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O fim do acoplamento 14/10/2020, Qiao Collective, China

22.10.2020
 
O fim do acoplamento 14/10/2020, Qiao Collective, China. 34212.jpeg

O fim do acoplamento 

 

14/10/2020, Qiao Collective, China [tradução automática ing.-port., revista]

 

Ver também

Duplo desacoplamento, 10/10/2020,
Alistair Crooke, Strategic Culture Foundation,
trad. em Blog Bacurau Homenagem ao Filme

Os dois subtextos da geopolítica, 19/10/2020,
Alistair Crooke, Strategic Culture Foundation
trad. em Pravda Brasil


Os EUA declararam o fim do "business as usual" nas relações EUA-China. A escalada dos últimos meses marca um consenso bipartidário: de que falhou a estratégia de fomentar a dependência política, mediante alguma integração econômica da China em sistema mundial liderado pelos EUA.

À medida que a ascensão da China ultrapassa os limites predeterminados da era do acoplamento, a virada dos EUA rumo à guerra híbrida deixa claro que contenção e acoplamento são lados opostos da mesma agenda imperial: esforço para subjugar a soberania chinesa aos interesses dos EUA.


Em novembro de 1967, poucos meses antes de anunciar sua entrada na corrida presidencial de 1968, Richard Nixon delineou em Foreign Affairs o que se tornaria a estrela-guia que orientaria Washington em relação à China no meio século seguinte.

Em artigo intitulado "Ásia após o Vietnã", Nixon argumentou que a guerra do Vietnã ocupara tanto as mentes dos legisladores dos EUA, que teria eclipsado o quadro geral. O Vietnã - pequeno país na orla de um vasto continente - pode ter "preenchido a tela de nossas mentes", escreveu Nixon, "mas não preenche o mapa". A verdadeira baleia branca, o gigante a ser temido e desejado, era a China.

"A China Vermelha", argumentou Nixon, era pedaço grande demais do mundo para permanecer isolada para sempre. Os EUA não podiam "dar-se o luxo de deixar a China para sempre fora da família das nações". Pregando um caminho de "contenção sem isolamento", Nixon prenunciou a estratégia definidora dos EUA em relação à China pelos 50 anos seguintes: empunhando numa mão a cenoura da integração na "família das nações" e do comércio global, e na outra mão a vara de um bloco EUA-Pacífico militarizado e industrializado. Tais medidas, na opinião de Nixon, seriam suficientes para "induzir mudanças ... para persuadir a China de que ela tem de mudar".

Foi sobre essas palavras finais - induzir a mudança - que o secretário de Estado Mike Pompeo demorou-se, ao discutir recentes viradas nas relações EUA-China, em discurso em julho na Biblioteca Nixon, em Orange County, Califórnia. Numa avaliação crítica da era de acoplamento que Nixon começou, Pompeo descreveu a principal conquista de política externa de Nixon como um exercício nobre, porém ingênuo, que preparou o cenário para décadas de "acoplamento cego" o qual, em vez de induzir mudanças, teria sustentado uma China "Frankenstein", que em vez de induzir qualquer mudança, adiou perpetuamente as esperanças de Washington, de uma liberalização inevitável.

O discurso de Pompeo foi apenas um dos vários discursos de julho, feitos por funcionários do governo Trump que declararam o fim do "business como sempre" e elogiaram o "histórico" do governo Trump, sempre "duro contra a China". Em relação às negociações comerciais prolongadas iniciadas em 2018, que tiveram como premissa a noção de que a China poderia ser persuadida de uma vez por todas a obedecer à hegemonia econômica dos EUA, essa recente série de discursos enviou mensagem muito diferente. Como disse Pompeo: "Não podemos tratar a atual encarnação da China como país normal, como qualquer outro".

