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O imperialismo em transe: uma tríplice crise castiga o sistema capitalista

24.03.2021
 
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O imperialismo em transe: uma tríplice crise castiga o sistema capitalista

Edmilson Costa*

Nada será como antes

Amanhã ou depois de amanhã

(Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)

 

Parodiando o genial cineasta brasileiro, Glauber Rocha, o sistema capitalista mundial está em transe. Ao contrário das crises cíclicas periódicas e das crises sistêmicas anteriores[1], esta nova crise mundial do capitalismo tem um caráter original e devastador porque ocorre num momento em que o sistema está ferido por uma tríplice crise: a) uma nova onda da crise sistêmica global e suas consequências econômicas, sociais e políticas; b) uma crise sanitária que envolve todos os países e a grande maioria da humanidade; e c) uma crise de hegemonia imperialista, cuja expressão se reflete na decadência da economia líder e a ascensão de uma nova potência econômica mundial. Esses três fenômenos combinados têm a dimensão de um tsunami na ordem capitalista mundial: representam o esgotamento de um longo ciclo iniciado após a segunda guerra mundial; expõe de maneira rude as fragilidades dos sistemas sociais e de saúde dos países capitalistas e a incapacidade dos governos, especialmente nos Estados Unidos, de proteger a população; bem como o declínio estratégico da hegemonia dos Estados Unidos. Essa conjuntura afetará de maneira profunda todo o sistema imperialista mundial, tanto do ponto de vista econômico, monetário, social e político e terá desdobramentos de curto, médio e longo prazos no horizonte do capitalismo.

Para compreendermos a natureza dos problemas atuais do capitalismo, é fundamental atentarmos para o conjunto de profundas mudanças que ocorreram no interior das forças produtivas mundiais, desde o momento em que o sistema teve uma mudança de qualidade, com a internacionalização da produção e das finanças, a partir da segunda metade dos anos 50 do século passado, consolidadas nas décadas de 70 e 80 e, posteriormente, com a incorporação de novos e extraordinários setores produtivos. A introdução desses novos ramos de produção no sistema industrial, como com as tecnologias da informação, especialmente a internet e a telemática, a robótica, a microeletrônica, a engenharia genética e biotecnologia, a nanotecnologia e inteligência artificial, os novos materiais, entre outras, significou uma nova revolução industrial. Com essas inovações, o sistema capitalista deu um salto de qualidade e transformou a ciência e o conhecimento numa das ferramentas decisivas do sistema produtivo mundial. As novas tecnologias repercutiram também de maneira exponencial na órbita da circulação, gerando mudanças de qualidade tanto no sistema comercial, com o comércio eletrônico (e-commerce), quanto na esfera financeira e de serviços, o que modificou radicalmente a dinâmica dos negócios no capitalismo.

É interessante avaliarmos sinteticamente as mudanças que correram no interior do sistema produtivo capitalista para entendermos a natureza da crise e as contradições que essas novas forças produtivas operaram no interior do sistema tanto do ponto de vista econômico, quanto social e político. Marx tinha razão quando escreveu no prefacio da Contribuição à Crítica da Economia Política que há um momento em que as forças produtivas entram em contradições com as velhas relações sociais de produção e abrem espaço para as revoluções sociais. "O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e intelectual ... Em certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes, ou, o que não é mais que sua expressão jurídica, com as relações de propriedade no seio das quais elas se haviam desenvolvido até então ... De formas evolutivas que eram, essas relações convertem-se em entraves. Abre-se então a época da revolução social. A transformação que se produziu na base econômica transforma mais ou menos, lenta ou rapidamente, toda a colossal superestrutura ... As forças produtivas que se desenvolvem no seio da sociedade burguesa criam, ao mesmo tempo, as condições materiais para resolver esse antagonismo".[2] O que podemos constatar atualmente no sistema capitalista mundial é uma rebelião generalizada das sofisticadas forças produtivas do capital em contradição com as velhas relações de produção social, cuja expressão é a crise mundial,  porque estas relações já não correspondem mais ao estágio de desenvolvimento material e tecnológico do capitalismo.

A partir de meados da década de 50 o sistema capitalista começou a mudar tanto a forma quanto a estrutura de produção e das finanças em escala internacional, processo que se consolidou nos anos 70 e 80 do século passado. As transformações ocorridas tanto na órbita da produção quanto da circulação, produziram uma verdadeira revolução na base material, na esfera das finanças, do comércio e dos serviços, o que significou um salto de qualidade extraordinário no processo de acumulação mundial, inclusive resultando num processo de remonopolização global.[3] O sistema capitalista passou a produzir em todas as regiões do planeta e internacionalizar o circuito financeiro, comercial e de serviços, transformando-se efetivamente num sistema mundial completo.[4] Em todo o processo histórico anterior, o capitalismo só era completo no que se refere a duas variáveis da órbita da circulação - o comércio mundial e a exportação de capitais, a partir das quais capturava o mais-valor dos países da periferia. Mantinha o monopólio da produção nos países centrais e articulava a hegemonia mundial mediante aquilo que Raul Prebisch e Samir Amin denominaram, respectivamente, de deterioração dos termos de troca ou trocas desiguais, ou seja, os países centrais exportavam produtos manufaturados, onde a produtividade é exponencial, e importavam dos países periféricos produtos minerais e agropecuários, setores em que a produtividade é linear.

Com a internacionalização produtiva, o processo manufatureiro foi estendido também à periferia capitalista, que passou a se integrar às cadeias globais de produção, particularmente naqueles setores mais intensivos de mão de obra. Mediante a rede de milhares de filiais espalhadas por todos os continentes, a internacionalização da produção é hegemonizada pelas corporações internacionais, que dominam os setores que agregam mais valor e lideram o processo de pesquisa e desenvolvimento, o que significa o controle hegemônico de todo o processo mundial de produção. A aventura para o exterior do setor produtivo pode ter ocorrido, entre outros fatores, em função do esgotamento dos seus mercados, bem como pela necessidade de criar novos mercados de apropriação do mais-valor. Isso foi facilitado pelas imensas vantagens que os novos territórios de produção proporcionavam a essas corporações como matérias-primas próximas ao sistema produtivo, mão de obra barata e facilidades institucionais criadas pelos governos dos países onde se estabeleciam. Já a internacionalização das finanças foi articulada pela oligarquia financeira que já dominava historicamente os circuitos na órbita das finanças nos países centrais, muito embora tenha surgido nessa nova conjuntura novos agentes financeiros que passaram a ter um papel importante na dinâmica especulativa que seria estabelecida a partir dos anos 80. 

 Apesar das mudanças na forma de apropriação do valor e da acumulação de capital, o sistema capitalista se tornou ainda mais hegemônico não só porque as grandes corporações passaram a se apropriar direta e generalizadamente do mais-valor em praticamente todas as partes do mundo, mas também porque, em função de sua dimensão econômica, ampliaram sua influência sobre a formulação das políticas dos países da periferia. Vale ressaltar ainda que a nova conjuntura aberta com as mudanças realizadas pelos governos Reagan e Tatcher transformaram o polo financeiro do grande capital no setor hegemônico da dinâmica capitalista, inclusive subordinando todos os outros setores à lógica financeira. O frenesi especulativo que emergiu nas últimas quatro décadas é a expressão das dificuldades do grande capital em realizar o circuito completo da acumulação a partir da produção. Para efeito analítico, avaliaremos separadamente a internacionalização da produção e a internacionalização das finanças, apenas para compreensão mais detalhada desses fenômenos, uma vez que entendemos a relação orgânica entre os vários setores do capital se aprofundou nesse período.

