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Nos EUA: Batalha pela natureza e pelo rumo da própria mudança

17.01.2021
 
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Nos EUA: Batalha pela natureza e pelo rumo da própria mudança
11/1/2021, Alastair Crooke, Strategic Culture Foundation


O movimento pelo qual os Democratas ("Azuis") abraçaram a revolução cultural 'politicamente correta' dos 'alertas para a injustiça na sociedade, principalmente o racismo''[orig. woke cultural revolution] pode vir a se revelar seu calcanhar de Aquiles. É movimento que anda a contrapelo das normas históricas das culturas humanas.

Predições para o ano que começa teriam de ser tão efêmeras, que se tornam sem sentido. Os 'não sabidos não sabidos' são tantos; a situação, dinâmica demais. Mesmo assim, é possível assumir algumas variáveis chaves, que se tomam com excessiva facilidade por garantidas, e olhá-las mais diretamente 'olho no olho'. Por que fazer isso, se 'olhar' dá tanto trabalho e não é confortável? A resposta, os antigos nos disseram, é que sem esse 'olhar' penetrante da consciência, nossas ansiedades não ditas movimentam-se no nosso inconsciente, até a psicose - ou a doença física. Os limites de nossa bolha exigem, primeiro, que os rompamos.

Comecemos com os EUA nesse ponto de inflexão fundamental: Jake Sullivan, Conselheiro de Segurança de Biden, falando recentemente, transpirava confiança de que a cópula entre Biden e políticos 'do outro lado' no Congresso ajudará a promover suas políticas com a China: "Ele (Biden) sabe o que quer com a China e está promovendo sua estratégia que não se baseia em política, não se baseia em ser empurrado de um lado para outro pelo eleitorado doméstico (disse isso! Que comentário interessante!). Sullivan descreveu-a como "estratégia de visão clara, estratégia que reconhece que a China é sério concorrente estratégico dos EUA - que age de modos que se opõem aos nossos interesses em vários sentidos inclusive interesses comerciais." Mas, ao mesmo tempo, "também é uma estratégia que reconhece que trabalhará com a China nos pontos em que isso seja do nosso interesse".

O que haveria a lamentar numa 'declaração tão normal e racional'? Nada per se - exceto que presume um retorno à velha política bipartidária, pela qual Vermelhos (Republicanos) e Azuis (Democratas) frequentam os mesmos coquetéis em Washington e assumem um desejo partilhado de serem incluídos no business de Washington.

Patricia Murphy do jornal Constitution de Atlanta que cobriu a campanha para o Senado na Geórgia, observou que: "Republicanos não confiam na eleição (...) Nenhum eleitor Republicano, com quem Murphy falou desde o dia da eleição, crê na vitória do presidente eleito (Biden). "Ninguém, uma pessoa, que fosse, de todas com quem falei" - disse ela. "E muitos absolutamente não creem que Biden seja empossado dia 20 de janeiro".

A declaração de Murphy fala diretamente de duas realidades norte-americanas: uma, com raízes na profunda desconfiança entre as elites, e de um status quo imundo; a 'outra' realidade vê os interlocutores de Murphy não só em negação: também os vê com desprezo.

Hoje o acesso à rede é quase ilimitado: mas parece que essa enorme sobrecarga nos leva a "escavá-la", mais do que a nos "abrir" para ela. Quem queira, pode encontrar online todo um universo de pontos de vista alternativos, mas bem poucos encontram. Paradoxalmente, a era da Informação nos fez menos dispostos a considerar visões de mundo diferentes da nossa. Nos apegamos aos que pensem como nós. Queremos ouvir os que pensam como nós e os temos como amigos.