De fato, nos últimos meses e anos, o governo Trump passou a tratar a China menos como rival problemático e mais como o "competidor estratégico" identificado no documento de estratégia de segurança nacional de 2017 do governo Trump. A prisão da executiva da Huawei Meng Wanzhou no Canadá em 2018; a designação de jornalistas chineses como "missões estrangeiras"; as proibições pendentes sobre TikTok e WeChat; o escrutínio e vigilância de estudantes e cientistas chineses estrangeiros; a sanção contra funcionários e empresas chinesas que operam em Hong Kong, Xinjiang e no Mar do Sul da China; e, finalmente, o fechamento forçado do consulado chinês de Houston - cidade que hospedou Deng Xiaoping em sua histórica visita aos EUA em 1979 - são movimentos que, todos eles, representam um cronograma de densa escalada imposta pelos EUA às relações EUA-China, durante o curto mandato de Donald Trump.

Onde Nixon buscou integração estratégica da China na "família das nações" - velho eufemismo universalizante para a ordem mundial capitalista liderada pelo Ocidente -, o governo Trump está traçando novas linhas de contenção para impedir uma suposta invasão, pelo Partido Comunista da China, no ciberespaço dos EUA, em cadeias de abastecimento e em esferas de influência.

De fato, enquanto Nixon preocupava-se com uma China isolada, esquecida para "nutrir suas fantasias [e] acalentar seus ódios", o sentimento recorrente nos discursos de verão feitos por Pompeo, pelo conselheiro de segurança da Agência de Segurança Nacional Robert O'Brien, pelo procurador-geral William Barr e pelo diretor do FBI Chris Wray é de que a integração profunda da China na ordem mundial seria ela mesma a verdadeira ameaça, e teria produzido não a liberalização da China, mas, como eles argumentam, o parasitismo, a subversão e a aquiescência internacional ("prostração", na linguagem dos falcões chineses).

Nas palavras de Barr, os "muitos tentáculos" do Partido Comunista da China buscam "explorar a abertura de nossas instituições para destruí-las". Aqui, a liberalização inevitável da China após a integração na economia mundial foi posta de cabeça para baixo. Nas palavras de Pompeo: "Se o mundo livre não mudar a China, a China comunista certamente nos mudará".

A crise do liberalismo ocidental, pressionado pelos dois lados por movimentos separatistas populistas, de direita pela direita; e por movimentos abolicionistas contra o capitalismo racial pela esquerda, minou o triunfante "fim da história" prometido pelo colapso da União Soviética.

Acrescida das contradições de uma pandemia global que foi amplamente controlada por estados socialistas, mas levou a surtos prolongados e inabaláveis em grande parte do mundo capitalista, os temores ocidentais de uma ordem mundial moldada pela "China Vermelha" refletem as contradições insustentáveis dos próprios liberalismo e capitalismo.

Os Termos de Acoplamento

A retórica do governo Trump sobre a ascensão da China apresenta décadas de aberturas estatais e corporativas dos EUA para a China como se tivesse sido programa de 'pacificação' do século XXI, no qual a busca de lucro e a ingenuidade dos EUA teriam debilitado a mão firme necessária para efetivamente forçar mudanças na estrutura política da China. O diretor da NSA, Robert O'Brien, expôs esse mais recente sofisma de política externa: "Pensávamos que quanto mais abríamos nossos mercados para a China, quanto mais investíamos capital na China, quanto mais treinávamos burocratas, cientistas, engenheiros e até militares da RPC, mais a China se tornaria como nós."

Mas a aparente dicotomia entre acoplamento e contenção oculta o fato de que esses dois movimentos compartilham uma mesma agenda imperialista. Se os EUA voltaram-se para (ou, mais precisamente, retomaram) uma guerra híbrida contra a China, é só mudança de tática: os resultados desejados são os mesmos.

Para os estrategistas de Washington, o verdadeiro bilateralismo baseado na soberania da China e na legitimidade de seu sistema político e econômico jamais esteve na mesa.