As transformações produtivas e financeiras

Analisando mais especificamente a internacionalização da produção, é importante ressaltar que as grandes corporações transnacionais produtivas se adaptaram aos novos tempos e articularam uma estrutura integrada mundial em todo o ciclo do capital, como investimento, produção, distribuição e acumulação. Como Marx já observara no Manifesto, a grande indústria transformou a pequena oficina do antigo mestre da corporação em grande fábrica onde concentrou todo o processo de produção,[5] também na globalização produtiva as antigas divisões de trabalho no interior das empresas nacionais se transformaram em Departamentos Internacionais: agora planejamento, gestão, investimento, tecnologia, produção e circulação das mercadorias passaram a responder a um centro único, a partir do qual essas corporações coordenam seus tentáculos pelo mundo.[6] Em outros termos, todas as regiões do planeta se transformaram em esfera única direta de acumulação, processo a partir do qual o grande capital se aproveita das melhores disponibilidades dos países periféricos, tanto em termos de matérias-primas, mão de obra barata e facilidades institucionais, para ampliar as taxas de lucro. Organizaram-se combinando a venda de seus produtos finais nos próprios mercados nacionais onde se estabeleceram com a produção de peças e equipamentos para as matrizes de acordo com as necessidades do centro hegemônico, de onde obtém vantajosos preços de transferência,[7] constituindo-se assim em cadeias globais de produção tendo como centro os países centrais.

Outro fenômeno derivado da internacionalização da produção a ser observado é o fato de que, como a produção agora é internacional, o capitalismo unificou o ciclo mundial de produção, uma vez que agora há uma interdependência estrutural entre a grande corporação e suas afiliadas pelo mundo a fora. Pode-se derivar desse raciocínio que agora também as crises do capital passam a ser globais, posto que todo processo produtivo está interconectado e interdependente, fechando-se assim as rotas de fuga do passado, nas quais uma nação em crise poderia escoar seus produtos para regiões com estabilidade econômica. Isso significa maiores problemas para o capital, uma vez que torna mais difícil a gestão das crises. A internacionalização da produção também ganhou uma nova dinâmica com a emergência dos novos ramos de produção, cuja implantação colocou em segundo plano os setores típicos da segunda revolução industrial, tais como a metal-mecânica, a química, os plásticos, entre outros. Além disso, essas novas tecnologias contribuíram de forma decisiva para modificar substancialmente o perfil do proletariado, uma vez que as inovações passaram a exigir uma mão de obra mais qualificada que no período anterior. Assim, incorpora-se ao novo proletariado os engenheiros e técnicos produtores de chips, da inteligência artificial, da nanotecnologia, os desenvolvedores de softwares, os técnicos e cientistas da engenharia genética, além dos web designers da internet, entre outros trabalhadores altamente qualificados dos novos ramos industriais.

Em outras palavras, a internacionalização da produção significou uma mudança profunda na estrutura de produção do capitalismo, transformando-o efetivamente num sistema mundial integrado. Lenin dizia que os monopólios eram a ante-sala do socialismo. Possivelmente foi um excesso de otimismo, pois no seu período o capitalismo estava apenas iniciando o amadurecimento do seu sistema efetivamente internacional. Agora sim, com a internacionalização da produção, estamos muito mais próximos do socialismo que no período de Lenin. Não se pode esquecer que essa internacionalização, transformou as corporações transnacionais em destacamentos avançados do sistema capitalista central nos países periféricos. Em contrapartida, produziu um conjunto de mudanças na ordem do capital: do ponto de vista da acumulação mundial, a extração do valor de maneira generalizada fora das fronteiras nacionais tornou a burguesia cosmopolita uma classe exploradora direta dos trabalhadores tanto no centro quanto na periferia[8] e unificou objetivamente os interesses do proletariado mundial. A internacionalização da produção atualizou de maneira extraordinária a palavra de ordem de Marx "proletários do mundo, uni-vos".[9] Ou seja,  agora essa consigna tem muito mais aderência à realidade que nos tempos do próprio Marx porque o proletariado na atualidade está muito mais vinculado organicamente a um centro explorador que no século XIX  e, portanto, com mais possibilidades de unidade de ação internacional. A internacionalização da produção modificou ainda a dinâmica do comércio internacional, tendo em vista que parcelas cada vez maiores das transações internacionais (algo em torno de 40%) passaram a ser realizadas entre as matrizes e filiais das corporações transnacionais.

A propósito, praticamente todos os articulistas definem essa nova fase do desenvolvimento das forças produtivas do capitalismo como a era do imaterial, como se todo o processo de produção flutuasse no vácuo. A economia atual não tem nada de imaterial: pelo contrário é muito mais material que no período do fordismo, porque a produção é muito maior e mais socializada, envolve um contingente também maior do proletariado e só não está à disposição de toda a humanidade pelas próprias contradições do capitalismo. Esses analistas não compreendem que tudo na vida é material e que o próprio conhecimento, como diziam os soviéticos, é uma propriedade altamente organizada e sofisticada da matéria.[10] Portanto, o que denominam de economia intangível, economia imaterial não tem nada de intangível ou imaterial: trata-se apenas de um momento novo da produção do capital, com cadeias de produção do valor altamente sofisticadas, no qual as forças produtivas dependem cada vez mais da ciência e do conhecimento humano para a produção de bens e serviços. Caso a humanidade, num período não muito distante, consiga romper as amarras das leis do capital, já existem forças produtivas suficientes para criar uma sociedade da abundância e da felicidade humana. Nesse sentido, com as novas ferramentas da computação, o planejamento se tornaria muito mais efetivo que no período anterior às tecnologias da informação.

Ao mesmo tempo em que se realizavam as modificações no interior do sistema produtivo, desenvolvia-se também profundas mudanças na  órbita das finanças. Os bancos seguiram o caminho das corporações produtivas e também implementaram a internacionalização das finanças, tanto pelas relações históricas que possuíam com esses monopólios nos países centrais, como por uma série de mudanças que ocorreram na ordem econômica internacional, como o fim de Bretton Woods, a implantação das taxas de câmbio flexíveis, a formação do mercado de eurodólares e as políticas de liberalização financeira e mobilidade de capitais realizadas pelos governos Tatcher e Reagan. Da mesma forma que as corporações produtivas, o bancos foram criando milhares de filiais ao redor do mundo e ocupando cada vez mais espaços na dinâmica da economia capitalista. Um elemento importante desse processo foi o fato de que o mercado de eurodólares significou, na prática, a privatização da liquidez internacional, uma vez que anteriormente a grande maioria do crédito internacional era fornecido pelas agências multilaterais.[11] Esse movimento facilitou o avanço das finanças, agora internacionalizadas, processo que foi acelerado pelas medidas liberalizantes tomadas pelos governos centrais no final da década de 70 e no início dos anos 80, fatos que a partir daí consolidaram o poder dos grandes conglomerados financeiros.

A desregulamentação financeira e a livre mobilidade de capitais abriu também espaço para as chamadas inovações financeiras, mediante as quais as instituições bancárias desenvolveram em nível mundial um frenesi de novos "produtos financeiros" nos mercados futuros, mercado de ações, câmbio, títulos de dívida, bônus e derivativos em geral, cujo desempenho transformou a especulação e o rentismo como um instrumento institucionalizado na nova dinâmica da economia capitalista. "A nova política monetarista fortaleceu enormemente o polo financeiro do grande capital, que passou a impor ao conjunto da economia as novas regras do mercado, de forma a ampliar sua participação na riqueza e subordinar os outros setores à lógica das finanças. Ancorados por tecnologias da informação cada vez mais desenvolvidas, pela generalização dos computadores e da internet, novos "produtos" financeiros foram criados numa velocidade proporcional à criatividade do sistema liberalizado. Especulação no mercado futuro de câmbio, de juros, swaps, bônus e derivativos em geral marcaram a tônica das finanças a partir de então."[12]

Essas inovações financeiras possibilitaram à órbita das finanças romper as barreiras econômicas do espaço e do tempo: passaram a autoacrescentar o capital fictício, pela primeira vez na história, ao longo das 24 horas do dia, bastando para tanto que os escritórios desses conglomerados ajustassem seus negócios aos fusos horários das diversas praças financeiras mundiais. O passo seguinte da dinâmica especulativa foi a captura de parte dos negócios produtivos e do fundo público. No primeiro caso, fundos financeiros passaram a ter assento em número cada vez maior nas diretorias das empresas produtivas e, a partir daí, passaram a pressionar essas firmas a operar com a mesma dinâmica da órbita financeira, ou seja, obter lucros rápidos e na mesma proporção da especulação financeira.[13] A captura do fundo público foi realizada mediante a dívida pública tanto nos países centrais quanto periféricos: uma política de juros altos obrigou os Estados a destinarem cada vez mais recursos do orçamento para o pagamento da dívida até transformá-los em prisioneiros da oligarquia financeira. Esse processo seguiu de maneira acelerada até que a órbita financeira conseguisse hegemonizar completamente a dinâmica da economia capitalista. Para se ter uma ideia, antes da crise de 2008, os valores financeiros que circulavam na órbita das finanças eram cerca de 10 vezes maiores que o produto mundial.