E, dado que é muito mais fácil confirmar nossa perspectiva e viés - e fazer pouco dos demais - já perdemos quase completamente a noção de política por argumentos ou consenso. Podemos viver e vivemos em nossos mundos digitais segregados, mesmo quando fisicamente, esses 'outros' sejam, na verdade, nossos vizinhos de porta. Foi um dos objetivos dos arquitetos de campanha de Trump, que a campanha - e suas políticas, em termos mais gerais - tratassem de mobilização - não de persuasão. A política hoje, em outras palavras é pós-persuasão; pós-'factual'.

A 'insurreição' no prédio do Capitólio - por muitos que tenham visto em ação grupos de agitadores revolucionários - foi comparativamente inofensiva (uma veterana da Força Aérea dos EUA, desarmada, que participava da manifestação; foi morta a tiros pela polícia, que atirou de trás de uma porta fechada).

Claramente, esse assalto ao Capitólio jamais foi concebido como 'golpe' real; foi 'manobra' de Trump para manter sua base energizada e mobilizada - e com Trump firmemente no controle do Partido Republicano. De qualquer modo, foi desastre do ponto de vista de Relações Públicas, e confundiu muitos dos apoiadores trumpistas. Se o objetivo foi expor detalhes de alguma fraude, como parte da sessão de confirmação do eleito, fracassou.

Se houve algum tipo de golpe, foi golpe que Trump urdiu contra a 'velha guarda' do Great Old Party, GOP, Republicano, como Romney, (chamado de traidor, por passageiros do voo que o levou a Washington). É a elite do country-club GOP quem luta para 'retomar' o Partido das garras Trumpistas. Conseguirão, à luz do que aconteceu? O Estado Profundo [preferimos "Estado Permanente", porque o tal autodeclarado 'estado' (e nem estado é!), não é ruim por ser 'profundo'; é ruim por ser permanente, inalterável, inalcançável por forças de democratização (NTs)] tem fileiras cerradas irrevogavelmente contra Trump. Será que consumiram afinal suas nove vidas (felinas)?

Por mais que Trump tenha estado à frente do que aconteceu dia 6 de janeiro, não se trata dele (como o jornalismo comercial de massas insiste). Na verdade, os EUA estão hoje nas escaramuças inaugurais rumo a combate existencial. Essa é batalha em que se disputam a natureza e a direção da própria mudança. Em que se disputam a direção em que andarão a sociedade dos EUA e sua ordem constitucional; e como se deve definir, na própria essência, a legitimidade do governo republicano. "Simplesmente, o equilíbrio político dos EUA desde cerca de 1876 foi completamente derrubado. Continuidade e mudança, para o melhor ou para o pior, estão travados numa clássica luta de vida ou morte. Como será decidida? Como terminará?"

Não confiar na eleição, na democracia norte-americana, portanto, anuncia mudança profunda na política que vai tomando conta dos EUA e da Europa. Ter perdido a Geórgia é, talvez, agora, menos crucial. Elementos do GOP preparam-se para oposição radical (para salvar a República, que para eles estaria à beira da perda total). Os membros do Congresso que fazem objeção sabiam que jamais conseguiriam obter apoio de maiorias nas duas casas do Congresso para suas objeções. O objetivo deles parecia ser, isso sim, estabelecer uma linha de partida (prova de fraude) para o futuro da oposição ativista aos resultados da eleição de 2020. Nessa linha de partida, insistirão que Biden/Harris não são legitimamente eleitos, que são usurpadores contra os quais se justificam quaisquer meios de resistência. Sonhavam com herdar a base de Trump, e 'surfar sua onda'. Há um vazio hoje? Essa é questão para 2021.

A questão seguinte para 2021, então, tem a ver com o velho ditado "Cuidado para não vencer demais." Pode ser grave erro empurrar os adversários para um canto onde já nada tenham a perder. O estado Democrata expulsou Trump; e os Republicanos ficaram com tudo 'em todo o tabuleiro' e estão prontos a implementar o 'Re-set' - a derradeira subjugação dos Republicanos por força maior, alcançada pela preponderância da riqueza, da alavancagem institucional governante e de poder militar. Uma revolução social de alertas para a injustiça na sociedade, principalmente o racismo [orig. woke social revolution] e, também, uma transformação política. O pleno resultado provavelmente reconstituiria a ordem constitucional, de modos tais que a maioria dos norte-americanos de hoje não saberão reconhecer.

