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Os impulsos expansionistas e a escalada militar na América do Sul

27.08.2020
 
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Os impulsos expansionistas e a escalada militar na América do Sul

Por Fabio Reis Vianna

Em 1870, quando saia devastadoramente derrotada da guerra contra a Prússia, a França do Imperador deposto Napoleão III cairia em uma fratricida divisão interna que levaria ainda muitos anos para cicatrizar.

 

A paz dolorosa imposta por Bismarck marcaria a sociedade francesa naquele princípio de Terceira República, onde um país imerso no caos buscava uma saída para a própria sobrevivência.

 

Uma das mais chocantes cenas da queda de braço entre poderes da República no Brasil foi exposta na primeira semana de agosto, quando a revista Piauí revelou que em reunião fechada junto a ministros - em sua grande maioria fardados - , o presidente Bolsonaro ameaçara intervir militarmente no STF para, pasmem, depor seus ministros.

 

Após um silêncio ensurdecedor tanto da Suprema Corte, quanto das presidências da Câmara dos Deputados e do Senado da República, o Brasil parece acostumar-se ao caos sistêmico resultante do acumulo de crises que arrastam o país e suas instituições para o abismo desde a Revolução Colorida de junho de 2013.

 

Mais recentemente, o aparente acordo de cavalheiros encenado após a ameaça de demissão do ministro da economia traria a ilusória impressão de que o presidente incendiário, finalmente, havia sido domesticado.

 

Não se passou muito tempo para que a TV Record - pertencente ao bilionário proprietário da igreja Universal -, um dos principais sustentáculos midiáticos do governo Bolsonaro, divulgasse em seu principal telejornal acusação do doleiro Dario Messer de que o mesmo entregava pacotes de dinheiro aos integrantes da poderosa família Marinho, proprietária da Rede Globo.

 

Um dos sustentáculos do regime militar que se instalou com o golpe de 1964, a Rede Globo, maior beneficiária do antigo regime e mais recentemente, braço midiático dos processos de guerra híbrida e lawfare responsáveis pela derrubada do Partido dos Trabalhadores, e pela prisão do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, hoje é um dos maiores alvos do governo de extrema-direita que se instalou no Palácio do Planalto.

 

Algo aparentemente intocável nas últimas décadas - o poder intimidador da Globo pairando sobre as instituições -  parece estar se quebrando, e com a chegada da pandemia, divisões internas no seio das oligarquias são cada vez mais visíveis.

 

O racha no Ministério Público Federal - tentáculo operacional do Departamento de Justiça dos EUA (DoJ) desde 2014 - é um exemplo explícito da guerra interna deflagrada durante o governo de  Jair Bolsonaro.

 

Dentro da Polícia Federal isso se reflete claramente na briga aberta entre a estrutura de polícia política até então a serviço da chamada Operação Lava jato, e a atual estrutura de polícia política agora a serviço do bolsonarismo na perseguição, por exemplo, a governadores de estado não alinhados ao governo federal.

 

Em termos mais amplos poderíamos interpretar essa guerra interna como um reflexo do caos sistêmico pós-pandêmico.

 

Assim como na Terceira República francesa, que nascera da derrota de uma guerra, o Brasil atual, que enterra a já velha Nova República, talvez nunca tenha se revelado tão dividido e conflagrado. E assim como aquela França que ingressava no então novo século XIX, o Brasil deste início de século XXI nunca esteve em posição tão vulnerável.

 

Seguindo este raciocínio, o recente acordo com o chamado Centrão, e a consequente domesticação de Bolsonaro, a longo prazo, não se sustentaria no fato de que o Brasil e a América do Sul de hoje são um dos principais campos de batalha pela disputa hegemônica global entre os EUA e o projeto eurasiático.

 

Na esteira das radicais mudanças no sistema mundial que se aceleraram com a pandemia, nosso caos sistêmico interno - apesar do aparente apaziguamento oligárquico - ainda se aprofundará. E muito.

 

A lógica de competição permanente no sistema interestatal já estava visível, e foi referendada pelos Estados Unidos, quando estes abandonam de vez o lugar de detentor dos "valores éticos ocidentais".

 

No dia 18 de dezembro de 2017- e é sempre necessário lembrar- ao anunciar sua nova estratégia de defesa nacional, os Estados Unidos abdicam da liderança benevolente construída ao lado das instituições da chamada Ordem Liberal do pós-guerra e escancaram o "novo normal" do sistema mundial, ou seja, a competição agora é aberta e permanente, e a vontade do hegemon será imposta à força. E se necessário através da guerra.

 

Essa espécie de profilaxia nacionalista que levou os americanos a uma postura mais agressiva em sua atuação no sistema mundial, se explica pelo aumento e a audácia dos competidores que ano após ano passaram a questionar cada vez mais o paraíso unipolar que os americanos conquistaram com o fim da guerra fria.