Uma revolução tecnológica

Enquanto se consolidava a internacionalização da produção e das finanças, um novo movimento de transformações impactou de maneira profunda as forças produtivas do capitalismo. Trata-se dos novos ramos de produção baseados no mais avançado desenvolvimento científico, tais como as tecnologias da informação, especialmente a internet, as telecomunicações, a telemática, a microeletrônica, a robótica, a engenharia genética e a biotecnologia, a inteligência artificial, a nanotecnologia, entre outros. Muitos desses novos setores de produção viriam a se consolidar nos anos 90 e, especialmente, no século XXI, transformando de maneira radical a base produtiva do sistema de produção mundial e deixando em um segundo plano os velhos setores industriais típicos da segunda revolução industrial. Podemos dizer que a consolidação desses novos meios de produção significou uma mudança de qualidade na produção industrial no interior do capitalismo, processo que será acelerado quando a nanotecnologia, a inteligência artificial e as tecnologias oriundas da física quântica estiverem sendo utilizadas em larga escala no interior da produção.

Se avaliarmos a produção dos dias atuais pode-se dizer que toda a manufatura mundial, o comércio e os serviços estão permeados por essas novas tecnologias. Toda produção de bens de consumo, equipamentos fabris, operações financeiras, comerciais ou de serviços está integrada às tecnologias da informação. A velha fábrica dos homens práticos ou dos trabalhadores fordistas foi superada pela interação entre o ser humano com alta qualificação técnica e a mais avançada tecnologia nas linhas de produção. Os computadores e softwares especializados comandam o planejamento, as linhas de produção, os setores administrativos, o fluxo dos estoques e a distribuição dos produtos de acordo com a demanda. A microeletrônica e as telecomunicações contribuíram de maneira fundamental para o desenvolvimento da indústria de semicondutores e chips em geral, o que possibilitou a produção de novos bens de consumo, menores e mais eficientes, como os smartphones, tabletes, notebooks e computadores de mesa, além do fato de que de que as comunicações por satélites transformaram radicalmente as comunicações e até mesmo as previsões do tempo. A nanotecnologia, a inteligência artificial, a computação quântica e os novos materiais em breve contribuirão para um novo salto de qualidade nas forças produtivas do modo de produção capitalista.

A internet produziu uma verdadeira revolução nas comunicações não só entre as pessoas, governos, entidades, mas também nos negócios e na cultura, resultando numa integração em rede digital da maioria da população mundial, como diz Castels.[14] Com um simples celular, notebook, ou computador de mesa qualquer pessoa pode ter todo o conhecimento do mundo em suas mãos, muito embora essa estrutura de informação tenha sido capturada pelos monopólios. No entanto, ainda existe uma faixa muito grande para a ação independente e, caso haja uma mudança de fundo nas relações econômicas e sociais, a internet poderia se transformar num grande instrumento de democratização do conhecimento para a humanidade. De qualquer forma, os avanços nas forças produtivas oriundas das tecnologias da informação serão ainda mais revolucionários quando estiver implantada a internet 5G e as redes quânticas. Possivelmente, dentro de pouco tempo, teremos transformações tão revolucionárias que os bens e serviços atuais parecerão obsoletos diante das  novas tecnologias da informação e da produção da próxima década.

A engenharia genética, a biotecnologia e a maquinaria agropecuária também estão profundamente inseridas no sistema de produção do capitalismo, tornando o campo um ramo do sistema industrial. O melhoramento genético das aves possibilitou a produção em massa de carnes, reduzindo o tempo de corte de quatro-cinco meses no passado para cerca de 40 dias atualmente, o que ampliou de maneira generalizada o consumo de proteína e a ampliação e barateamento do da carne. Da mesma forma, o melhoramento genético e as modernas técnicas de criação do gado reduziram de maneira extraordinária o tempo de abate, ampliando também a produção de proteína bovina em várias regiões do planeta. Ainda em relação à proteína, a produção de peixes em tanques, viveiros ou mesmo em áreas demarcadas dos litorais marítimos foi ampliada extraordinariamente, reduzindo a pressão da pesca predatória nos mares e rios. A biotecnologia já está plenamente implantada na produção agrícola mundial, tanto na produção de sementes quanto na produção agrícola em geral, o que tem possibilitado um aumento da produção de grãos e vegetais com maior produtividade e muitos países, como o Brasil, se transformasse num grande exportador de grãos. Não se pode esquecer, todavia, que todo esse sistema produtivo é dominado, tanto do ponto de vista da produção quanto da comercialização, pelos monopólios transnacionais. Como têm por base o lucro, seus interesses estão voltados para os interesses privados, o que tem resultado numa relação predatória com a natureza e  na produção de alimentos com elevado índice de contaminação para as pessoas, especialmente na periferia.

Na órbita da circulação, a automação bancária se transformou num instrumento fundamental dos negócios na área financeira. O sistema financeiro está presente em todas as regiões do planeta, tanto que hoje, com um simples celular, se pode fazer qualquer operação bancária com qualquer banco em qualquer parte do mundo. As bolsas de valores e os mercados financeiros estão integrados e interconectados internacionalmente, o que possibilitou que os negócios na área financeira se transformassem numa arena de especulação internacional ao longo das 24 horas do dia. Os meios de comunicação também evoluíram de maneira extraordinária, tanto que hoje em um aparelho de TV, computador, celular e tablete qualquer pessoa pode ter em tempo real todas as informações em qualquer parte do mundo. O comércio se desenvolveu de maneira impressionante, com a emergência do comércio eletrônico e os serviços de entrega, o que vem deixando cada vez mais em segundo plano as lojas físicas e a tendência é que, em pouco tempo, as compras via on line superem o comércio tradicional. Esse conjunto de inovações também está sob o comando dos monopólios, mas em outro sistema se constituirá numa base fundamental para servir toda a humanidade.

As contradições do sistema

Dessa forma estamos diante de uma conjuntura inteiramente nova. As forças produtivas mundiais, a organização da produção e a forma de apropriação mundial do valor mudaram radicalmente desde o final da segunda guerra mundial. A internacionalização da produção reorganizou o processo de acumulação mundial, com a burguesia passando a extrair o valor diretamente e de maneira generalizada em praticamente todas as regiões do planeta; a introdução dos novos ramos produtivos baseados nas mais sofisticadas tecnologias, mudou radicalmente o sistema produtivo do capitalismo mundial, bem como as inovações em várias áreas do conhecimento transformaram radicalmente o setor comercial e o setor de serviços. O sistema financeiro, baseado no avanço das tecnologias, especialmente na automatização bancária e da internet, transformou de maneira radical a órbita das finanças. A nova conjuntura mudou também de maneira profunda o perfil dos trabalhadores, incorporando ao mundo do trabalho um proletariado jovem e altamente qualificado. 

