Pravda.ru

Mundo

´Um passo de cada vez´: Uma entrevista com Jean-Bertrand Aristide

11.02.2010
 
Pages: 1234567
desencoraja o povo em insistir para que suas vozes sejam ouvidas. Eles denunciam a injustiça. Eles votaram para a presidência em fevereiro, e isso também foi uma demonstração de sua dignidade; eles não aceitam mais a indicação de outro presidente de cima para baixo. Esta simples insistência na dignidade é, ela mesma, um mecanismo de mudanças históricas. O povo quer ser o sujeito de sua história, não seu objeto. Assim como Toussaint foi o sujeito de sua história, assim também o povo haitiano tomou e estendeu sua luta, como sujeito de sua história. Mais uma vez, isso não significa que a vitória é inevitável ou fácil. Isso não significa que nós podemos resolver cada problema, ou ainda, que, depois de tratarmos de um problema, aqueles poderosos interesses particulares não irão levar a que se tente todo o possível para desfazer os avanços.

No entanto, alguma coisa irreversível aconteceu. Alguma coisa que fez seu caminho através da consciência coletiva. Esse é precisamente o significado real da famosa afirmação de Toussaint, assim que ele foi capturado pelos franceses, que eles tinham cortado o tronco da árvore da liberdade, mas suas raízes permaneciam profundas. Nossa luta pela liberdade encontrará muitos obstáculos, mas ela não perderá suas raízes. Ela está firmemente enraizada na mente do povo. O povo é pobre, certamente, mas nossas mentes são livres. Nós continuamos a existir como povo, com base nessa tomada de consciência inicial, dessa consciência fundamental do que nós somos. Não é por acaso que quando vieram a escolher um líder, esse povo, essas pessoas que foram mantidas tão pobres e tão marginalizadas pelos poderosos, tenham escolhido, não um político, e sim, um padre. Os políticos deixaram-nos sucumbir. O povo estava procurando por alguém com princípios, alguém que falasse a verdade. De certo modo, isso seria mais importante que sucesso material ou uma pronta vitória sobre nossos adversários. Esse é o legado de Toussaint.

Quanto a Dessalines, a luta que ele conduziu foi a luta armada, foi uma luta militar, e necessária, pois ele tinha que romper as correntes da escravidão de uma vez por todas. Ele conseguiu. Mas será que ainda precisamos levar essa mesma luta, da mesma forma? Penso que não. Dessalines estava errado em lutar daquele modo? Não. Mas nossa luta é diferente. É Toussaint e não Dessalines quem pode ainda acompanhar o movimento popular nos dias de hoje. Sua inspiração conduziu à vitória nas eleições de fevereiro de 2006, que permitiu ao povo manobrar seus adversários para escolher seu próprio líder, contra a vontade do poder constituído.

Para mim isso abre para um ponto mais geral. Nós depositamos muita confiança nos norte-americanos? Fomos muito dependentes de forças externas? Não. Nós simplesmente tentamos permanecer lúcidos e evitar a demagogia fácil. Seria mera demagogia por parte de um presidente haitiano pretender ser mais forte que os americanos, ou de engajar-se numa guerra interminável de palavras, ou opor-se a eles por puro prazer. A única maneira racional de seguir é refletir bem sobre o equilíbrio relativo entre os interesses, compreender o que os americanos querem, lembrarmos do que queremos e avançarmos o possível sobre os pontos de convergência existentes. Vejamos um exemplo concreto: em 1994, Clinton precisava de uma vitória na política externa, e o retorno da democracia no Haiti apresentou-se a ele como uma oportunidade. Nós precisávamos de um instrumento para vencer a resistência do exército haitiano assassino, e Clinton ofereceu-nos esse instrumento. Isso é o que quero dizer por atuar pelo espírito de Toussaint L'Ouverture. Nós nunca tivemos nenhuma ilusão de que os americanos partilhavam de nossos objetivos fundamentais, sabíamos que eles não queriam caminhar na mesma direção, mas sem os americanos nós não poderíamos ter restaurado a democracia.

PH: Não havia nenhuma outra opção, nenhuma alternativa a não ser recorrer às tropas americanas?

JBA: Não. O povo haitiano não está armado. É claro que há alguns criminosos e malandros, alguns traficantes de drogas, algumas gangues que têm armas, mas o povo não tem armas. Você está enganando a si mesmo se pensa que o povo pode partir para uma luta armada. Nós temos que olhar a situação nos olhos: o povo está desarmado e nunca terá tanto armamento como seus inimigos. É inútil meter-se numa luta na área dos seus inimigos ou jogar o jogo deles. Você perderia.

PH: Você não teria pagado um preço muito alto pelo apoio americano? Eles o forçaram a fazer todo tipo de acordo, a aceitar muitas das coisas que você sempre se opôs: um rígido plano de ajustamento estrutural, de políticas econômicas neoliberais, a privatização das empresas públicas, etc. O povo haitiano sofreu muito sob essas restrições. Deve ter sido muito difícil engolir estas coisas durante as negociações de 1993.

JBA: Certamente, mas você tem que fazer a distinção entre a luta, por um lado, como princípio, a luta para persistir na opção preferencial pelos pobres, que para mim foi inspirada na teologia e é uma questão de justiça e verdade e, por outro, sua luta política, que se conduz por regras diferentes. Conforme sua versão de política você pode mentir e trapacear se isso permitir que consiga seus objetivos estratégicos. A acusação de que havia armas de destruição em massa no Iraque, por exemplo, foi uma flagrante mentira. Mas a partir do momento em que foi um útil caminho para atingir seus objetivos, Colin Powell e companhia tomaram esse rumo.

Pages: 1234567