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Momento de revelação dos EUA

08.01.2021
 
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Momento de revelação dos EUA


4/1/2021, Alastair Crooke, Strategic Culture Foundation

Ver também:
"Europa, em momento maquiavélico",
21/12/2020, Alastair Crooke, Strategic Culture Foundation
(traduzido em Pravda.Brasil); e

"O Golpe Europeu (e notas sobre golpes em geral)" (em tradução)
17/11/2020, Perry Anderson, London Review of Books, vol. 42, n. 24


O cortinado que pesa sobre o planeta dos "Não há alternativa" [ing. TINA (There Is No Alternative) está rasgando. O tecido rebenta nas costuras.

Agora que as cortes norte-americanas abdicaram do papel de julgar ações relacionadas à eleição de 3 de novembro, parece que o presidente Trump fará um último esforço entre os dias 6 e 20 de janeiro (dia em que deixa o cargo), para alterar o curso dos eventos. No momento em que redijo essa coluna, cerca de 140 deputados Republicanos dizem que contestarão o resultado de algumas das eleições de 6 de janeiro. É discutível se terão sucesso nas muitas dimensões na empreitada.

E daí? Bem, a América Vermelha [Republicana] - certa ou errada - vê que janeiro pode ser 'o fim da linha' para eles. Oito de cada dez Republicanos creem que a eleição foi roubada; que a corrida pelo Senado estadual da Geórgia também será provavelmente roubada; que a destruição de pequenas e médias empresas por efeito do lockdown foi estratégia premeditada para consolidar ainda mais os oligarcas do Big Business; e que, em resumo, os norte-americanos Republicanos ver-se-ão 'cancelados' por um 'totalitarismo soft' que desperta, orquestrado pelas Big Tech. Na perspectiva deles - é seu momento de epifania, de Revelação. E é momento, para dizer o mínimo, sombrio.

Com esse futuro tétrico à espera dos EUA Republicanos, a conversa mudou e tomou o rumo da secessão ou separação (embora ainda não se fale de divórcio). - Os mais otimistas veem acordo ordeiro, que permita que os EUA Republicanos e os EUA Democratas encontrem espaço vital político para todos, mesmo reconhecendo laços práticos de geografia, comércio, moeda, dívida, diplomacia e força militar. Mas muitos esperam repressão vingancista e nenhuma civilidade.

Qualquer secessão, per se, é pouco provável, - e se for tentada é provável que a tentativa acabe mal. Mas já está acontecendo alguma separação, de facto: observam-se movimentos relacionados às áreas residenciais (dizem os corretores de imóveis), em primeiro lugar, nas áreas divididas 'por cor' [vermelha, para Republicanos; azul, para Democratas], nas quais aumenta o número de casa vazias; e a mesma tendência à 'uniformidade' vê-se nas áreas de destino das famílias que se mudam, conforme os EUA vão-se separando em duas 'tribos'.

Sim, muitos mitos norte-americanos (e, de modo geral, ocidentais) sobre a identidade e a política dos EUA jazem estraçalhados no chão. Muitos continuam em estado de choque. Imaginavam que as eleições fossem eventos sacrossantos nos EUA. Imaginaram que as cortes fossem árbitras. Jamais imaginaram ver um presidente dos EUA ridicularizado e humilhado como se vê hoje, por veículos de empresas da dita 'comunicação' de massa. E a realidade chegou como uma bofetada.

E sim - TINA acabou-se; o mercado de alternativas está aberto para negócios. As ondas do inesperado choque de uma epifania norte-americana dispararão borrifos para a União Europeia (apesar de os líderes europeus estarem atualmente fingindo que nada veem pelo telescópio), e o jornalismo-mídia-empresa Europeia é conivente com ignorar perfeitamente tudo, e assim salvar a Tech-narrativa da realidade.

Mas muito mais que isso, o pranto pelo opressivo funeral de TINA permite a outros estados civilizacionais rejeitarem assertivamente as críticas, ou políticas, que receberam armas contra seus valores-sistema. Se os EUA Republicanos podem rejeitar totalmente os valores acordados, e vice-versa, nesse caso por que outras civilizações não poderiam rejeitar os valores do Iluminismo ocidental?