Na verdade, o "senso comum" de acoplamento e contenção em doses iguais é a mesma atitude paternalista e colonial, pela qual os EUA teriam algum direito e algum 'dever' de "induzir mudanças" dentro do sistema da China.

Não se discutem os fins, só os meios: seja por cooptação seja pela força, essa é uma disputa sobre as ferramentas adequadas necessárias para provocar uma suposta inevitável chegada da China à modernidade liberal-capitalista ocidental.



O "senso comum" de acoplamento e contenção em doses iguais é a mesma atitude paternalista e colonial, pela qual os EUA teriam algum direito e algum 'dever' de "induzir mudanças" dentro do sistema da China.


Um retorno aos debates de Washington sobre a política da China no final do século XX esclarece a continuidade ideológica entre os últimas cinco governos norte-americanos, e mostram até que ponto o chauvinismo americano, a ostentação imperial e o universalismo ocidental definiram perspectiva consistente, mas kit de ferramentas mutáveis, para reger uma sempre mesma estratégia dos EUA para a China.

A diplomacia pós-Nixon percebeu uma linha de pensamento anterior com relação à China. Em uma série de discursos em 1957-1958, o Secretário de Estado dos EUA John Foster Dulles propôs a "evolução pacífica" como meio para "encurtar a expectativa de vida do comunismo". Propôs ideias, estilo de vida e cultura como as principais frentes de uma guerra para subverter o comunismo chinês e soviético.

Mas a perspectiva de uma evolução pacífica operava em conjunto com a realidade da contenção militarizada.

Estupefato ante o fato de que havia "perdido a China", o establishment da política externa dos EUA assumiu postura severa ao estabelecer um embargo comercial internacional contra a recém-criada República Popular; travou guerra quente na Coréia e ameaçou ataque nuclear durante a Primeira Crise do Estreito de Taiwan.

Aquelas primeiras décadas após o estabelecimento da República Popular marcaram uma era de incerteza, na qual diplomatas de Washington lutaram para chegar a algum consenso sobre como lidar com uma China comunista, após ter despejado bilhões de dólares em ajuda militar e empréstimos ao Guomindang [governo de Taiwan] nacionalista. Ao contrário, a détente de Nixon - sobredeterminada pelas expedições geopolíticas da Guerra Fria e as consequências da divisão sino-soviética - anunciou o que Mike Pompeo descreve como uma "era da inevitabilidade".

Com Margaret Thatcher e uma ideologia neoliberal ascendente 'ensinando' que "Não há alternativa" ao modelo capitalista ocidental, os cavaleiros da convergência capitalista tinham motivos para estar otimistas. A política soviética da perestroika - liberalização política e econômica - havia iniciado o processo corrosivo que levaria ao próprio colapso. Na mesma época, a noção de Dulles, de "evolução pacífica" ressurgiu como ansiedade popular nos círculos políticos e intelectuais chineses.

Como Deng Xiaoping refletiu em 1992, "Os imperialistas pressionam por uma evolução pacífica em direção ao capitalismo na China, colocando suas esperanças nas gerações que virão depois de nós".

Deng há muito reconhecera que a reforma e a abertura haviam introduzido na China aspectos materiais e ideológicos do capitalismo. Na metáfora preferida de Deng, "abrir as janelas" para o capital estrangeiro trouxe ar fresco, sim, e muitas moscas que se tem de combater.

A mão firme da direção do Partido, afinal, garantiu a repressão aos elementos capitalistas e a adesão à via socialista. Em particular, os protestos de Tiananmen de 1989 refletiram as contradições da reforma e da abertura, deixando claro que a internalização dos ideais ocidentais do liberalismo burguês, pelas gerações mais jovens, poderia significar a lenta erosão do caminho socialista.

É nesse contexto que os debates de Washington sobre as relações com a China na década de 1990 adaptaram as visões de Nixon sobre a inserção da China na "família das nações" a uma visão neoliberal de integrar a China na escada do capital e consumo globais - com os EUA à frente.