Podemos dizer que sobre os escombros da segunda revolução industrial foi criado um sistema produtivo, comercial, financeiro e de serviços inteiramente diferente da velha estrutura construída no pós-guerra. Enquanto as profundas modificações ocorriam em todo o sistema capitalista, as relações de produção continuaram as mesmas, como se o mundo tivesse parado no tempo e, em muitos casos, as relações trabalhistas regrediram para estatutos do século XIX. Em termos mais políticos, a ordem construída após a derrota do nazi-fascismo e em Bretton Woods já não corresponde mais à atual à realidade mundial, particularmente a partir do surgimento de novos atores globais, como a China. Dessa maneira, a crise que atinge o sistema capitalista hoje é a expressão da necessidade de construção de outra ordem econômica e social, cujo pano de fundo, ainda não foi percebido pelos gestores do capital, é a rebelião das forças produtivas contras as velhas relações de produção, que atualmente representam um entrave para seu próprio desenvolvimento.

A exemplo de Marx, Lenin também já identificara essa contradição fundamental no processo de desenvolvimento do capitalismo: "... assim como as causas materiais estão por trás de todos os fenômenos naturais, o desenvolvimento da sociedade humana é condicionado pelo desenvolvimento das forças materiais, as forças produtivas. Do desenvolvimento das forças produtivas dependem as relações nas quais  os homens entram uns com os outros na produção das coisas necessárias para a satisfação das necessidades humanas. E nessas relações está a explicação de todos os fenômenos da vida social, aspirações humanas, ideias e leis. O desenvolvimento das forças produtivas cria relações sociais baseadas na propriedade privada, mas agora vemos que esse mesmo desenvolvimento das forças produtivas priva a maioria de sua propriedade e a concentra nas mãos de uma minoria insignificante."[15] Como se pode observar, a crise sistêmica global atualiza de maneira extraordinária as contradições já expressas a mais de um século pelos fundadores do marxismo e torna-se o exemplo o mais claro dessa contradição em caráter mundial. A crise vai continuar seu curso apesar de todas as manobras dos gestores do capital e de sua propaganda manipulatória.

Não se pode esquecer que em vários momentos recentes do capitalismo os gestores do capital identificaram a necessidade de mudanças e procuraram realizá-las como forma de se adaptar aos problemas colocados pela nova conjuntura, muito embora essas modificações, em vez de resolver os problemas, aprofundaram as contradições do capital. Entre essas iniciativas está o processo de reestruturação da produção que, entre outras medidas, inclui mudanças profundas na organização do trabalho, mediante a produção por demanda, os círculos de controle de produção, o aperfeiçoamento contínuo da produção, a administração por stress. Esse novo ordenamento impôs o estabelecimento de metas de produção, nas quais um menor número de trabalhadores é obrigado a realizar tarefas anteriormente feitas por uma quantidade maior de assalariados, tudo isso para reorganizar o sistema produtivo e aumentar a produtividade, de forma a que os capitalistas possam escapar dos efeitos da composição orgânica do capital e da queda na taxa de lucros. As políticas neoliberais iniciadas no final dos anos 70 e início dos anos 80 podem também ser consideradas como resposta desesperada do capital à contradição entre as novas forças produtivas e as velhas relações de produção. Essas políticas romperam o pacto do chamado estado do bem estar social, período em que as burguesias dos países centrais foram obrigadas a aceitar uma série de reivindicações dos trabalhadores porque grande parte dela foi derrotada pela guerra junto com o nazi-fascismo.

No entanto, tanto a reestruturação produtiva quanto as políticas monetaristas representaram apenas um ataque à organização, aos direitos, garantias e salários aos trabalhadores e um avanço agressivo do capital sobre o fundo público, mas não resolveram o problema central das contradições impostas pela nova realidade. Nenhuma dessas medidas foi capaz de resolver as contradições impostas pela nova conjuntura e o que estamos vendo agora com a tríplice crise é a expressão descontrolada desse processo contraditório. Nunca é demais relembrar que crises dessa ordem não ocorrem por geração espontânea: são resultados de longos processos que se formam e amadurecem nos subterrâneos do sistema e quando explodem significam que as medidas tomadas anteriormente para tentar reformá-lo não foram suficientes. Além disso, essas medidas contribuíram para acirrar a luta de classes e tornar mais clara as contradições do capitalismo, uma vez que o pacto social anterior contribuiu para reduzir e amortecer as tensões sociais, particularmente nos países centrais. Cada vez vai ficando mais claro e as pessoas começam a perceber essas contradições, começam a entender quem são os seus verdadeiros inimigos, começam a verificar que os ricos ficaram mais ricos, que os pobres são as maiores vítimas da crise e a própria crise se encarrega de aprofundar essas contradições. 

Na verdade, se analisarmos mais detidamente a crise poderemos identificar uma série de fenômenos que indicavam faz algum tempo que algo estava apodrecendo no reino do capital, ou dito de forma mais leve, que alguma coisa estava se deteriorando no interior do sistema. Por exemplo, as crises financeiras do México em 1994, posteriormente a crise asiática em 1997, a crise na Rússia em 1998 e a crise do Plano Real no Brasil em 1999, apesar de emergiram na órbita financeira, indicavam já sinais claros de problemas no interior do sistema. Mas os otimistas contumazes argumentavam que essas crises ocorriam na periferia do sistema como muitas crises anteriores. No entanto, no início dos anos 2000, a crise irrompeu no coração da principal economia mundial, os Estados Unidos, exatamente no polo mais avançado das forças produtivas, as empresas de tecnologia, conhecidas como empresas ponto.com. Dito de outra forma: levando em conta que a maioria dessas crises se ocorreu na órbita das finanças e que atingiu de maneira diferenciada os diversos países onde ocorreram, não podemos deixar de dizer que a órbita da circulação não flutua no vácuo. Mesmo que em algum momento tente autonomizar-se, como já ocorreu em vários períodos da história, a órbita das finanças é parte integrante do capital em geral e não pode se distanciar por muito tempo da economia real. Portanto, o fio condutor para explicar essas crises parciais é o fato de que todos esses fenômenos indicavam o prenuncio de que algo grave ocorria no interior do sistema.

Na verdade, esses fenômenos sinalizavam um problema muito maior, que era a própria crise geral do capitalismo, que viria a se expressar em sua totalidade em 2007/2008, com a crise sistêmica global, cuja emergência colocou em xeque todos os fundamentos da velha ordem e atingiu também de maneira profunda todos os países ligados à economia líder. Para evitar o colapso, os bancos centrais dos países capitalistas injetaram montanhas de dólares nas economias para salvar o sistema financeiro, enquanto os trabalhadores perdiam suas casas, seus empregos e suas vidas, o que mostra mais uma vez o caráter de classe do Estado. Conseguiram adiar por alguns anos um desfecho da crise. Essa fuga para frente possibilitou uma sobrevida a um sistema doente e muitos chegaram mesmo a imaginar que a crise tinha acabado, mesmo que o sistema não tenha alcançado os patamares anteriores à crise. Mas a máquina de propaganda conseguiu construir um ambiente artificial de "crescimento econômico", baseado em dinheiro criado a partir do nada, o que serviu apenas para enriquecer a oligarquia financeira. Agora, com a nova onda da crise, o governo dos Estados Unidos vem utilizando o mesmo método da crise anterior e já colocou, desde março, início da nova onda da crise, U$ 5,4 trilhões na economia, ressaltando-se que a dívida pública do País em 2020 alcançou U$ 27 trilhões (Gráfico 1),

 

Fonte: GEAB, No. 152. Dívida pública total dos EUA versus PIB (em vermelho, dívida. Em azul, PIB).