Já está em andamento: como a Hungria foi bem-sucedida ao enfrentar a União Europeia em defesa de valores húngaros (os quais a Bruxelas progressista desdenha como 'iliberais'), e como a China já deixou claro, só haverá relacionamento comercial com Pequim quando os europeus puserem fim à política de 'prescrever' virtudes Europeias ao resto do mundo.

Que antes de Trump os EUA tenham sido democráticos em qualquer acepção significativa já foi objeto de debate substancial. Estudo de 2014 concluiu que o poder econômico estava então tão concentrado em mãos de uma pequena claque de oligarcas bilionários que acumularam poder político, que virtualmente ninguém desafiaria, o que resulta em poder muito concentrado, e quase nenhum em outras mãos. O estudo concluiu que os EUA reuniram uma oligarquia, não algum tipo de democracia que funcione. A repressão, com reforço da narrativa das Big Tech durante os últimos meses, tem arranhado dolorosamente em casa, o ponto do poder institucional inabalável - para metade dos EUA.

Contudo, o debate sobre quando a democracia dos EUA perdeu-se tornou-se extraordinariamente obsoleto, ante as novas realidades da era Covid: uma combinação de lockdowns prolongados; extinção de pequenas empresas; apoio massivo ordenado por estados na luta contra a pandemia e que flui, em primeiro lugar para elites corporativas, que deixaram aqueles oligarcas e seus aliados do Vale do Silício e de Wall Street ainda mais firmemente entrincheirados, com poder político e econômico literalmente inabordável.

O que nos leva à União Europeia...

Perry Anderson, em longo detalhado exame intitulado "Ever Closer Union?" [União Cada Vez Mais Íntima?] (London Review of Books, vol.43, n.1, 7/1/2021, só para assinantes), mostra como a Europa mudou seu curso na direção de idêntica destinação oligárquica - incluindo as mesmas patologias agora presentes nos EUA:


"[a UE] obviamente não é democracia parlamentar; não se vê divisão entre governo e oposição, nem se vê competição entre os partidos, pelo gabinete, nem prestação de contas aos eleitores. Não existe separação entre os poderes Executivo e Legislativo, segundo linhas norte-americanas; nem conexão entre elas, segundo linhas britânicas ou continentais, na qual um Executivo é investido por legislatura eleita, perante a qual continua obrigado a responder.

"O que se constata é o contrário: um Executivo não eleito detém o monopólio da iniciativa legislativa, enquanto um poder Judicial autoinvestido, com independência não sujeita a qualquer auditoria ou controle constitucional, emite decisões que são efetivamente inalteráveis, estejam ou não em conformidade com os tratados em que se baseiam nominalmente. A regra dos procedimentos da União, quer sejam presididos por juízes, banqueiros, burocratas, deputados ou primeiros-ministros são secretos sempre que possível, e resultado desses procedimentos são proclamados para manifestar a unanimidade".


Num notável paralelo em relação ao curso de recentes eventos judiciários nos EUA, Anderson observa que a Corte Europeia de Justiça, CEJ, é


"corte [os juízes são nomeados, não eleitos; e as deliberações, secretas], com agenda que não corresponde às intenções dos fundadores, a corte vendo-se ela mesma 'nem como guardiã de direitos dos estados signatários, nem como árbitra neutra entre os estados e a Comunidade, mas, isso sim, como força que comanda a integração".


(São traços intimamente relacionados às queixas que se fazem contra o ativismo judicial do Supremo Tribunal dos EUA, no que diz respeito à Constituição. Também tem facilitado a integração e concentração).


"A asserção, pela CEJ, da supremacia da Comunidade sobre leis domésticas, além das leis constitucionais, não tem base no Tratado de Roma, que garantiu direitos de revisão judicial só 'no que tenha a ver com atos de instituições da União, não de estados-membros.

"Mas, com efeito, isso é exatamente o que a corte adota rotineiramente nos procedimentos, como se 'o quadro do Tratado, como pedra de toque da constitucionalidade interna de toda a atividade institucional da UE jamais tivesse visado ao que o [Tratado de Roma] determina tão claramente."


Outra vez - como nos EUA - esse 'ativismo' judicial da CEJ está fixando novas regras, muito além do quadro fixado no "Tratado", sem mandato, sem validação judicial ou sem que os eleitores europeus tenham sido informados.