A legislação anual para renovar o status da China, de Nação Mais Favorecida (NMF) no comércio, que se tornou permanente em 2000, serviu como fórum recorrente para o debate sobre a eficácia dessa estratégia de influência mediante integração.

Em discurso de 1991, George HW Bush invocou a razão "moral" para renovar o status de NMF: "para exportar os ideais de liberdade e democracia ... para criar um clima para mudanças democráticas."

O otimismo de Bush quanto à inevitabilidade do colapso do regime foi, sem dúvida, informado pela iminente dissolução da União Soviética após meia década de perestroika

"Nenhuma nação na Terra descobriu maneira de importar bens e serviços do mundo, ao mesmo tempo em que fecha a fronteira a ideias estrangeiras. Assim como a ideia democrática transformou nações em todos os continentes, a mudança também ocorrerá inevitavelmente na China".

A tautologia do conjunto "liberalização econômica e política" fala tanto ao fervor neoliberal do momento como à longa história de co-evolução do liberalismo com o capitalismo. Bush, como muitos outros, vinculou "a causa da privatização e os direitos humanos", como se fossem uma e a mesma coisa. À maneira liberal clássica, o direito à propriedade privada e à acumulação de capital foram unidos e apresentados como 'o direito fundamental' do qual procedem todos os outros direitos políticos liberais. Como disse a deputada Nancy Johnson (CT-R) ao declarar seu apoio ao status permanente de NMF em 2000: "Quando um chinês percebe que tem direitos como investidor que o governo não deve violar, é mais provável que também perceba que tem outros direitos como ser humano."

Esse foi também o argumento do presidente Bill Clinton, a favor da entrada da China na Organização Mundial do Comércio. Citando os interesses dos missionários evangélicos junto com os das grandes empresas, Clinton argumentou que, ao aderir à OMC, a China estava concordando não apenas em importar produtos dos EUA, mas também em "importar um dos valores mais queridos da democracia, a liberdade econômica".

Legenda: Caminhão transporta um contêiner no porto em Zhangjiagang, China, 7/8/2020. [Johannes Eisele / AFP / Getty Images]


Essas articulações altissonantes com a "liberdade" burguesa mascararam interesses econômicos mais pragmáticos dos EUA. Um enorme lobby corporativo apoiando o status de NMF para a China enquadrou o país como mercado inexplorado de "um bilhão de clientes". Em discurso de 1997 sobre "China e o interesse nacional", Clinton vinculou claramente "bons empregos e renda mais alta em nosso país" à capacidade de fazer da China um "ímã para nossos produtos e serviços".

Priorizar os interesses dos EUA significava estipular a integração da China: Clinton pediu que a China "melhorasse drasticamente o acesso a bens e serviços estrangeiros", "[derrubasse] as barreiras comerciais" e acabasse com o favoritismo e o protecionismo em relação às empresas chinesas. O fato de essas mesmas questões permanecerem como pontos críticos na guerra comercial do governo Trump mostra a constante frustração de Washington de que as visões de dependência do livre comércio permaneçam bloqueadas pelos esforços da China para manter a soberania econômica dentro de um sistema capitalista mundial.

Longe de visarem à paz, as orientações dos EUA em relação à China foram guiadas por uma confiança de que a China teria futuro de dependência do poder capitalista ocidental. Citando a dependência da China, de investimentos estrangeiros, Clinton em 1997 observou que a China era então o segundo maior receptor de investimento estrangeiro direto no mundo - "ligações", afirmou Clinton, que "trazem consigo forças poderosas para a mudança".


Exagerar a natureza de um alinhamento de interesses EUA-China é ignorar os pressupostos básicos da estratégia de acoplamento dos EUA: a certeza de que o envolvimento chinês com a ordem mundial ocidental por meio do comércio, investimento estrangeiro direto, empréstimos do FMI e ascensão ao comércio internacional e órgãos diplomáticos inevitavelmente criaria as condições para a erosão da soberania chinesa, do socialismo e da liderança do próprio Partido Comunista.



