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Entrevista com Evo Morales

06.09.2006
 
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O tempo se esgotou velozmente e a entrevista seguiu na viagem do presidente boliviano ao Chapare, a região cocaleira que o viu nascer. Como já é tradição, as conversas com Evo Morales transcorrem com o ruído do helicóptero venezuelano Super Pluma como fundo. A viagem dura uns vinte minutos e a perturbadora beleza da paisagem tropical torna difícil manter a atenção no tema conversação. No Chapare, onde Morales foi várias vezes detido, os mesmos militares o recebem com honras e têm preparado uma equipe de futebol para desafiar o Dream Team presidencial. As crianças gritam “aí chega o Evo” quando entra num restaurante popular para quebrar o jejum com sopa de pescado e, mais tarde, dedica várias horas a escutar a avaliação de seu governo preparada por seus companheiros cocaleiros.

- Você nasceu no ano da Revolução Cubana (1959) e uma vez disse em Havana, após uma reunião com Fidel Castro e Hugo Chávez: “Três presidentes, três gerações e três revoluções”. Que toma seu projeto de mudança da Revolução Cubana?

- Cuba é um exemplo de resistência, de solidariedade, de dignidade, porém nossa revolução democrática e cultural se baseia nos povos indígenas e isso a torna diferente de Cuba ou Venezuela. A revolução boliviana é uma reação ao desprezo, à opressão e à alienação das maiorias nacionais por mais de 500 anos. Nossa gente despertou e passou da resistência à tomada do poder. Estou convencido de que os indígenas são a reserva moral da América Latina.

- Para alguns Cuba é uma ditadura.

- Eu não vejo nenhuma ditadura em Cuba, o que há é solidariedade, reciprocidade, igualdade, e isso é o mais importante.

- Uma revista dizia que, quando se reuniu com o embaixador dos Estados Unidos David Greenlee, você o sentou propositadamente diante do quadro do Che Guevara, feito com folha de coca, que tem em seu gabinete, para que a imprensa registrasse a cena: o embaixador com o Che de coca.

- Está a foto do Che e a minha, feitas com coca, no salão azul do palácio (Quemado). O embaixador sempre se senta à minha direita e, assim, ficou aos pés do Che (ri com picardia e a dúvida persiste).

- Que acontecimentos relevantes se recorda com Fidel Castro?

- No dia 29 de abril de 2005, estava em cuba convalescente de uma operação do joelho. Estava num ato com Chávez e, ao final, me chama Fidel para uma “foto do eixo do mal”. Quando o escuto, me esqueci de pegar as muletas e caminhei assim, os médicos ficaram surpreendidos.

- Pareceu uma espécie de ordem bíblica: “Evo, levanta-te e anda”.

- Sim, é verdade, foi algo assim (ri). Também recordo a emoção de estar em dois Primeiro de Maio na Praça da Revolução, algo inédito no mundo, junto a milhares de cubanos.

- Que características destacaria do presidente cubano?

- Sua solidariedade. Creio que Fidel é o melhor médico do mundo, por como se mobiliza pela saúde, porém também é o melhor pedagogo, por como fomenta a educação e a leitura. Hoje há na Bolívia mais de mil médicos cubanos e estão cooperando com o plano de alfabetização Yo Si, Puedo para erradicar o analfabetismo.

- Como recebeu a notícia de sua crise de saúde?

- Estava na residência com o vice-presidente e alguns ministros quando o embaixador (de Cuba) me avisa e vejo a CNN; foi um grande susto, todos ficaram em silêncio mirando a televisão.

- E que notícias tem agora?

- O que sei é que está se recuperando, são informes animadores.

- Vai visitá-lo?

- Quando comece a receber visitas serei o primeiro a viajar para Havana.

- Conhece Raúl Castro?

- Uma vez nos vimos de passagem, porém nunca conversamos.

- Qual é sua mensagem no 80º aniversário de Fidel?

- Desejo-lhe que não somente cumpra 80 anos, mas sim 90 ou cem, e que siga, com muita força, conduzindo seu país e dando linha política e ideológica revolucionária desde Cuba para todo o mundo.

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