 

E curiosamente essa competição permanente, que também poderíamos chamar de guerra infinita, potencializou-se a olhos vistos com a chegada da pandemia do novo coronavírus.

 

Segundo o analista do conceituado Think Tank russo Valdai Club, Dmitry Suslov, a pressão dos problemas internos sobre os governos dos Estados Unidos e da China só irá aumentar nos próximos anos, algo que tornará suas políticas externas ainda mais impulsivas.

 

Ou seja, os impulsos expansionistas que já estavam aflorados antes da crise, com a pandemia se aceleraram; e muito em razão das tensões internas ocasionadas pelas perdas sociais decorrentes da mesma.

 

Neste sentido, o caso específico do Brasil é dramático.

 

Segundo o jornalista econômico José Paulo Kpufer , o novo secretário de Tesouro do governo Bolsonaro já estaria sinalizando um pós-crise de aprofundamento da austeridade fiscal, e por consequência, com "perdas sociais inaceitáveis."

 

Mesmo assim, e estranhamente, apesar de todo o aperto fiscal proposto para o pós-pandemia, o Ministério da Defesa anunciou a ampliação do orçamento para 2021 de R$ 6,7 bilhões para R$ 9,2 bilhões, um aumento de 37%.

 

Levando em consideração que a escalada militar se acelerou fortemente ao redor do mundo durante a pandemia, e não só entre as grandes potências, não nos iludamos: a ânsia de nossas forças armadas em turbinar o orçamento de defesa não é, nem de longe, um ponto fora da curva nesta tendência.

 

O que torna tudo ainda mais preocupante em relação a isso foi a divulgação do novo Plano Nacional de Defesa apresentado pelo governo brasileiro.

 

Um dos trechos do plano sugere que "possíveis desdobramentos" das crises nos países vizinhos justificariam um orçamento mais robusto para "projetos considerados prioritários aos militares, como a aquisição de aviões de caça, lançadores de foguetes e submarinos movidos a propulsão nuclear."

 

Reverberando isso, segundo a Agência Estado, "o plano destaca a possibilidade de tensões e crises no continente, que podem levar o Brasil a mobilizar esforços na garantia de interesses nacionais na Amazônia ou mesmo ajudar na solução de problemas regionais. A América do Sul não é mais considerada uma área livre de conflitos."

 

Mesmo considerando que a Amazônia sul-americana é um novo hub da disputa entre as grandes potências por recursos naturais, é preocupante que nossos militares gerem desconfianças desnecessárias e comprometam a longa tradição diplomática brasileira de boas relações com os vizinhos fronteiriços.

 

Não apenas na Venezuela, mas mesmo na Argentina, o alarme já soou.

 

Em entrevista a uma rádio argentina no dia 20 de agosto, o influente político peronista, Guillermo Moreno, apontou para a grande disparidade entre os orçamentos de defesa de Brasil e Argentina.

 

Moreno ressalta com grande preocupação a submissão do Brasil à estratégia de defesa dos Estados Unidos e o inacreditável momento histórico em que Brasil e Argentina, os dois aliados naturais na região, se veem praticamente rompidos.

 

Porém, o que causa mais espanto ao peronista - e por certo a todos nós - é o possível empréstimo de 90 bilhões de dólares por parte do governo americano para que o "complexo-industrial-militar" brasileiro possa se modernizar.

 

Se levarmos em consideração que a máquina de guerra dos Estados Unidos já está a um longo período sem uma nova guerra para chamar de sua (paradoxalmente, apesar da retórica belicista, nenhum novo conflito foi iniciado na administração Trump), não é nada improvável que em 2021 a Venezuela seja o alvo.

 

A repentina preocupação dos militares brasileiros em anabolizar o orçamento de guerra nos leva a intuir o pior dos cenários.

 

São inúmeros os focos de tensão ao redor do globo terrestre, a começar pelo maior de todos: a disputa entre Estados Unidos e China na região do Indo-Pacífico, que, como um olho de furacão, acabou se alargando e se reverberando para outras regiões como o Mediterrâneo Oriental, a fronteira entre Polônia e Bielorússia e, infelizmente, a América do Sul.

 

Como bem lembrou recentemente o experiente e sábio professor da UFRJ José Luís Fiori: um ex-aliado dos Estados Unidos chamado Saddam Hussein, um dia celebrado como grande democrata, foi convenientemente usado pelos americanos na guerra contra o Irã em 1980. Não se passaram muitos anos para que o mesmo democrata de outrora virasse um ditador, e assim descartado, e seu país destruído.

 

Que reste o alerta para os militares brasileiros.

 

Foto: By Public Domain, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=649347

 


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