No entanto, alguns na esquerda ignoram as claras aspirações coloniais dos EUA por trás da era do acoplamento, para pintar a China como um parceiro júnior voluntário do império dos EUA, impondo uma narrativa retroativa sobre um suposto alinhamento ideológico EUA-China na segunda metade da Guerra Fria. Certamente, a reaproximação EUA-China nasceu das circunstâncias geopolíticas da Guerra Fria, em particular da precariedade geopolítica e econômica da China após a divisão sino-soviética. Exagerar a natureza de um alinhamento de interesses EUA-China é ignorar os pressupostos básicos da estratégia de acoplamento dos EUA: a certeza de que o envolvimento chinês com a ordem mundial ocidental por meio do comércio, investimento estrangeiro direto, empréstimos do FMI e ascensão ao comércio internacional e órgãos diplomáticos inevitavelmente criaria as condições para a erosão da soberania chinesa, do socialismo e da liderança do próprio Partido Comunista.

Longe de qualquer convergência ideológica, essa era de acoplamento é mais precisamente descrita como novo esforço, pelos EUA, para 'mudar regimes', dessa vez por outros meios.

Desenvolvimento socialista rompe o "Consenso de Washington"

Muita tinta foi derramada em discussões sobre o "milagre econômico" da China nas décadas seguintes ao levantamento do embargo comercial dos EUA em 1972 e à restauração condicional das relações comerciais normais em 1979. Em 1980, o produto interno bruto (PIB) per capita da China era de US$200. Hoje, é de mais de US$10.000 - o que significa que as circunstâncias materiais do chinês médio melhoraram 50 vezes nos últimos 40 anos.

Por mais que os 'guerreiros da guerra fria' pintem a China de hoje como um "Frankenstein" sustentado por corporações ocidentais e interesses comerciais apresentem a ascensão da China como 'prova' da superioridade do capitalismo, o desenvolvimento chinês não pode ser atribuído a uma suposta adoção do modelo capitalista ocidental.

Primeiro, os avanços da era Mao na melhoria das condições de saúde, expectativa de vida e alfabetização formaram a base da força de trabalho que impulsionou a industrialização da China.

Em segundo lugar, a natureza do socialismo com características chinesas - ou seja, restrições ao controle estrangeiro de indústrias críticas, um papel decisivo da indústria pública, controle político sobre o capital em vez do controle capitalista da política e ênfase no alívio da pobreza - tornou a China uma dos poucas nações em desenvolvimento que mantêm traços de independência política e econômica em meio à introdução do capital ocidental.

Os avanços da China na redução da pobreza - com mais de 80 milhões de pessoas saídas da pobreza apenas desde 2012 - falam da natureza única e centrada nas pessoas de sua economia política. Evidência mundial histórica do sucesso do modelo socialista chinês, a pobreza absoluta está programada para ser erradicada em 2020. Tais feitos distinguem a China da maioria das nações em desenvolvimento, nas quais o crescimento do PIB não corresponde necessariamente a melhoria no padrão de vida para aqueles que estão na parte inferior.



Compreender o desenvolvimento chinês como produto do socialismo de mercado - não como algum 'triunfo' capitalista - ajuda a explicar as frustrações dos formuladores de políticas ocidentais que, por décadas, buscaram forçar a China, mediante a liberalização da economia, à dependência política e à instabilidade.


Compreender o desenvolvimento chinês como produto do socialismo de mercado - não como algum 'triunfo' capitalista - ajuda a explicar as frustrações dos formuladores de políticas ocidentais que, por décadas, buscaram forçar a China, mediante a liberalização da economia, à dependência política e à instabilidade.

Não é surpresa, então, que as mesmas medidas por meio das quais o Partido Comunista tem buscado salvaguardar sua soberania econômica e evitado as armadilhas da dependência do livre comércio sejam as mesmas políticas que têm sido obstinadamente alvejadas por fóruns de comércio internacional e pela comercial unilateral dos EUA. 