Mas os EUA Vermelhos [Republicanos] sucumbirão por exaustão ou por falta de liderança; ou, por outro lado, talvez encontrem a energia necessária para revitalizar a República 'deles'? Veremos - questão enorme, cujas ramificações podem deixar particularmente nervosas as elites da União Europeia. Claro que os Azuis [Democratas] tem hoje force majeure. Mas há aquele outro velho adágio: 'Avaliação apaixonada, partidária só presta para pôr fogo na 'situação' - e a censura pelas Big Tech e empresa das mídias comerciais de massas (sociais) e a concomitante humilhação de Trump podem convertê-lo em mártir, e tornar ainda mais forte o espírito de desafio.

Apesar de a Velha Guarda do GOP tem tentado uma 'contrarrevolução' (falando de acionar a 25ª Emenda), as divisões entre os dois EUAs são agora tão grandes que só podem significar, afinal de contas, uma separação na cópula 'com o outro lado' (mesmo que tenha de ser adiada até a rodada de 2022 de eleições para o Congresso). É otimismo de Jake Sullivan que os afagos que Biden faz ao 'outro lado' lhe permitirão aprovar sem dificuldades suas políticas para a China - especialmente dado que Biden é visto como muito profundamente manchado no que tenha a ver com a China? Poderá 2021 aprofundar mais a nova era de conflito civil, em vez de um retorno às velhas boas maneiras - e assim a novas políticas de 'não arrastar prisioneiros'?

As questões prioritárias para todos esses líderes ocidentais com certeza serão a Covid; a concomitante oposição ao lockdown, feita por proprietários de pequenos e médios negócios; e os efeitos nocivos 'eles-e-nós' de um paradigma econômico de 'dinheiro grátis'. A política exterior - exceto China e Rússia (países sobre os quais há algum, e pode-se dizer o único, consenso bipartidário nos EUA) - merecerá menos atenção.

E aqui estão tramas inter-relacionadas que podem demandar novas reflexões um pouco mais críticas para 2021: EUA e a EU - compreensivelmente - querer desesperadamente que as respectivas economias saltem de volta para uma via de recuperação: "A onda azul de Biden quase garante isso" - exalta o editor de economia de Telegraph, Evans Pritchard -, "com o estímulo fiscal que se encontra-se com combustível monetário já acumulado no sistema - bem quando os EUA saem da pandemia".

Até comentar essas esperanças panglossianas já parece rebarbativo. As vacinas foram vendidas como 'a esperança' de normalidade; mas parece prematura a noção de que as vacinas estariam agora próximas de lançar os EUA a jato no Nirvanatout de suite. A Organização Mundial da Saúde diz que ainda não se sabe se as vacinas realmente detêm a infecção (o que é diferente de apenas mitigar os sintomas mais severos).

Tampouco se sabe se as vacinas são efetivas contra novas cepas do vírus (como as mutações do Reino Unido e da África do Sul); e não é garantido sequer que muitos norte-americanos aceitem ser vacinados. As coisas parecem resumir-se a uma corrida entre infecções em ritmo acelerado, e lenta fabricação e distribuição de vacinas - e corrida cujo resultado ainda é incerto. O resultado, seja qual for, terá consequências políticas - em particular, no ano que se inicia, para a União Europeia.

Há também uma fronteira frágil e peripatética (nos EUA e na Europa) entre, de um lado, as noções de que lockdowns atribuíveis ao vírus são complô urdido pela elite para concentrar ainda mais a economia nas garras de uns poucos oligarcas; e, de outro lado, uma convicção de que a infecção é risco grave, que exige alto grau de disciplina pública. Para que lado se moverá essa 'fronteira'; de que lado da média parará ao longo desse ano; e o sucesso (ou o fracasso) na produção de vacinas efetivas e seguras, constituirão evento político chave - talvez mesmo evento político existencial para alguns governos e instituições.

