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´Um passo de cada vez´: Uma entrevista com Jean-Bertrand Aristide

11.02.2010
 
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Quanto ao Haiti, voltando a 1993, os americanos aceitaram com prazer um plano econômico negociado. Quando eles insistiram, através do FMI e de outras instituições financeiras internacionais, na privatização das estatais, eu estava preparado para concordar, a princípio, se necessário - mas recusei-me em simplesmente vendê-las, incondicionalmente, a investidores privados. A corrupção no setor estatal era inegável, mas havia muitas diferentes formas de abordar essa corrupção. Ao invés de privatização sem limites, eu estava pronto para concordar com uma democratização dessas empresas. O que isso significa? Significa uma ênfase na transparência. Significa que alguns dos benefícios de uma fábrica ou uma empresa deveriam ser partilhados entre as pessoas que trabalham para ela. Significa que alguns desses benefícios deveriam ser investidos em coisas como, escolas locais, clínicas de saúde, de modo que os filhos dos trabalhadores possam receber algum benefício proveniente de seu trabalho. Significa criar condições em nível micro que são coerentes com os princípios que queremos guiar o desenvolvimento em nível macro. Os americanos disseram "tudo bem, sem problemas".

Nós assinamos aqueles tratados, e estou em paz com minha decisão até hoje. Eu disse a verdade, ao passo que eles o assinaram em um espírito diferente. Eles o assinaram porque com isso poderiam facilitar meu retorno ao Haiti e assim arranjar a vitória na política externa, mas, assim que eu voltei ao governo, eles já haviam deixado planejada a renegociação dos termos da privatização. E foi exatamente isso que aconteceu. Eles começaram a insistir na privatização sem limites e, novamente, eu disse não. Quiseram então desfazer nosso acordo, e então, lançaram uma campanha de desinformação para fazer parecer que eu não cumpri com a palavra. Isso não é verdade. Os acordos que nós criamos estão lá. As pessoas podem julgar por elas mesmas. Infelizmente nós não tínhamos os meios para vencer a guerra de relações públicas. Eles ganharam a batalha das comunicações, espalhando mentiras e distorcendo a verdade, mas eu ainda sinto que nós ganhamos a batalha real, pois a verdade está conosco.

PH: E quanto à sua batalha com o exército do Haiti, o mesmo que o derrubou em 1991? Os americanos refizeram esse exército de acordo com suas próprias prioridades de 1915 e desde então ele tem atuado como uma força para a proteção daquelas prioridades. Você foi capaz de desmobilizá-lo a poucos meses de seu retorno, em 1994, mas o modo como isso foi feito permanece controvertido, e você não foi capaz de desmobilizar e desarmar completamente os próprios soldados. Parte deles voltou a persegui-lo vingativamente, durante seu segundo mandato.

JBA: Novamente, não tenho nenhum arrependimento em relação a isso. Foi absolutamente necessário dissolver o exército. Nós tínhamos um exército de aproximadamente 7.000 soldados, e isso absorvia 40% do orçamento nacional. Desde 1915 ele tinha servido como exército de ocupação interna. Ele nunca enfrentou um inimigo externo. Por que necessitaríamos de um exército como esse, ao invés de uma força policial adequadamente treinada? Nós fizemos o que deveria ser feito. De fato, nós organizamos um programa social para a reintegração de militares desmobilizados, já que eles também são membros da comunidade nacional. Eles também tinham o direito de trabalhar e o estado tinha a responsabilidade de respeitar esse direito. Ainda mais que, você sabe, se eles não encontrassem trabalho, seriam mais facilmente tentados a recorrer à violência ou ao crime, como foram os Tontons Macoutes antes deles. Nós fizemos o melhor que pudemos. O problema não vinha do nosso programa de integração e desmobilização, veio com o descontentamento daqueles que estavam determinados a preservar o status quo. Eles estavam cheios de dinheiro e armas e trabalhavam mão a mão com a máquina militar mais poderosa do planeta. Era fácil para os americanos cooptar quaisquer antigos soldados, treiná-los e equipá-los na República Dominicana e usá-los para desestabilizar o país. Foi exatamente isso o que eles fizeram, mas, eu insisto, não foi um erro desmobilizar o exército. A situação não foi assim, como se nós pudéssemos ter evitado o segundo golpe, o golpe de 2004 se tivéssemos mantido o exército. Ao contrário, se o exército tivesse permanecido intocável, então René Préval nunca teria terminado seu primeiro mandato (1996- 2001), e eu certamente não teria sido capaz de resistir por três anos, de 2001 a 2004.

Agindo desse modo, trouxemos luz sobre o verdadeiro conflito que estava em jogo aqui. Como você sabe, a história do Haiti é pontuada de uma longa série de golpes de estado. Mas, ao contrário dos golpes precedentes, o golpe de 2004 não foi uma ação do "exército" haitiano agindo sob as ordens de nossa pequena oligarquia, em acordo com os interesses estrangeiros, como aconteceu muitas vezes, tal como no golpe de 1991. Não. Desta vez esses poderosos interesses tiveram que fazer o trabalho, eles mesmos, com suas próprias tropas e em seu próprio nome.

PH: Uma vez que Chambleim e seu pequeno bando de rebeldes foram barrados na periferia de Porto Príncipe e não conseguiam avançar mais, os "marines" americanos entraram em ação e expulsando-o do país.

JBA: Exatamente. A verdade concreta da situação, a real contradição que orienta essa situação, finalmente vem à tona e aparece inteiramente à opinião pública.

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