Pravda.ru

Mundo

Mono Jojoy: Fim da guerra só vira com o diálogo

30.10.2010
 
Pages: 123


Jorge Enrique Botero: Passaram-se oito anos de Uribe, também gastaram mais de dez mil dólares americanos e uns 30 bilhões de dólares de investimento colombiano; dezenas de milhares de soldados, aviões, desembarques, bombardeios, recompensas, informantes e, mesmo assim, as FARC continuam por ai... Como o senhor explica isto, comandante?


Mono Jojoy: Simplesmente porque o povo é invencível e as causas pelas quais nós surgimos ainda estão vivas. Com o uribismo, essas causas têm se multiplicado e isso faz com que as FARC cada vez mais se aperfeiçoem na sua parte política e militares. Essa é a razão pela qual nem os imperialistas, nem a oligarquia colombiana, nem Uribe podem nos derrotar: porque somos o povo em armas.

JEB: No terreno militar, de quê forma esse aperfeiçoamento das FARC que o senhor se refere, tem-se expressado?

MJ: Em muito mais mobilidade, melhor aplicação do comando em todos os niveis da implementação tática, operacional e estratégica da nossa linha, mas também na organização das massas, do contato com o povo. Continuamos a avançar com mais força, porque temos 46 anos de existência e já vamos para 47. Aproximam-se os levantamentos populares. Não só na Colômbia mas em toda a América e no mundo.

JEB: As FARC vinham de um período de quase três anos de diálogos, de uma zona desmilitarizada, de pouca confronto com o exército e, de repente, rompe-se os diálogos; Quão dura foi para vocês essa transição da zona desmilitarizada para o Plano Patriota?

MJ: O planejamento político-militar e estratégico das FARC tem sido sempre para guerrilhas móveis, um exército regular. Durante todo tempo das conversações tivemos isso muito claro, então o que se produziu foi um acoplamento à nova situação. Além disso, no governo de Andrés Pastrana existiam cinco municípios liberados pelas forças públicas, mas no restante habiam confronto político-militar.

JEB: Comandante, no caminho para este lugar onde realizamos esta entrevista, tive a oportunidade de conversar com muitos guerrilheiros, que de alguma forma se sentem gratos pela quantidade de treinamento, de experiência de combate adquirida nesses anos. O que mudanças vê em suas tropas?

MJ: Vejo comandantes e pessoal de base muito mais qualificados, mais políticos, mais trabalhadores pela paz na Colômbia, que acham necessário o confronto militar para chegar às conversações. Nós não estamos fazendo a guerra pela guerra, ou porque gostamos, é que o Estado inventou esta guerra e este mesmo Estado, com seus dirigentes oligarcas, com os gringos, têm que resolvê-la.

JEB: A última vez que pude entrevista-lo já faz uns sete anos. O senhor prognosticava a um grupo de prisioneiros de guerra que com o presidente Álvaro Uribe não haveria nenhum tipo de acordos, e seu prognostico se cumpriu. Na sua opinião, para onde vai a guerra? O que vislumbra para o futuro com a chegada de Juan Manuel Santos como o novo presidente do país?

MJ: Santos, como a continuação de uma política imperialista e oligárquica, buscará, por todos os meios, destruir a luta do povo colombiano. Nós, que fazemos parte dessa luta, partimos do princípio de que o povo é invencível, então a guerra vai terminar em uma mesa de negociação para resolver o que está colocado nos documentos das FARC, de outra forma não há acordos.
Isto não se acaba com tiros, nem bombas, nem mísseis, nem com aviões: se acaba com cabeças pensantes, com políticas, resolvendo as necessidades do povo. Para isso caminha a guerra. Nós, humildemente, com muita modéstia, continuamos o enfrentamento militar porque não há outra saída. É o inimigo que não quer conversar. A guerra vai continuar enquanto a oligarquia decida mantê-la. Não estamos de acordo com a guerra, a fazemos porque fomos obrigados, porque foi imposta. Não há outra decisão e o fazemos com dignidade.

JEB: Ainda há 19 oficiais das forças públicas sob a guarda das FARC. O que você sabe deles, como estão de saúde, quais são as suas condições e o que acha que pode acontecer em relação a sua libertação?

MJ: Em primeiro lugar, a troca de prisioneiros continua vigente, porque são proposta FARC, por isso lutamos e o povo colombiano tem que dedicar muita energia para tirar esses suboficiais e oficiais da polícia e do exército que estão sob a nossa guarda. Essa é uma decisão política. O governo já disse: os resgataremos por qualquer meio e, segundo essa linha, tem havido algumas ações nefastas, desgraçadas, nas quais tiveram a oportunidade de resgatar alguns mas isso não indica que todos possam ter êxito. O objetivo é a troca de prisioneiros, e continuar a lutar por isso.

JEB: O senhor tem noticias dos reféns, o que sabe sobre a saúde deles?

MJ: Eles estão bastante desgastados pela mobilidade, pelas operações militares, pelos bombardeios que põem em perigo essa gente que lutou pelo Estado, pela oligarquia colombiana, para a qual eles não tem a menor importância. São mandados para o combate somente como bucha de canhão, para ser mortos ou mutilados, são gente pobres assim como nós. São gente do povo.

JEB: Houve muita especulação sobre o suposto isolamento total em que se encontram as FARC, inclusive criaram-se mitos que vocês estão comendo raízes. Recentemente houve uma grande operação sobre supostas cavernas onde o senhor estaria se escondendo... Dissem que vocês estão desconectados do mundo. Quão tão conectado ao mundo se sente o Mono Jojoy?

Pages: 123