A consistência das demandas ocidentais quanto aos termos do acoplamento econômico da China falam da obstinação com que o ocidente busca dominar financeiramente o lendário "El Dorado" do mercado chinês. Enquanto a China negociava a entrada na Organização Mundial do Comércio, comprometendo-se a baixar as tarifas, reduzir o comércio estatal e abrir seus setores de serviços essenciais ao investimento estrangeiro, a mídia ocidental anunciava a "privatização final" da China, nas mãos das corporações ocidentais.

Ainda assim, onde Clinton em 1997 previu a extinção dos "dinossauros estatais" que supostamente não poderiam competir no mercado global, em 2020, 82 das 119 empresas chinesas listadas entre as 500 da revista Fortune permanecem sob controle do Estado. Sem ver acontecer o colapso altamente antecipado da "economia zumbi" estatal da China, as potências imperialistas voltaram-se para a OMC como porrete político comercial: entre 2009 e 2015, 90% das disputas da OMC entre China, EUA, Japão e Alemanha foram iniciadas por um dos países acima, contra a China. A maioria dessas disputas giram em torno de atacar o envolvimento do Estado chinês na economia, desde limites de mercado sobre propriedade estrangeira até subsídios estatais e empresas estatais.

Sem dúvida, a influência dos ideais neoliberais e de uma mentalidade voltada para o crescimento que subjugou a ideologia à economia encontrou bases significativas tanto no Partido quanto na sociedade civil chinesa. Mas se a reestruturação de cerca de metade das empresas estatais chinesas sob Zhu Rongji entre 1997 e 2003 marcou a guinada mais dura para a privatização total, o mercado da China nunca foi totalmente "aberto" ao poder monopolista imperialista, como a maioria dos outros países "emergentes". Em meio à ascensão da China à OMC em 2001, os espectadores lamentaram que, apesar do crescimento da China como economia voltada para a exportação, o país permaneceu apenas "superficialmente integrada" à economia mundial, com a propriedade estatal de setores críticos, como bancos, comunicações e energia permanecendo "isolada da concorrência internacional". O que o economista marxista Samir Amin chamou de globalização "parcial e controlada" da China, particularmente o controle do Estado sobre seus sistemas bancários, está no centro da luta da China por soberania dentro de um sistema mundial capitalista.

A "Chimérica" como parasitismo imperial

A entrada da China na OMC e seu subsequente acúmulo de reservas da dívida dos EUA foram o prenúncio do que os analistas ocidentais passaram a chamar de "Chimérica" - uma besta econômica que agora representa 40% do PIB mundial. Vista com admiração e medo, a classe capitalista ocidental apreciou o papel da integração da China no processo de suprimir a taxa de juros dos EUA e subsidiar o consumo da classe média com importações baratas. Ainda assim, os nacionalistas econômicos suspeitavam da terceirização de empregos na indústria e da entrega de cadeias de suprimentos essenciais, ao controle chinês.

À medida que a administração Trump tenta dividir a Chimérica, com nova retórica de desacoplamento, essas tendências encontraram nova relevância nas recentes reavaliações das duas economias. Por um lado, narrativas como matéria de capa de 2019 da Newsweek "Como as maiores empresas da América tornaram a China Grande Outra Vez" pintam a convergência econômica EUA-China como o resgate, por empresas norte-americanas, de uma economia chinesa inchada e em declínio. Por outro lado, o muito que os EUA dependem das cadeias de suprimentos chinesas foi pintado como perigosa ameaça econômica e de segurança - linguagem enfatizada em meio à pandemia COVID-19, já que falcões da China como Peter Navarro insistiram numa desastrosa cadeia de suprimentos médicos "American First", fora do controle chinês ostensivo.

