Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Após 12 eleições, para onde vai a América Latina?

Boa parte da população do continente repele neoliberalismo na rua e nas urnas. Evo, Chávez, Lula e Rafael Correa são consagrados em embates contra a direita. Mas ainda não existe um projeto viável para a mudança de modelo.

Gilberto Maringoni

SÃO PAULO – A eleição de Hugo Chávez, no último domingo (3), marca o aprofundamento de um ciclo histórico latino-americano iniciado há exatos oito anos. Na época, não se podia perceber que a primeira eleição do ex-coronel venezuelano, em 6 de dezembro de 1998, representasse algo mais do que um fenômeno local. O país se arrastava havia uma década e meia em um caos econômico de proporções gigantescas, que gerou em sua esteira uma aguda crise social, política e institucional.


Nessa época, nos demais países, vivia-se as derradeiras ondas da ofensiva neoliberal. Fernando Henrique Cardoso acabara de ser eleito para o segundo mandato, Carlos Menem iniciava seu último ano na Casa Rosada, ainda com o peso indexado ao dólar, Ernesto Zedillo seguia as trilhas de Carlos Salinas de Gortari após a quebra do México, em 1994, Alberto Fujimori entrava no último biênio de seu governo e o general Hugo Banzer governava com mão de ferro a Bolívia, reprimindo conflitos sociais que ganhariam força irrefreável a partir de 2001. Embora sofresse solavancos e tentativas de golpe, a eleição de Chávez era vista inicialmente como pouco mais que uma curiosidade política. Uma exceção num país singular.


Exceção vira onda


Hoje, a exceção se espalha pelo continente. Isso não se dá na forma de governos com diretrizes comuns, mas através de manifestações de descontentamento popular com o modelo em voga nos anos 1990. Após as eleições de Nestor Kirchner na Argentina, de Lula no Brasil e de Tabaré Vasquez no Uruguai, entre 2001 e 2004, percebeu-se que havia uma onda antiliberal, materializada também em um incremento das mobilizações sociais no Peru e na Bolívia.


A nova rodada de eleições continentais – iniciada com a vitória de Evo Morales na Bolívia em dezembro de 2005 – confirmou a tendência geral. De lá para cá, mais onze países vivenciaram disputas presidenciais. Pela ordem são Chile, Costa Rica, Haiti, Colômbia, Peru, México, Brasil, Nicarágua, Honduras, Equador e Venezuela. Se tivermos uma métrica bem elástica, podemos dizer que Bolívia e Venezuela conduziram líderes de esquerda ao governo. Argentina, Brasil, Uruguai, Nicarágua e Chile têm mandatários de centro-esquerda. O Peru e o Haiti podem engrossar este segundo bloco, que talvez ganhe também a adesão do Equador. Um terceiro time enfeixa o espectro do centro-direita à direita, com Costa Rica, Colômbia, México e Honduras.


O jogo não é simples, porque até agora só a Bolívia deu mostras de buscar uma efetiva mudança do modelo econômico, através da nacionalização e da possível reestatização de empresas privatizadas. O maior enfrentamento com o mundo das finanças aconteceu na Argentina, com a reestruturação forçada da dívida pública, em 2003. A Venezuela consegue valer-se de seu imenso excedente petroleiro para recobrar a iniciativa estatal, especialmente em políticas sociais.


Integração e peso dos países


Do ponto de vista econômico, o governo de Hugo Chávez é extremamente cauteloso, em contraste com sua verborragia antiimperial. Na seara política, sua audácia criou condições para uma integração continental alicerçada nos estados nacionais e não nas chamadas leis de mercado.


No caso brasileiro, a eleição de Lula, que em quase nada contesta o modelo, cria uma situação curiosa. O peso do país no continente – um terço do Produto Interno Bruto (PIB) latino-americano – faz com que qualquer movimentação, por menor que seja, tenha imensas repercussões. É o caso dos comportamentos diante da Bolívia e da Venezuela em situações delicadas. Assim, se Lula no segundo mandato decidir se descolar do modelo seguido em sua atual gestão, o efeito nos outros países será significativo.


Aliás, é interessante examinar os PIBs para balizar o exame da geopolítica continental. Os dados sobre essa proporção estão disponíveis neste endereço eletrônico . Lá se pode ver que, apesar de toda a radicalização de Evo Morales, a Bolívia responde por míseros 0,4% das riquezas produzidas entre o rio Grande e a Terra do Fogo. Chávez, por sua vez, está montado em 5,7% do total. E a moratória de Kirchner atingiu uma economia que responde por 7,5% das riquezas continentais. É pouco, apesar de tudo.


