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Avigdor: um fascista entre nós

24.07.2009
 
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Por fim, acho também que houve pedidos expressos para que o Brasil se empenhe em aprovar no Senado a proposta de Tratado de Livre Comércio do Mercosul com Israel. Tal tratado tem apoio mais explícito da Argentina e há pedidos do governo desse país para que o Brasil aceite o acordo. Todas as entidades representativas da sociedade brasileira condenam a assinatura desse acordo. Um dos poucos pontos de unanimidade entre estas entidades.

O governo Lula

Não me cabe dizer o que o governo Lula deve fazer ou não fazer com relação ao Estado de Israel. O pouco que sabemos é que o presidente desse país, Shimon Peres, chega ao Brasil em novembro e que Lula visitará Israel até o final do ano. Sabemos bem a força e as pressões que fazem os judeus sionistas em todo o mundo sobre todos os governos. Isso vale para os Estados Unidos como vale para o Brasil. Sabemos até mesmo a força que possuem na mídia em geral, grande imprensa, partidos políticos, parlamento no país. Assim, entendo até como natural que Lula receba essa figura controversa que, apesar de tudo, representa um governo legítimo eleito.

O Estado de Israel comercializa pouco com o Brasil. Não chega a dois bilhões de dólares. Os países árabes, com mais de 300 milhões de habitantes, comercializam cinco vezes mais, mas esse é um movimento que cresce a cada dia. O mais importante nesse processo é que o Brasil deixou claro a sua posição ao chanceler. De que apoia com firmeza a criação do Estado palestino e que não aceitará nenhuma pressão para que alguém de fora venha nos dizer como devemos nos relacionar com o Irã, um país amigo do Brasil, com quem temos boas relações e interesses comerciais.

Agora diversos outros países e chefes de estado e de governo se recusaram a receber o polêmico chanceler. Barak Obama foi um deles, tal qual Nicolas Sarkozi, na França. Claro que não podemos comparar a força desses países com a do nosso país. No caso dos Estados Unidos, quem recebeu Avigdor foi a secretária de Estado, Hilary Clinton. A coletiva que deram juntos foi emblemática. Ela falava uma coisa ele desdizia de outro lado, contestando a posição da chefe da diplomacia estadunidense, que ficou muito irritada com isso. Ao término do evento, Hilary acabou tropeçando e caindo, quebrando o braço. Nos bastidores dizia-se que Liebermann a havia empurrado. Hoje a sua figura é tão controversa que o governo de Netanyahu resolveu ele próprio representar Israel na Assembleia da ONU em setembro, tamanha a rejeição mundial a essa pessoa.

Essa visita de Liebermann ocorre em momento delicado e especial. No mundo e no Oriente Médio. O clima segue tenso na região, pois não há perspectivas de paz. Os palestinos nem negociam mais, pois não há propostas concretas de solução para os seus problemas e suas reivindicações mais do que justas. A colonização esta em franca atividade. Agora mesmo o ex-primeiro Ministro, Ehud Barak, escreveu artigo no The Washington Post (1) defendendo abertamente a continuidade dos assentamentos e afirma que sempre teve apoio dos Estados Unidos para essas atitudes.

Acho que a diplomacia brasileira adotou uma posição extremamente pragmática ao receber persona tão não grata como essa controversa figura, que chegou a defender o uso de armas nucleares contra os palestinos na Faixa de Gaza nos ataques de dezembro e janeiro passado. E isso deve ter sempre limites. Essa atitude pode irritar parceiros muito mais importantes e estratégicos, como os países árabes e ficarmos isolados da imensa comunidade árabe e seus descendentes no Brasil.

Também quero registrar que lamento que apesar do pacto de silêncio da mídia acerca da agenda da visita, nós, participantes de entidades representativas de partidos políticos e de todos os segmentos sociais no Brasil não tenhamos conseguido fazer sequer uma manifestação, ainda que pequena, de protesto contra essa visita.

Nota

(1) “Discussão sobre assentamentos é inútil”, publicada domingo no Estadão do dia 19 de julho, domingo, página A18.

*Lejeune Mirhan, Presidente do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo, Escritor, Arabista e Professor Membro da Academia de Altos Estudos Ibero-Árabe de Lisboa, Membro da International Sociological

Texto: Lejeune Mirhan/Vermelho /

http://www.patrialatina.com.br/editorias.php?idprog=861637a425ef06e6d539aaaff113d1d5&cod=4566

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