No entanto, nenhum dos enquadramentos captura a natureza fundamental da "Chimérica": uma relação de parasitismo imperialista. Mediado pela concessão do status de comércio de Nação Mais Favorecida e ascensão na OMC, a relação EUA-China tem como premissa um desequilíbrio econômico no qual as empresas ocidentais colhem os frutos da força de trabalho massiva e de baixo custo da China, enquanto inflam o consumo ocidental por meio do acesso a importações baratas.

Num acoplamento sob esses termos, a China tem historicamente suportado o fardo da extração de recursos depositados offshore, manufatura suja e exportação de resíduos do Ocidente. Enquanto décadas de política comercial dos EUA condenaram um "desequilíbrio comercial" a favor da China, a vantagem dos EUA é quantificável: entre 1978 e 2018, em média, uma hora de trabalho americano foi trocada por quase quarenta horas de trabalho chinês.

A onipresença de bens de consumo "Made in China" na década de 2000 - junto com a conotação racializada de que tais produtos seriam necessariamente baratos, sujos ou contrafações - falava de uma relação econômica EUA-China que se resumia à máxima "China produz, EUA consomem."

Durante a era das "portas abertas" e das Guerras do Ópio, o economista britânico e crítico do imperialismo JA Hobson disse da iminente colonização da China, que inevitavelmente "drenaria o maior reservatório potencial de lucro que o mundo já conheceu", para consumi-lo no Ocidente. A integração no século XXI da China ao sistema econômico capitalista global concretizou, em parte, aquela velha fantasia imperial. 


Durante a era das "portas abertas" e das Guerras do Ópio, o economista britânico e crítico do imperialismo JA Hobson disse da iminente colonização da China, que inevitavelmente "drenaria o maior reservatório potencial de lucro que o mundo já conheceu", para consumi-lo no Ocidente. A integração no século XXI da China ao sistema econômico capitalista global concretizou, em parte, aquela velha fantasia imperial.


A disposição da China para aceitar esses termos é frequentemente mal interpretada como sinal de um partido governante chinês que só teria, de comunista, o nome, indicativo de um "capitalismo de estado" chinês que atrelou seu vagão ao comércio capitalista imperialista do Ocidente.

Quem contudo compreenda o socialismo com características chinesas sabe situar melhor o acoplamento chinês com o capital ocidental, sem vê-lo apenas como alguma barganha fundamental promovida pela liderança do Partido. Desde as plenárias do 11º Comitê Central entre 1977 e 1982, o Partido reconheceu oficialmente a contradição primária da sociedade chinesa, "entre as crescentes necessidades materiais e culturais das pessoas e a produção social atrasada". Na formulação de Deng, o ar fresco do investimento estrangeiro, da transferência de tecnologia e do avanço produtivo foi como 'avalista' das moscas que inevitavelmente vieram com ele.

A liberalização econômica controlada, no entanto, criou condições para o pensamento neoliberal. Uma ênfase no crescimento econômico provavelmente criou um mal-entendido popular sobre a relação entre política e economia, no que Wang Hui chama de "política despolitizada" da era Deng.

Tal pensamento também coincidiu com a ideologia pró-EUA e uma crença popular nos destinos entrelaçados da China e dos EUA. Na esteira da crise financeira ocidental de 2008, slogans como "salvar a América é salvar a China" (救 美国 就是 救 中国) e a teoria do "casal China-EUA" (中美 夫妻 论) refletiram o interesse que a China via como seu interesse nacional, de estabilizar a economia capitalista mundial, contra o colapso interno e a crença de que divergências ideológicas e políticas entre a China e o mundo capitalista ocidental pudessem ser resolvidas exclusivamente pela cooperação econômica.

Essa fé nos destinos entrelaçados da China e dos EUA evidencia uma subestimação crítica das pré-condições da cooperação econômica. Embora envolta no fervor da ideologia da Guerra Fria, a agressão dos EUA à China também é decididamente material. Afinal, o alinhamento das aspirações de desenvolvimento nacional da China com a sede da classe capitalista dos EUA por oferta massiva e barata de mão de obra sempre dependeu de a China "conhecer seu lugar" na escada da oferta global.