Se colocarmos num mesmo balaio o espectro que vai da esquerda até o centro (Bolívia, Venezuela, Argentina, Brasil, Uruguai, Nicarágua, Equador, Uruguai e Chile), veremos que, juntos, esses países contam com 54% do PIB continental. Do outro lado, o México (31,6% das riquezas regionais) ajuda a equilibrar o jogo.


Ainda sem saída


Esta soma é um mero exercício aritmético, pois não há, nem de longe, um confronto entre blocos claramente definidos na região. Mas a conta mostra o potencial da política de integração entre os países e o protagonismo de cada economia. Se pensarmos que Cuba desafia claramente o poder imperial dos Estados Unidos, veremos que, em certas circunstâncias, a coragem política conta mais que o gigantismo econômico.


O certo é que aintegração continental depende fundamentalmente de três atores. São eles a Venezuela pela ousadia, a Argentina pela coragem e o Brasil pelo tamanho. Os outros países, lamentavelmente, provocarão poucos abalos diretos no modelo dominante. O que casos como o Boliviano podem gerar é o efeito-exemplo de suas ações vitoriosas, que podem ser adaptadas em outras partes. É isso que teme concretamente a Casa Branca.


Mas o problema maior para o poder imperial não é este. Nenhum dos países, nestes oito anos, encontrou uma rota de saída segura para o modelo neoliberal. Conseguiram realizar enfrentamentos pontuais, mas não lograram construir um projeto questionando os parâmetros mercadistas no atacado.


O problema não reside no fato, sempre alardeado pela direita, de Chávez vender a maior parte de sua produção petroleira para os Estados Unidos. Comércio é assim, vende-se para quem tem dinheiro. A questão está em não se ter conseguido ainda extrair uma teoria desses fenômenos novos, após a quebra do socialismo real no início dos anos 1990. Não há rota pré-definida e nem bússola.


Hugo Chávez – como todos aqueles que desejam mudar a sociedade atualmente – tateia na escuridão. Não é um problema dele ou da Venezuela, mas da esquerda mundial, nas condições políticas reais.


Vitórias e derrotas: crescimento da esquerda


Nada disso, porém, reduz o efeito da surra que a direita continental tem levado na maioria dos países. E não se pode esquecer que as reeleições de Lula e de Chávez se deram com números semelhantes às de suas primeiras vitórias. O venezuelano teve 56,2% dos votos em 1998 e atingiu agora 61,6%. O líder brasileiro caiu ligeiramente, passando de 61,3% em 2002 para 60,8% agora. As preferências estão consolidadas.


Mesmo nos países em que a chamada esquerda foi derrotada – os casos mais evidentes são Peru e México – ela teve um crescimento expressivo. No Peru, a candidata da oligarquia, Lourdes Flores, sequer chegou ao segundo turno. O vencedor, Alan Garcia, não representa exatamente a direita, mas um setor nacionalista moderado. E no México, um pleito obscurecido por fortes suspeitas de fraude pode criar problemas no curso do governo de Felipe Calderón, claramente de direita. Sucessivas manifestações de rua impediram até mesmo a tranqüilidade de sua cerimônia de posse na semana passada.


Polarização e hegemonia


O fato de não haver projetos claros impede que a polarização social expressa nas urnas – grosso modo os pobres votam na esquerda e os ricos na direita – se transforme em polarização política e que a disputa pela hegemonia se dê de maneira clara. Esta divisão classista do voto é, evidentemente, uma generalização. Mas ela pode ser comprovada pelos mapas de votação das eleições de Evo Morales, Lula e Hugo Chávez.


De tudo isso, algumas definições podem ser esboçadas. A primeira é que estamos diante do ciclo mais promissor para transformações sociais no continente em toda sua história. O segundo é que apesar disso, não existem forças sociais capazes de formular projetos alternativos para a região. Permanecemos todos em nuances do modelo dominante. E em terceiro é que, como decorrência dos dois anteriores, não sabemos onde isso tudo vai dar. Como em inúmeros casos, trata-se de uma aposta histórica. Torçamos para que o caminho não seja doloroso.

Gilberto Maringoni – Carta Maior

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