É difícil ver brotar algum crescimento, da simples decisão de aumentar massivamente a dívida pública - o que Biden chamou de 'combustível de avião a jato'. Desde 2008, a dívida sufocou o crescimento, semeou uma legião de empresas-zumbi, e estimulou principalmente a valorização de bens em fuga. E é difícil ver algum crescimento a partir de uma economia que se planta em torno de gigantes monopolistas, que asfixiam a inovação, enquanto as pequenas empresas são massacradas. A questão é o crescimento real, ou estamos em busca de mais um sopro de liquidez para fingir que alguma coisa estaria crescendo? Pesquisas (Forbes) sugerem que 48% de pequenas empresas norte-americanos correm risco de desaparecer.

Claramente, centralizar a economia em torno das gigantes do big business representa a viga central do Great Re-set tech. Essa "Grande Reestruturação está sendo promovida como um 'milagre pelo lado da oferta' que nada poderia deter, e que transformará a produtividade e o crescimento. Mas é tese que não encontra apoio na história:


"Por um quarto de século pós-2ª Guerra Mundial", observa a Chicago Booth Review , o valor da produção por hora de cada trabalhador subiu 2,7% ao ano. Depois veio momento de crescimento mais lento que durou 20 anos, de 1974 a 1994, quando o crescimento da produtividade caiu para 1,5% ao ano. Foi período que incluiu a ascensão do computador pessoal e a integração de novas tecnologias em numerosas indústrias - e, como é o caso hoje, as pessoas perguntavam-se por que a produtividade passara a crescer menos". A frase de Robert Solow ganhou fama: "Vejo computadores por todos os cantos, exceto nas estatísticas de produtividade."

"Com o tempo, os computadores apareceram também nas estatísticas de produtividade. Em meados dos anos 1990s, a produtividade novamente acelerou, para cerca de 3% ao ano. Aí ficou por uma década, antes de voltar a cair. E nunca mais subiu. Assim, a média de 1,2% de crescimento anual da produtividade a que temos assistido desde meados dos anos 2000s equivale a menos que a metade do crescimento que se vira na década anterior, e é crescimento mais lento, inclusive, do que os 20 anos de lentidão, de 1974 a 1994.

"Apesar do que parecem ser mudanças inacreditavelmente rápidas na tecnologia, os dados não mostram crescimento acelerado pela tecnologia. - De fato, o que se vê é o padrão oposto. Uma vez que se sabe que o crescimento econômico exige crescimento na produtividade, se não descobrirmos por que acontece o que está acontecendo e como consertar as coisas, não teremos aumentos sustentados no PIB per capita".


O Republicanos venceram praticamente tudo que poderiam vencer. Sim, o ano está apenas começando. O movimento pelo qual os Democratas ("Azuis") abraçaram a revolução cultural 'politicamente correta' dos 'alertas para a injustiça na sociedade, principalmente o racismo''[orig. woke cultural revolution] pode vir a se revelar seu calcanhar de Aquiles. É movimento que anda a contrapelo das normas históricas das culturas humanas.

O perigo do Re-set de estilo liberal seria, para Francis Fukuyama, que ignoraria o ideal homérico heroico de Thymos - as maiores paixões que guiam o homem a buscar glória e renome. Fukuyama observa que "Thymos é o lado do homem que deliberadamente busca a luta e o sacrifício". Atendidos nossos desejos materiais e políticos, a alma humana procurará mais profundamente por impulsos mais antigos, necessidade de reconhecimento e glória, como a que levou Aquiles, sabendo o que o esperava, à morte no campo de batalha de Troia.

"Os que permaneçam insatisfeitos, sempre terão o potencial para reiniciar a história" - observa Fukuyama.*******