Sob essa luz, as demandas ocidentais recorrentes por acesso a mercados, privatização e fim do planejamento econômico estatal funcionam como tentativas de restringir o crescimento da China dentro dos limites de um mundo unipolar dos EUA. Os esforços chineses para escapar de seu papel predeterminado de "fábrica do mundo" são, portanto, necessariamente interpretados como um desafio existencial à hegemonia dos EUA. Por trás do jargão financeiro de tarifas, manipulação de moeda e status comercial de Nação Mais Favorecida, as estipulações dos EUA sobre o envolvimento da China na economia mundial são fundamentalmente questão de imperialismo, extração de lucro e soberania econômica.


Por trás do jargão financeiro de tarifas, manipulação de moeda e status comercial de Nação Mais Favorecida, as estipulações dos EUA sobre o envolvimento da China na economia mundial são fundamentalmente questão de imperialismo, extração de lucro e soberania econômica.


Na verdade, a reestruturação econômica em curso da China na última década é em grande parte sinal de que o país reconhece a dependência excessiva do capital ocidental - tornada ainda mais terrível pela virada dos EUA em direção ao "desacoplamento". Na esteira da crise financeira de 2008, um relatório do Ministério do Comércio chinês de 2010 alertou que para cada US$100 bilhões exportados da China para os EUA, os EUA captam US$80 bilhões em lucros, contra US$20 bilhões da China. Relatórios semelhantes quantificaram o "dividendo de hegemonia" gerado pelos lucros de monopólio dos EUA por meio da hegemonia do dólar, senhoriagem da dívida e derivativos financeiros. Isso levou a China a concentrar-se novamente nos mercados domésticos, "qualidade e inovação" em relação às exportações de baixo custo e reestruturação industrial em seu 12º Plano Quinquenal (2011-2015). Esse movimento de pivô econômico consolidou-se sob a iniciativa Made In China 2025, que privilegia a inovação e os mercados domésticos mais bem descritos como Made by [pela] (e frequentemente, para a) China.

Legenda: Autoridades dos EUA e da China, incluindo o vice-premiê chinês Liu He, o representante comercial dos EUA Robert Lighthizer e o secretário do Tesouro Steve Mnuchin, se reúnem durante negociações em Xangai em julho de 2019. [Ng Han Guan / AFP / Getty Images]


Sob essa luz, a demonização ocidental de Xi Jinping como personificação de mais um evento em que a China ter-se-ia "perdido", tem tudo a ver com o fato de que, sob o mandato de Xi, a China consolidou a defesa dos princípios socialistas de sua economia política - a saber, ênfase na liderança do Partido sobre o setor privado; expansão do papel das empresas estatais; e repressão aos funcionários corruptos que exploraram o influxo de capital na fase de reforma e abertura, para ganho pessoal.

Combinados, o sucesso do planejamento econômico do estado para atravessar a crise da pandemia COVID-19 na China; e um próximo Plano Quinquenal priorizando a "revitalização rural", a virada para a reinserção do Estado no planejamento econômico e na autonomia, tende a se consolidar ainda mais.

Combina-se aí também uma postura diplomática e internacional mais assertiva, de iniciativas internacionais como a Iniciativa Cinturão e Estrada e o Banco Asiático de Investimento e Infraestrutura, que reduzem a dependência da China dos mercados ocidentais e de instituições internacionais controladas pelo Ocidente. Assim se vê que a última década deu cabo de quaisquer dúvidas remanescentes sobre se a China se juntaria às fileiras do Japão ou da Coréia do Sul como parceiros menores de um sistema mundial capitalista e imperialista liderado pelos EUA.

Para desgosto da elite política ocidental, a era de "ganhar tempo, esconder forças" parece ter ficado definitivamente para trás.

 

Foto:

Por 美国国务院,State Dept Image by Mark Stewart -

 


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