Como afirmávamos em trabalhos anteriores, a crise que emergiu em 2008 não é um fenômeno corriqueiro, mas uma crise sistêmica, um acontecimento muito diferente das crises cíclicas comuns no ciclo econômico capitalista. Por se tratar de uma crise sistêmica, um fenômeno novo pelo menos nos últimos 70 anos, os gestores do capital têm imensa dificuldade para compreender toda a dimensão da conjuntura e, por isso, não conseguem encontrar nenhuma fórmula para retomar o crescimento mundial e a estabilização econômica. Repetem as velhas receitas das crises cíclicas sem alcançar nenhum resultado palpável. Agora, estão diante de uma nova ilusão: como conseguiram dar sobrevida ao sistema emitindo dinheiro sem vínculo com a produção do valor, imaginam que encontraram a receita milagrosa para salvar o sistema, mas esquecem de que a impressão pura e simples de moeda não cria riqueza nova. Se a impressão de dinheiro pudesse salvar o capitalismo, este seria um sistema eterno - era só colocar as impressoras para funciona ou acionar as teclas dos computadores dos bancos centrais. Em algum momento a festa deverá acabar e o preço a ser cobrado será muito alto, como a emergência da inflação, da crise financeira ou mesmo a desconfiança em relação à moeda de reserva mundial.

A tripa crise e os novos problemas

A nova onda da crise sistêmica global, agora impulsionado pela crise sanitária mundial, veio atualizar o que já afirmávamos em 2009 de que a crise era profunda e devastadora e que só terminaria quando todos os problemas colocados pela própria crise fossem resolvidos.[16] Afinal, as crises sistêmicas são muito diferentes das crises cíclicas que ocorrem no capitalismo desde seus primórdios. Como ocorrem com frequência na dinâmica da economia, os capitalistas já desenvolveram mecanismos para administrá-las, como ocorreu especialmente após a segunda guerra mundial com as políticas keynesianas de intervenção do Estado no ciclo econômico mediante o gasto publico. No entanto, as crises sistêmicas têm um caráter inteiramente diferente, porque representam o esgotamento de um longo ciclo de acumulação, a emergência de contradições antagônicas que se acumularam no interior do sistema entre as forças produtivas e as relações de produção e necessitam de mudanças quantitativas e qualitativas, além de uma reorganização profunda do sistema econômico ou de sua superação. Por isso, as receitas corriqueiras que antes revertiam às crises cíclicas, não funcionam para as crises sistêmicas. Isso explica o embaraço e a perplexidade dos gestores do capital diante dos novos fenômenos. Vejamos os principais problemas que ocorrem no coração do sistema, que é a expressão do que acontecerá nos países ligados à economia líder.

A crise econômica atual nos Estados Unidos e, por extensão, nos outros países capitalistas, é muito maior do que a erupção em 2007/2008, afinal quando o centro desmorona a tendência é o desmoronamento de todos que estejam aa ele ligados. O Produto Interno Bruto dos Estados Unidos registrou uma retração negativa de -3,5%, uma das maiores da história econômica do País desde a segunda guerra mundial, e as perspectivas para 2021, mesmo com a vacinação da maioria da população, também não podem ser consideradas animadoras, em função do elevado desemprego, da retração no consumo das famílias e da decadência da infraestrutura, especialmente energia e transporte. Em 2020 milhares de pequenas e médias empresas, especialmente nas áreas comercial e de serviços, foram à falência e o investimento privado, que já vinha estagnado muito antes da crise, deverá ser reduzido em consequência da redução da demanda dos consumidores. Nos períodos de crise cíclica o investimento público funcionava como alavanca para a retomada do crescimento econômico. No entanto, a maioria absoluta dos recursos colocados pelo governo na economia não foi destinado a irrigar o investimento produtivo. Pelo contrário, a montanha de dólares liberados pelo FED foi apropriada pela dinâmica especulativa: isso explica a inflação de ativos financeiros, os recordes de alta na Bolsa de Valores, o crescimento impressionante dos mercados futuros e de derivativos, a aquisição de títulos tóxicos  e a recompra de ações das grandes empresas.

A crise econômica colocou na ordem do dia a crise social, a miséria e a pobreza na maior economia do mundo, problema escondido durante várias décadas pelos meios de comunicações como forma de preservar o mito do sonho americano e da sociedade de oportunidade para todos. Em termos concretos, o desemprego real está por volta de 20% dos trabalhadores. Como a economia não tem possibilidades de recuperar, no curto prazo, os níveis anteriores à crise, o emprego continuará por um longo período muito deprimido, o que se refletirá na demanda dos trabalhadores. A situação dos desempregados, bem como das famílias em geral, só não está pior porque o governo tem proporcionado um auxílio emergencial que tem impedido a fome generalizada. Mesmo assim não se pode esquecer que a maior economia do mundo tem atualmente mais de 40 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza, total que se elevará à medida do agravamento da crise. Além disso, possui ainda mais de 550 mil sem teto, dos quais 358 mil morando em abrigos precários e 198 mil vivendo nas ruas.[17] Enquanto isso, os bilionários aumentaram sua fortuna em US$ 540 bilhões durante a pandemia.[18] Em outras palavras, aquela miragem da sociedade próspera, país das oportunidades, padrão da democracia e dos direitos humanos, construída ao longo dos anos pela mídia corporativa, foi inteiramente desmascarada pela crise. Ou seja, a crise revelou a desigualdade, a pobreza, a miséria e um sistema apodrecido com todos os problemas das economias da periferia.

A crise sanitária também revelou as dramáticas condições do sistema de saúde dos Estados Unidos e as debilidades das políticas públicas em relação à população, especialmente a mais pobre. Ao longo das décadas venderam a imagem de um sistema de saúde sofisticado, com a mais avançada medicina mundial, mas o que se observou na prática é que o sistema de saúde, praticamente todo privatizado, foi estruturado para atender apenas uma pequena parte da população, os mais ricos. A maioria da população que não tem dinheiro para pagar um plano de saúde, pode morrer na porta dos hospitais privados. Nesta pandemia o que se pode verificar é que os mais pobres, os negros e outras minorias são os mais atingidos e mortos pela doença. Para ampliar o drama, Trump cortou os gastos nas áreas sociais, o que se refletiu na maior fragilização do sistema hospitalar. Quando veio a pandemia o sistema entrou em colapso, tanto porque o governo não se estruturou para cuidar da saúde da população quanto porque o negacionismo do então presidente contribuiu para ampliar o número de enfermos.  Só a mercantilização da saúde explica porque a maior economia do planeta é a campeã mundial de mortos pela pandemia - com mais de 500 mil mortos e 30 milhões de contaminados. Com a posse de Biden, o governo ampliou a vacinação e espera imunizar 100 milhões de pessoas nos cem dias de governo. Isso significa que, se continuar nesse ritmo, até o final do ano toda a população estará vacinada. Mas a vacinação de todos não será suficiente para esconder as mazelas sociais do País, a desigualdade e a iniquidade de um sistema de saúde feito para os ricos.

Do ponto de vista geopolítico, a situação do imperialismo é, estrategicamente, dramática em relação ao sistema de poder dos Estados Unidos, em função do declínio econômico, da competitividade comercial, tecnológica, além da incerteza na área monetária. Aquele mundo em que os Estados Unidos impunham seus interesses e os países obedeciam em ordem unida, especialmente após a queda da União Soviética, já não existe mais. Particularmente na última década emergiu uma nova potência econômica mundial, tanto em termos de produção quanto tecnológico, que se transformou na oficina do mundo, para usar o termo que os ingleses utilizavam quando eram hegemônicos na geopolítica mundial. Com relação à questão militar, os Estados Unidos continuam sendo a maior potência, mas como há uma paridade nuclear com a Rússia e a China já reuniu condições de se defender e atacar ao mesmo tempo qualquer região do mundo, além de outros países terem também armas nucleares capazes de atingir o continente americano, dificilmente a luta pela hegemonia deverá ser decidida por uma guerra nuclear, a não ser que os capitalistas em desespero resolvam extinguir a espécie humana com eles próprios juntos. Em poucos anos a China se transformará na principal economia do mundo, com uma série de vantagens em várias áreas de ponta como o 5G e computação quântica. Além desses fatores,  possui ainda uma mão de obra qualificada e uma escala extraordinária em termos de formação de engenheiros, técnicos  e trabalhadores altamente qualificados maior que todos os outros países. Todo esse conjunto de questões deverá aprofundar ainda mais o declínio do imperialismo: viveremos um período muito tenso nas relações internacionais; pode ser que haja guerras localizadas, provocações, sabotagens e sanções, mas a lógica do poder econômico e da escala produtiva e tecnológica chinesas terminarão por se impor na economia mundial.

