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Perspectivas 2010: da crise ao pós-capitalismo

09.01.2010
 
Pages: 12

Wallerstein prossegue: os Estados Unidos, centro da crise e maior devedor do planeta, serão os mais atingidos, o que acarretará dois processos de dimensões globais. O dólar sofrerá forte desvalorização (devido ao número crescente de investidores interessados em livrar-se de títulos emitidos pelo Tesouro norte-americano), podendo perder sua condição de moeda de circulação internacional. Isso retrairá os investimentos internacionais, devido aos riscos de grandes prejuízos, em consequência de oscilações muito fortes entre as moedas. E o enorme poder geopolítico dos EUA, já fortemente tensionado no Iraque e Afeganistão, declinará rapidamente, já nos próximos cinco anos.

O texto não abre espaço para triunfalismos vazios — e aqui vem sua segunda idéia essencial. Nada garante, frisa o autor, que um planeta com os Estados Unidos e o dólar mais fracos será, automaticamente, melhor que o atual. Em várias partes do mundo, forças ultra-conservadoras, intolerantes e violentas lutarão para ocupar o espaço aberto por este declínio. É o caso dos próprios EUA, onde Wallerstein prevê “demonização de Obama (acusado de traição)”, criação de milícias de extrema-direita e mesmo pressão para intervenções militares. Mas, também, da Europa (os sinais de direitização e de xenofobia se multiplicam) e do Oriente Médio (a retração dos EUA pode abrir caminho para o controle do Afeganistão pelo Talibã, um golpe militar pró-fundamentalistas islâmicos no Paquistão e um ataque militar de Israel contra o Irã, com efeitos imprevisíveis).

Entre os desdobramentos positivos, Wallerstein elenca a provável redefinição dos espaços geopolíticos no mundo, com o vazio da retração norte-americana abrindo espaço para uma ordem mais multilateral. A Europa Ocidental tenderia a voltar-se para Leste e ampliar laços com a Rússia. China, Japão e Coréia buscariam uma aproximação difícil, mas necessária para consolidar um bloco de poder no Oriente. Na América do Sul, poderia surgir um terceiro bloco, “liderado pelo Brasil” e obrigado a enfrentar, entre outros desafios, “múltiplas tentativas de golpes de direita”.

A terceira idéia forte e inovadora do texto é sua visão sobre as batalhas “de médio prazo”: as que se concluirão em 15 ou 25 anos, se darão “não entre Estados, mas entre forças sociais presentes em todo o mundo”, e serão determinantes para definir o desenho do mundo pós-crise. Para Wallerstein, o tema relevante, ao contrário do que supõe parte da esquerda, já não é saber “se será possível ou não acabar com o capitalismo” — mas “organizar-se para o sistema seguinte”, que “estará em processo de construção”.

É que a crise, sugere o autor, levará as próprias classes hoje poderosas a buscar sua própria alternativa. “Os grandes controladores do capital reconhecerão abertamente a impossibilidade de acumulação futura” e adotarão “a busca ativa de modelos sistêmicos que lhes permitam conservar as três características essenciais do atual: hierarquização, exploração e polarização”.

Wallerstein frisa, como conclusão: é preciso afastar, também aqui, as visões mistificantes. “A História não está do lado de ninguém… O resultado final [da batalha] pode ser um sistema muito melhor ou muito pior que o atual sistema-mundo capitalista. O essencial será (1) alcançar lucidez analítica, (2) acompanhada de escolhas morais fundamentais e de (3) ação política inteligente e efetiva. Não será nem um pouco fácil”.

É um alerta, com alguns tons dramáticos. Mas sugere liberdade: o futuro não virá de uma implosão mágica, provocada pela crise; nem estará comprometido, se ela deixar de ocorrer. Em 2010, e em todos os anos seguintes, ele está em nossas mãos.

Mais:

> Há bons textos sobre a vida e obra de Immanuel Wallerstein na Wikipedia (português, inglês)

Ø Outro excelente texto do sociólogo norte-americano, sobre a crise e os desafios dos que querem o pós-capitalismo, saiu na edição brasileira do Le Monde Diplomatique, em julho de 2008.

Ø

Construir outro mundo, em meio à tempestade

Antonio Martins

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