornou-se literalmente um Estado paralelo na Bolívia: a polícia até hoje não consegue entrar naquela zona.

Na verdade, ninguém entra sem autorizacao dos seus ¨donos¨ – apoiadores do ex-presidente Morales, quem reside naquela zona. Foi criado um exército clandestino, fortemente armado, que blindou até hoje Chapare – o principal centro de produção e tráfico de cocaína da Bolívia, que abastece todo o mundo.

O saldo dessa ¨ressaca¨ do poder massista deixou várias sequelas graves no país andino. Uma delas, apontada pelo World Justice Project de 2025 que o coloca como o terceiro país mais corrupto do mundo, à frente apenas de Camboja e Rep. Dem. do Congo. No quesito específico da justiça criminal, a Bolívia figura como o segundo país mais corrupto do mundo.

Morales deixou o poder com uma economia em muito mau estado, que foi ladeira abaixo com seu afilhado político: a inflação cresceu exponencialmente diante de um Estado falido, abandonado, sem dinheiro, sem serviços públicos minimamente decentes em um país onde nenhuma família é assistida em nenhum setor, se não tiver dinheiro (algo dito aberta e generalizadamente na sociedade boliviana). 

Deixando a sensação entre os bolivianos de que seu estado de miséria os levava de volta à pavorosa primeira metade dos anos de 1980. E a clarividente realidade de ausência total de justiça, em todas as partes, para todos os casos.

Houve uma saturação geral da sociedade em relação aos desmandos do MAS. Quanto a Evo Morales, vive hoje escondido em seu reduto eleitoral, o Chapare, acusado de pedofilia e tráfico de menores de idade. Rejeitado, inclusive, por povos originários do Ocidente boliviano que, anos atrás, votavam apaixonadamentre por ele.

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Author`s name Edu Montesanti