Mas a crise do imperialismo se tornará mais grave quando atingir a hegemonia monetária. Ao longo de várias décadas o dólar reinou como a moeda mundial no sistema financeiro internacional, baseado no poder econômico, político, diplomático e militar dos Estados Unidos. Vale lembrar que desde a guerra do Vietnã os Estados Unidos vêm imprimindo dólar sem vínculo com a produção do valor e acumulando grandes déficits. Isso foi tolerado em função do seu poder real, mesmo levando em conta que em 1971 Nixon tenha dado o maior calote financeiro da história moderna, e também porque não havia nenhuma nação com capacidade econômica e política para enfrentar esse privilégio senhorial. No entanto, há pelo menos duas décadas o poder do dólar vem sendo questionado, tanto em função do declínio produtivo dos Estados Unidos quanto pela opção de articular a dinâmica da economia a partir da órbita da circulação. Nas últimas três décadas, alguns fenômenos monetários já indicavam a necessidade de mudanças na ordem econômica e monetária internacional. No final da década de 90 surgiu a zona do euro, com moeda própria, e nos últimos 20 anos a China se transformou no principal País produtor e exportador mundial. Mas a nova conjuntura da crise de hegemonia se tornou mais clara para parceiros e concorrentes a partir da crise sistêmica de 2008 e, particularmente, com a tripla crise atual, que demonstrou de forma explicita as fragilidades da economia, de sua competitividade internacional e do declínio geopolítico.

Como a história nos ensina, a hegemonia monetária internacional de um País está ligada ao seu poder econômico, político e militar. Isso ocorreu pelo menos desde o império romano e particularmente após os descobrimentos: "Não há nada de novo no fato de a moeda hegemônica ser a moeda de reserva global. Foi assim com a Espanha no século 16, com os holandeses no século 17, a França no século 18 e a Grã-Bretanha no século 19. Se as próximas décadas confirmarem o que muitos já chamam de "século chinês", o dólar pode muito bem empalidecer enquanto o renminbi sobe"[19]. Mesmo levando em conta que estamos diante de um processo de transição, cujo desfecho dependerá da gravidade da crise econômica mundial, já se pode perceber que algo está se movendo no sistema monetário internacional.  Hoje se observa claramente um movimento no sentido de criar outras opções monetárias para as transações internacionais, até porque nenhuma economia mantém a hegemonia monetária se não tem fundamentos econômicos sólidos internos, o que não ocorre atualmente na principal economia do mundo. Como diz Cohen:  "... o mundo está tendo sérias dúvidas sobre a suposição outrora amplamente aceita do excepcionalismo americano. As moedas estabelecem o equilíbrio entre essas duas forças - fundamentos econômicos domésticos e percepções estrangeiras da força ou fraqueza de uma nação. O saldo está mudando, e uma queda do dólar pode estar prestes a acontecer".[20]

Senão vejamos: a quantidade dólar nas reservas internacionais dos bancos centrais e a imensa riqueza expressa em títulos públicos do Tesouro dos Estados Unidos não é nada mais nada menos que montanhas de papel pintado porque não representa a riqueza real do País emissor. Transformou-se apenas em símbolos de riqueza que não pode ser transformada em ativos reais, um conto de fadas que só é crível enquanto os agentes econômicos continuarem acreditando que possa ter valor real em algum momento do futuro. Nas duas últimas décadas, os Estados Unidos construíram enormes déficits comerciais, que na pratica significaram uma enorme transferência de valor de todos os países exportadores em troca de uma moeda sem vínculo na produção real. Uma apropriação legalizada, expressa num verdadeiro "negócio da China", em troca de uma promessa que não poderá ser efetivada no futuro, como diz Eichengreen: "O Bureau of  Engraving and Printing (a casa da moeda dos Estados Unidos) gasta apenas alguns cents para produzir uma nota de US$100, mas os outros países precisam fornecer US$100 em bens e serviços para obter a mesma nota de US$100.[21]

Mas esse literal castelo de cartas pode começar a desabar com o aprofundamento a crise sistêmica capitalista e a desconfiança dos detentores de dólar quando estiver claro para todos que esta moeda não corresponde o seu valor de face e nem os Estados Unidos têm condições de honrar a montanha de dólares espalhada pelo mundo. Isso já vem sendo percebido por alguns detentores desses ativos financeiros: como não podem exigir uma troca abrupta da moeda e dos títulos por riqueza real porque isso levaria a uma crise desagregadora em que todos perderiam, muitos países, especialmente a China, estão trocando pacientemente esses dólares e títulos por ativos reais em várias partes do mundo, em forma de investimentos, compras de ouro, matérias-primas, ações e propriedades de empresas. Mas em algum momento essa crise se agravará e a moeda hegemônica poderá ser substituída por uma cesta de moedas das principais economias ou por outra moeda que represente o novo poder econômico global.

Para onde vai o capitalismo?

Essas questões colocam um problema crucial: qual será o desfecho dessa crise e o futuro do capitalismo? Nem mesmo os defensores mais intransigentes do capitalismo podem negar que o sistema está em crise profunda. A tripla crise que estamos observando agora (crise econômica-social, crise sanitária e crise geopolítica) veio apenas intensificar em bases ampliadas um problema que já estava colocado na crise sistêmica iniciada em 2008. Apesar da profundidade da crise, a construção ideológica do sistema capitalista é tão forte que seus gestores têm enormes dificuldades para reconhecer os dados novos da realidade, uma vez que suas mentes estão moldadas pelas fórmulas dos velhos tempos.  Em consequência, não conseguem perceber os novos fenômenos e não encontram saídas para as crises sistêmicas porque essas crises não podem ser resolvidas com as mesmas medidas operadas nas crises cíclicas. Isso explica o desespero do grande capital, a agressividade contra os diretos e salários dos trabalhadores e pensionistas e as restrições às liberdades democráticas. Mas nada disso resolve o problema, pois as crises sistêmicas requerem mudanças de fundo em todo o sistema e não apenas medidas paliativas como vem sendo realizadas pelos vários governos.

A crise também serviu para revelar os graves problemas sociais que atingem o sistema capitalista e, principalmente, sua principal economia. Aquilo que por muito tempo se suspeitava, agora veio à tona com rudeza explícita: a maior economia do mundo está doente, com uma sociedade cada vez mais empobrecida onde os salários dos trabalhadores estão estagnados há várias décadas, enquanto um punhado de milionários se apropria da maior parte da riqueza produzida no País. Essa conjuntura gera enormes tensões sociais: as manifestações recentes contra o racismo, as maiores desde a guerra do Vietnã, representam apenas a ponta do iceberg do iceberg do acirramento da luta de classes que está se gestando nos Estados Unidos e de levantes sociais que poderão ocorrer no pós-pandemia tanto nos Estados Unidos quanto em várias regiões do planeta. Tudo indica que nos Estados Unidos essa será uma luta muito dura e violenta, não só porque ocorrerá no coração do imperialismo, mas porque a extrema-direita conta com expressiva base popular, negacionista, além da existência de grupos reacionários armados cada vez mais agressivos. Em outros termos, o conjunto desses problemas são apenas os epifenômenos de um problema maior: a crise profunda do sistema e o aguçamento das contradições entre as avançadas e sofisticadas forças produtivas e as velhas e caducas relações de produção.