Quando presidente da CEJ, o belga Koen Lenaerts, expôs sem meias palavras as ambições integracionistas da Corte: "Não há simplesmente núcleo de soberania que estados-membros possam invocar, como tal, contra a Comunidade". A corte visa "ao mesmo resultado prático que teria sido obtido mediante invalidação direta da lei do estado-membro". (O paralelo aqui é com a Corte dos EUA desqualificar qualquer campo para disputas entre os 50 estados co-soberanos dos EUA, em questões de alegada inconstitucionalidade).

Outra vez, seguindo a via dos EUA, quando confrontado com o 'ativismo Woodstock [19]68' que parecia ameaçar seus interesses econômicos - o Big Business dos EUA simplesmente empoderou a 'indústria' do lobbyismo da K-Street, que agora é quem efetivamente escreve quase todas as leis exaradas pelo Congresso. A UE também acompanhou o movimento: "Bruxelas tornou-se rapidamente um ímã para advogados de empresas e investidores norte-americanos, que se puseram a cuidar para que fossem bem tratados e a buscar oportunidades de mercado e trazer com elas as expectativas e práticas de uma poderosa federação".

Logo se formaram relações íntimas com substancial número de juristas belgas de 'alto escalão' especialistas em Direito Comercial, os quais, aproveitando-se do fato de uma CEJ ter "política definida e consistente de promoção do federalismo Europeu" (...) e a qual "interpretara de modo tão amplo proibições de discriminação contra empresas estrangeiras, que quase toda a regulação nacional [i.e., de estado-membro] podia ser compreendida como obstáculo no acesso ao mercado (...)". Assim, Anderson conclui, "a CEJ privou efetivamente os estados-membros do 'poder para determinar a fronteira entre os setores público e privado, entre mercado e estado".

Há hoje em Bruxelas cerca de 30 mil lobbystas registrados - mais que o dobro dos que infestam Washington, estimados em meros 12 mil. Em Bruxelas, 63% são lobbystas consultores e corporativos; 26% são de ONGs; 7%, de think tanks; e 5%, municipais. "É implausível que esse Executivo Europeu pudesse resistir à infecção pelos vapores desse pântano fétido" -Anderson escreve.

Mas aqui está o busílis: a desconexão deliberada entre o processo político e a sociedade.

European Integration de Christopher Bickerton leva, como subtítulo um complemento aparentemente anódino: From Nation-States to Member States [De Estados-nação a Estados-membros]. Todos têm alguma ideia de o que seja um estado-nação, e muitos sabem que 27 países (já descontada a Grã-Bretanha) são 'estados-membros'. Qual a diferença conceitual entre uma e outra categoria?

Aqui, a definição de Bickerton é sucinta:


"O conceito de Estado-membro exprime uma mudança fundamental na estrutura política do Estado: os laços horizontais entre Executivos nacionais aqui prevalecem sobre os laços verticais entre os governos [nacionais] - e as suas próprias sociedades."


Está portanto rompida a conexão entre 27 eleitorados nacionais e o processo político.

Quando a Guerra Fria acabou em 1990, os Executivos europeus já haviam consolidado essa transição para o status de 'estado-membro', quando sobreveio a crise. O Euro - longe de trazer crescimento e prosperidade renovados - mergulhara a Itália em recessão e em estagnação prolongadas, e havia tomado toda a Eurozona num mesmo torvelinho. A resposta da UE então não foi soltar os cordões do espartilho de 'estado-membro', mas, isso sim, apertá-los ainda mais. Hoje, a resposta à pandemia - que destacou precisamente a falta de solidariedade e de competência da Europa - trouxe de volta ao centro do palco o mantra da 'solidariedade' e de 'uma união cada vez mais íntima'.

Os estados europeus do cinturão sul, contudo, ainda pagam o preço de uma união monetária mal concebida e que não pode ser revertida. De fato, por mais que a união monetária, sem união política ou fiscal, tenha sido erro imenso, a dissolução da Zona do Euro ainda é algo que nenhum europolítico destacado considera factível. Contudo, ainda que um segundo grande choque (comparável ao impacto da Grande Crise Financeira, de 2008) estivesse prestes a atingir o sistema - como, por exemplo, lockdowns prolongados disparando a depressão - o projeto Europeu teria de ser radicalmente reconstruído, do começo ao fim - ou teria de ser descartado.