O nível de degeneração do capitalismo é tão grande que este sistema, nesta sua fase neoliberal e, principalmente, após a crise sistêmica que emergiu em 2008, não consegue mais conviver com os estatutos institucionais criados pelo próprio capital, como as liberdades formais da democracia burguesa, os direitos conquistados pelos trabalhadores no pós-guerra e as próprias instituições multilaterais (OMC, OMS, ONU) que regulavam o sistema político e econômico no período anterior à crise. Ao contrário do que muitos possam pensar, a agressividade do capital neste momento da história não significa que esteja mais forte: pelo contrário, representa um processo de decadência cada vez mais difícil de reverter. Por isso, a luta de classes vai se intensificar porque as massas não se deixarão abater como moscas, conforme a própria história tem demonstrado em todas as épocas. Há um clima de revolta latente entre as massas empobrecidas em várias partes do mundo, que não está se revelando plenamente nas ruas em função da pandemia e do instinto de preservação da humanidade. Mas essa aparente calmaria poderá ser rompida em função do desastre provocado pela crise e pela pandemia, como já ocorreu em alguns países, como as lutas sociais contra o golpe na Bolívia, as manifestações populares pela Constituinte no Chile, as lutas sociais dos camponeses na Índia, as manifestações de rua no Haiti, Equador, Índia, Paraguai e a própria luta contra o racismo nos Estados Unidos. Todas essas lutas, por mais diferentes que sejam, significam uma espécie de ensaio geral da tormenta que se aproxima no pós-pandemia.

A crise também foi pedagógica em revelar uma verdade conhecida desde os clássicos da economia política: só os trabalhadores criam a riqueza do mundo. Com a pandemia, grande parte dos trabalhadores foi obrigada pela crise a ficar em casa e a economia entrou em bancarrota. Além disso, a crise também provou a inutilidade das classes parasitárias. Em plena crise, a grande maioria da humanidade empobreceu e só um punhado de milionários ficou mais rico. O planeta poderia mundo bem viver sem eles. A humanidade não sofreria grandes perdas. Marx deve estar com um largo sorriso tumular ao verificar que a implacável lei do valor continua com uma atualidade extraordinária. Mas o elemento político da luta de classes nessa crise ainda não chegou à superfície: essa é uma crise sanitária de dimensões nunca registrada na história da humanidade, com a particularidade de que, ao contrário das crises anteriores, esta pandemia atingiu todos os países. Como se trata de um problema que ocorre num período em que a informação é transmitida em tempo real para todos, em que as pessoas diariamente tomam conhecimento dos dramas e tragédias que ocorrem em cada região do mundo, essa crise vai ter um impacto profundo na psicologia das massas. O trauma psicológico, social e consequentemente político do pós-pandemia ainda é difícil de prognosticar corretamente, mas com certeza a humanidade vai presenciar, num prazo não muito distante, um conjunto de fenômenos novos que irão mudar profundamente as relações sociais, econômicas, políticas e culturais do planeta.

Do ponto de vista da luta de classes, o sistema capitalista intensificou o processo de exploração em caráter mundial, não apenas reduzindo direitos, salários dos trabalhadores e proventos dos aposentados, mas praticando a mais-valia absoluta potencializada, uma forma de extorsão especial, que combina redução de salários, a extensão da jornada de trabalho como nos primórdios do capitalismo, bem com a intensificação do trabalho nos novos e sofisticados ramos industriais, o que aumenta de maneira extraordinária a produtividade do trabalho e as taxas de lucro do capital. Se por um lado as dificuldades de mobilizações em função da pandemia ainda estão reduzindo as lutas dos trabalhadores, por outro, as novas condições de exploração, a exemplo do passado, levará o proletariado a protagonizar novamente intensas lutas sociais tão logo as condições sanitárias possibilitem a emergência plena de todo o potencial de revolta contra a exploração e as condições de vida da população. Aqueles que pensam uma retomada da economia dentro de um ambiente de normalidade institucional, podem estar profundamente equivocados, pois tudo indica que o futuro próximo será permeado por uma conjuntura muito difícil para o capital. As tensões que estão se acumulando na sociedade representam um caldo de cultura que emergirá com fúria no pós-pandemia. 

Outro indicador de relevância é o fato de que a ordem econômica internacional no pós-guerra foi estruturada a partir de dois pilares fundamentais: a) a apropriação do mais-valor por parte da economia líder, os Estados Unidos, em consequência de sua vantagem econômica e industrial; b)  a imposição de dólar como moeda mundial e o controle do sistema financeiro internacional. Esses dois processos estão em desagregação acentuada: a opção dos Estados Unidos em se  tornar uma economia de serviços,  a partir da qual expropriaria o valor mediante a exportação de capitais e o controle do sistema financeiro internacional, está em pleno declínio. Essa opção foi um erro estratégico porque, do ponto de vista da produção, que é efetivamente o que conta para a acumulação do capital, os Estados Unidos se enfraqueceram estruturalmente, o que se reflete tanto na participação relativa na produção mundial, quanto no comércio internacional. Ora, um líder imperialista que não lidera a produção de valor nem o comércio mundial também não se apropria do valor na mesma escala que se apropriava quanto estava na liderança produtiva e, consequentemente, reduz o valor real de sua riqueza. Portanto, está condenado a perder a liderança.

Quem imagina que a órbita da circulação poderá compensar os prejuízos no setor produtivo, mais uma vez não compreendeu a lógica da lei do valor e seu funcionamento do ponto de vista internacional. Essa conjuntura poderá se refletir também na posição do dólar como moeda mundial. Nenhum País pode manter sua moeda como dinheiro mundial por muito tempo com uma economia que não corresponda a essa hegemonia, mesmo que seu poder militar continue sendo o maior do mundo. Como a moeda deve ter, em última instância, um vínculo com o trabalho social, algum parceiro dos Estados Unidos pode, em algum momento não muito distante, chegar à conclusão de não vale a pena aceitar nem comercializar com o dólar porque essa moeda não corresponde à riqueza criada no País de origem ou porque outras moedas se tornaram mais fortes em função das economias que representam. Aí então teríamos a desarticulação da ordem econômica internacional estruturada em torno do dólar. .

Economicamente, a China vem apresentando um desempenho muito superior aos Estados Unidos, tanto em função da escala industrial quanto tecnológica. Pelas últimas projeções, em breve a economia chinesa alcançará a dos Estados Unidos em termos de PIB - já alcançou na Paridade do Poder de Compra e, do ponto industrial e tecnológico, a China se transformou numa espécie de oficina do mundo em praticamente todas as áreas da produção enquanto a economia dos Estados Unidos cambaleia em meio à crise econômica e sanitária. Isso explica o desespero das autoridades ianques em impor sanções contra empresas de ponta chinesa, promover junto a parceiros boicotes às suas exportações e um conjunto de medidas de sabotagens e provocações aos chineses. Grande parte dessas medidas representam apenas os sintomas da impotência do imperialismo diante da nova conjuntura e da disputa hegemônica, mas dificilmente impedirá a marcha objetiva da economia chinesa para se transformar na principal economia do mundo. Esse tempo poderá se tornar maior ou menor dependendo do alcance dessas manobras protelatórias.

Como se pode verificar historicamente, as crises imperiais são longas e dolorosas: foi assim ao longo da história. Geralmente são resolvidas com guerras, reformas profundas ou revoluções. Porque as crises imperiais representam um mosaico de contradições que se acumularam ao longo de um período histórico e emergem no interior do sistema, muitas vezes fragmentariamente, de forma quase imperceptível. Como essas mudanças vão aflorando de maneira lenta e gradual, geralmente não são detectadas nem mesmo pelos observadores mais atentos.  Por isso, as pessoas se surpreendem quando as crises chegam a um ponto de ebulição e explodem abruptamente. Mas se observarmos atentamente poderemos ver que, igual a um vulcão, vários sinais foram emitidos no período anterior à atual crise. Desde 1994, com a crise da dívida mexicana, esses sinais emitidos revelavam evidente desgaste do sistema. Posteriormente, ocorreu a crise da Ásia em 1997, da Rússia em 1998, do Brasil em 1999 e das empresas de tecnologia nos Estados Unidos. As crises anteriores ocorreram naquilo que poderíamos denominar a periferia do sistema, mas a bancarrota das empresas ponto.com  já atingiu o coração do sistema. Portanto, a crise sistêmica de 2008 e a crise atual significam a manifestação explosiva de um sistema que já estava enfermo e que agora está na unidade de terapia intensiva.

Podemos sugerir que o capitalismo não será mais o mesmo no pós-pandemia e que há a possibilidade de se gestar uma situação revolucionária de caráter global em várias regiões do planeta no pós-pandemia, o que abrirá novas janelas de oportunidades para a humanidade. Uma situação revolucionária não significa que haverá revolução. Como dizia Lenin, a situação revolucionária expressa o momento de crise aguda da sociedade burguesa, enorme pauperização das massas e impossibilidade dos de cima governar como no período anterior à crise, conjuntura na qual emerge o descontentamento e indignação das massas. Ou seja, em função da crise as classes dominantes não podem mais governar como outrora e os de baixo (o proletariado e seus aliados) não suportam mais ser governados como antes.[22] A partir daí abre-se um período de intensa disputa entre as classes, que pode tanto significar uma vitória dos trabalhadores através das janelas de oportunidades que se abrem nesses períodos, ou uma derrota dos de baixo e a retomada do poder da burguesia. Portanto, as situações revolucionárias representam uma espécie de livro aberto onde tudo pode acontecer para as duas classes fundamentais do planeta. Essa é a conjuntura na qual se dará a disputa entre o proletariado e seus aliados e a burguesia cosmopolita no pós-pandemia. Como sou um otimista histórico, espero que as janelas de oportunidades que se abrirão com a crise sejam favoráveis à construção de um futuro que abra espaço para a construção de uma nova sociedade da abundância e da felicidade humana, a sociedade socialista.

 

Edmilson Costa é doutor em Economia pela Unicamp, com pós-doutorado na mesma instituição. É autor, entre outros, de Reflexões sobre a crise brasileira (edições ICP, 2020), A crise econômica mundial, a globalização e o Brasil (Edições ICP, 2013) e A globalização e o capitalismo contemporâneo (Expressão Popular, 2008), além de ensaios e artigos economia e política. É secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

  

By Edward Linley Sambourne (1844-1910) - Punch and Exploring History 1400-1900: An anthology of primary sources, p. 401 by Rachel C. Gibbons, Public Domain, Foto: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1765203

 


[1] Conforme definimos em trabalho anterior (A crise econômica mundial, a globalização e o Brasil, Edições ICP, 2013), o sistema capitalista viveu apenas três grandes crises sistêmicas: 1873 a 1896; 1929 a 1945; e 2008 a ...? Todas essas crises provocaram grandes mudanças quantitativas e qualitativas no sistema capitalista, mas em nenhuma delas combinou tantos fenômenos globais em cadeia como atualmente. Por isso, essa crise é mais grave que as crises sistêmicas anteriores.

[2] Marx, Karl. Contribuição à Crítica da Economia Política. São Paulo: Expressão Popular, 2008.

[3] Os velhos monopólios da segunda revolução industrial estão sendo substituídos pelos monopólios dos novos ramos da produção, especialmente aqueles ligados às tecnologias da informação e ao comércio eletrônico.

[4] A internacionalização da produção completou efetivamente o processo de mundialização do capital e a burguesia cosmopolita passou a extrair o mais-valor, direta e generalizadamente, em todas as regiões do planeta, fenômeno que não ocorria no período anterior.

[5] Marx, K. Manifesto Comunista. São Paulo: Edipro (Edição comemorativa dos 150 anos do Capital), 1998.

[6] Michalet, C. A. Capitalismo mundial. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984

[7] Preços de transferência é o nome fantasia dos valores praticados na compra e venda de bens e serviços do exterior. No caso das corporações transnacionais, os preços de transferência significam a relação entre matriz e filial no comércio intrafirma. Como esses preços são estabelecidos privadamente, é comum a manipulação dos preços: as filiais vendem às matrizes produtos (peças e equipamentos) a um preço abaixo do preço de mercado e compram tecnologia das matrizes a um preço acima do mercado, o que resulta na transferência clandestina de valor da periferia para o centro.  A Receita Federal tenta regulamentar essas transações, mas os monopólios sempre encontram uma brecha para manipulá-las.

[8] Charles Albert Michalet foi o primeiro a identificar o processo de criação generalizada do valor foram das fronteiras nacionais, com de seu livro Capitalismo Mundial. São Paulo: Paz e Terra 1984. Muito embora o autor não se referisse ao processo de globalização.

[9] Proletários de todo o mundo uni-vos é a palavra de final do Manifesto Comunista, op. cit.

[10] Korshunova, L; Kirilenko, G. Que é filosofia. Moscou: Edições Progresso, 1986.

[11] O mercado de eurodólares era uma articulação financeira que operava com dólar fora do território dos Estados Unidos, basicamente em Londres. Cresceu de maneira acentuada após a crise do petróleo. Como os sistemas financeiros dos países árabes, os maiores produtores, eram relativamente frágeis para reciclar os dólares obtidos com o novo preço do petróleo, passaram a aplicar seus recursos no mercado europeu, o que aumentou a disponibilidade dólar no mercado internacional. Muitos países da periferia se endividaram nesse período e essa foi uma das causas da crise da dívida na década de 80.

[12] Costa, E. A globalização e o capitalismo contemporâneo. São Paulo: Expressão Popular, 2008.

[13] Para maior compreensão do avanço do Sistema financeiro em relação às empresas e ao orçamento dos Estados, ver Costa. E. A globalização e o capitalismo contemporâneo, op. cit.

[14] Castels, M. A sociedade em rede. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999.

[15] Lenin, W. Friedrich Engels, por Wladimir Lenin.  Lisboa: Edições  Avante, 1977. .  Acesso em 3 de janeiro de 2021.

[16] Para maior informação, consultar A crise mundial do capitalismo e as perspectivas dos trabalhadores. <https://resistir.info/crise/a_crise_do_capitalismo.html>, acessado em 08/02/2021

[17] THE COUNCIL OF ECONOMICS ADVISERS. The State of Homelessness in America. 2019. Disponível em: www.whitehouse.gov/... . Acesso em 10/02/2021.

[18] Oxfam. O vírus da desigualdade. Janeiro de 2021. Disponível em https://www.oxfam.org.br/justica-social-e-economica/forum-economico-de-davos/o-virus-da-desigualdade. Acesso em 15/02?2021.

[19] Roubini, N. O declínio do dólar se aproxima? https://outraspalavras.net/outrasmidias/o-declinio-do-dolar-se-aproxima? Acesso em 24 /O2/2021.

[20] Roach, S. Está chegando uma queda do dólar. Blomberg Opinion. https://www.bloomberg.com/opinion/articles/2020-06-08/a-crash-in-the-dollar-is-coming. Acesso em 22/02 2021.

[21] EICHENGREENN, B. Privilégio exorbitante: ascensão e queda do dólar e o futuro do sistema monetário internacional. Rio de Janeiro: Campus, 2010.

[22] Lenin, W. A falência da II Internacional. São Paulo: Kairós, 1979. A citação literal de Lenin é a seguinte: "Quais são, de maneira geral, os indícios de uma situação revolucionária? Estamos certos de não nos enganarmos se indicarmos os três principais pontos que seguem: 1) impossibilidade para as classes dominantes manterem a sua dominação de forma inalterada; crise da cúpula e crise da política da classe dominante, o que cria fissura através da qual o descontentamento e a indignação abre caminho. Para que uma revolução estoure não basta, normalmente, que "a base não queira mais" viver como outrora, mas é necessário que "a cúpula não o possa mais"; 2) agravamento, além do comum, da miséria e da angústia das classes oprimidas; 3)desenvolvimento acentuado, em virtude das razões indicadas acima, da atividade das massas, que se deixam saquear tranquilamente nos períodos "pacíficos", mas que nos períodos agitados são empurradas, tanto pela crise no seu conjunto quanto pela "cúpula", para uma ação histórica independente".