E a 'armadilha' Europa está portanto montada - não pode andar nem para a frente nem para trás. A decisão Europeia de resgatar a moeda única, em vez de desmantelá-la, criou um regime economicamente repressivo e politicamente autoritário para o euro, terrivelmente contraproducente. Para Fritz Scharpf,


"Ao forçar estados-membros que enfrentavam dificuldades a adotar austeridade fiscal e desvalorização interna, reduzindo custos do trabalho, com pressão constante para reduzir sempre mais os custos do trabalho, a política oficial revelou-se "gravemente destituída de legitimidade democrática".


"Em resumo", Anderson conclui,


"a ordem da União Europeia é ordem de uma oligarquia (...) Lamentavelmente, não há democracia que 'recubra' toda a UE, e as reformas adotadas desde a crise de 2008 - união bancária, supervisão fiscal estrita - tornaram a União mais tecnocrática, menos transparente e mais distante dos eleitores europeus".


Mas 'o Projeto' - com todas as falhas que tenha - não trouxe paz à Europa? A verdade, claro, é que depois de 1945, jamais houve qualquer risco de hostilidade entre Alemanha e França, ou qualquer outro país da Europa Ocidental, porque a Guerra Fria transformou toda a região em protetorado norte-americano de segurança.

E, como também é o caso com os EUA (agora completamente à vista, depois de 3 de novembro), a via da União Europeia para 'união cada vez mais íntima' e para a oligarquia criou furúnculos similares de divisão em todo o corpo político Europeu. A luta é econômica, cultural e política. A Europa tem duas economias e estão em processo acelerado de divergência; fazem serviços diferentes, em diferentes indústrias, em diferentes locais, por diferente remuneração: as elites e os totalmente destituídos.

Por um lado, Bruxelas adere firmemente à sua visão marcadamente secular e 'progressista'; e, por outro lado, porção substancial de europeus (e alguns estados-membros), tendem a ethos espiritual e cultural mais tradicional. E, conforme Bruxelas vai-se comprometendo cada vem mais com um "Grande Reset" comandado pela tecnologia, aquelas elites ocupam mundo completamente divorciado da maior parte dos trabalhadores europeus - de fato, duas realidades desconectadas. E com a ira dos europeus crescendo contra os lockdowns - e contra a destruição de pequenos e médios negócios (ao ritmo em que o povo norte-americano vai-se convertendo, de financeiramente apertado, em faminto).

Os EUA podem estar à beira de seu momento de 'racha' - em choque frente à crua revelação de o quanto os EUA converteram-se em nação antidemocrática; e de o quanto 'impenetráveis' tornaram-se suas oligarquias e instituições (em outras palavras, a epifania dos EUA). Internamente, sempre souberam; mas repentinamente, agudamente - como cristal que se quebra e nunca mais poderá ser 'remendado' -a verdade apareceu agora luminosamente à consciência de todos.

As elites europeias fingem que não percebem, repetindo que tudo está próximo de reverter 'à normalidade' com um governo Biden; que todos retomarão o antigo relacionamento com o Partido Democrata.

Mas a Europa jamais teve qualquer relacionamento com os EUA per se - Bruxelas sempre foi o braço europeu do 'Estado Republicano' dos EUA, com o qual vive em intimidade de gêmeos xifópagos - como afirma a análise que Anderson faz do fenômeno de a União Europeia ter 'adquirido' todos os atributos de potência que ninguém ousa desafiar. Mas não há 'normal'; nenhuma civilidade; nada de trabalhar por cima das divisões em Washington, com o qual a Europa possa partilhar 'o retorno', com um governo Harris-Biden.

O grande 'dominó' ruiu: os EUA Republicanos; e o Brexit é uma segunda queda. Alguém talvez acredite que essa epifania norte-americana; essa explosão das fantasias norte-americanas, deixará intacta a Europa? Ou que outros estados não verão o que está acontecendo? Ou que não compreenderão, do que virem, que passou o tempo de submeter as próprias culturas à violência da moral europeia?

Dia 10 de dezembro, Rush Limbaugh animador de conhecido programa conservador de entrevistas políticas, disse: "Realmente penso que estamos tendendo à secessão. Vejo cada vez mais e mais pessoas que perguntam, 'O que, nesse mundo, teríamos em comum com o povo que vive, digamos, em New York?'"

Quanto tempo falta para que europeus comecem a perguntar 'O que, no mundo, teríamos em comum com aqueles tecnocratas que operam em Bruxelas?'*******