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A fratura brasileira entre o Universo em Expansão e a nova corrida imperialista na América do Sul

06.04.2021
 
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A fratura brasileira entre o Universo em Expansão e a nova corrida imperialista na América do Sul

 

Por Fabio Reis Vianna

 

Em artigo publicado esta semana na revista Foreign Affairs - uma das mais proeminentes porta-vozes do imperialismo estadunidense - , e assinado por, entre outros, Marcus Hicks, ex-comandante do Comando de Operações Especiais dos Estados Unidos na África durante o período 2017-2019, defende-se a idéia de que o aumento da competição entre as grandes potências acende um alerta vermelho de que os Estados Unidos deveriam voltar suas atenções para o continente africano.

 

O principal motivador desta preocupação seria a necessidade urgente de limitar a "influência maligna" dos dois grandes rivais estratégicos do hegemon: Rússia e China.

 

Citando o aumento da presença sino-russa no continente africano, em que a Rússia sozinha já teria estabelecido acordos militares com pelo menos 19 países, e a China, instalado em 2017 sua primeira base militar internacional no Djibout.

 

Cabe ressaltar, que apesar do artigo da Foreign Affairs mencionar que houve um refluxo da presença americana durante a administração de Donald Trump, na realidade, e num olhar de longo prazo, desde 2001 a política externa americana voltou-se mais agressivamente para África, tendo sido esta postura, inclusive, um incentivo para uma maior presença de outros atores do sistema interestatal naquele continente.

 

A presença americana na África, justificada na desculpa do combate ao terrorismo transnacional, foi portanto, o estopim de um aumento da presença de outros atores interestatais, e por conseguinte, da competição imperialista que neste 2021 pandêmico ganha contornos ainda mais dramáticos.

 

Apesar do referido artigo tratar-se especificamente de uma defesa da presença americana na África, ele serve como um aviso de como o establishment daquele país estaria se posicionando frente a um fenômeno que vem se aprofundando consideravelmente nos últimos anos: a nova corrida imperialista.

 

Sendo assim, é de suma importância compreender o papel da América do Sul neste complexo jogo de poder.

 

Levando em consideração que o aumento da pressão competitiva no sistema mundial vem se acelerando de maneira considerável desde o colapso da União Soviética, ganhou contornos imperiais após o 11 de setembro, e descortinou-se como, de fato, num cenário de quase guerra com o advento da pandemia, é possível deduzir que os acontecimentos recentes em determinados pontos da América do Sul a colocam definitivamente como campo de batalha da disputa mais ampla das atuais potências pela hegemonia global.

 

Sintomas deste fenômeno competitivo puderam ser vistos recentemente em insinuações de que os chineses estariam realizando manobras navais em águas argentinas (quando na verdade foram os americanos que de fato fizeram exercícios nas proximidades do litoral brasileiro), bem como na intensificação da crise diplomática entre Venezuela e Guiana.

 

Existem muitos pontos de fratura na América do Sul, e o mais visível e perigoso talvez resida sobre a zona de Esequibo, território guianês de 159 mil quilômetros quadrados jamais reconhecido por Caracas.

 

No inicio de março a Guiana acusou a Venezuela de ter violado seu espaço aéreo com o uso de dois drones Sukhoi SU 30, de origem russa. Prontamente Caracas refutou as acusações como sendo falsas.

 

Repudiado pelo Secretário de Estado para Malvinas, Antártica e Atlântico Sul, Daniel Filmus, mais recentemente, a publicação do novo plano de defesa britânico - ratificando a decisão de manter uma presença militar permanente nas Ilhas Malvinas - trouxe preocupações à Buenos Aires.

 

É nítida a presença de potências estrangeiras em território sul-americano, e à luz do expressivo aumento da pressão competitiva no sistema mundial - que vem ocorrendo gradativamente desde a desproporcional demonstração de poderio bélico americano contra um indefeso Iraque em 1991 -, a teoria do Universo em Expansão confirma-se ano após ano, e de maneira cada vez mais dramática.

 

Contradizendo a idéia de que um sistema unipolar, e portanto liderado e conduzido por um único hegemon, levaria à "paz perpétua" de kant, a teoria do Universo em Expansão sustenta a tese de que o jogo de poder global tende a se reproduzir ad infinitum como um universo em expansão contínua, anárquica e sem direção.

 

Sendo assim, não importa se a disputa é bipolar ou multipolar: quem está no topo do sistema tende a expandir ainda mais seu poder - mesmo que não esteja, necessariamente, sendo desafiado no momento, como é o caso do período logo após o colapso soviético, em que os Estados Unidos reinavam absolutos sobre o resto do mundo.

 

A realidade fática (e cruel) que vem a confirmar a teoria do Universo em Expansão não poderia caber em uma roupa mais apropriada que a do momento presente.

 

Assim como o 11 de setembro serviu como a desculpa perfeita para a expansão do poder global dos Estados Unidos (neste caso específico contra um inimigo imaginário - já que o inimigo de sempre, a Rússia, estava temporariamente fora do jogo), a pandemia da Covid-19 serve hoje como escada para um aumento sem precedentes da pressão competitiva no sistema interestatal.

 

Seguindo este raciocínio, e ao contrário do que os analistas atlanticistas estão a dizer, a crise pandêmica estaria a favorecer apenas um único país: os Estados Unidos da América.

 

Não apenas pelas empresas de tecnologia do Vale do Silício nunca terem lucrado tanto quanto agora, mas o despertar de instintos soberanistas e militaristas proporcionado pelo caos pandêmico, tornou possível a concretização do único consenso fundamental e intocável das atualmente tão divididas elites estadunidenses: a reprodução e expansão permanente e contínua de seu complexo industrial militar. Expansão esta que nada mais seria que a viabilização do chamado Domínio do Espectro Total contido no DOD Joint Vision 2020, publicado no ano 2000.

 

Neste contexto, a América do Sul vem a desempenhar um novo papel no tabuleiro geopolítico global, papel este, que o longo período de zona de paz sob influência anglo-saxã teria amenizado.

 

Com o aumento da pressão competitiva ocasionado pelo evento pandêmico, que em outros termos poderia ser visualizado como uma reação do hegemon à entrada de novos competidores no sistema, veio um aumento ou choque de demanda por recursos energéticos.

 

Neste cenário, poderíamos exemplificar a perspectiva de um crescente expressivo na demanda global por petróleo para os próximos 30 anos, sendo que, somente China e Índia, representariam aproximadamente 50% de toda a demanda.

 

Tendo em vista que a América do Sul hoje pode ser considerada a região detentora das maiores reservas petrolíferas (Venezuela) e de Lítio (Bolívia) do planeta - e sem falarmos da floresta amazônica e das reservas de água doce (Brasil) - , e à luz dessa ordem energética global em formação e disputa, não seria exagero dizer que a nova corrida imperialista entre as grandes potências deste início de século estaria paulatinamente se voltando para a região.

 

Tal situação abre um alerta para um país da região que atualmente vive a maior crise de identidade de toda a sua história: o Brasil.

 

Fraturado internamente desde antes da pandemia, o gigante sul-americano nunca se viu tão pressionado e isolado internacionalmente.

 

O caos sistêmico iniciado na Revolução Colorida de junho de 2013, e que vem se aprofundando ano após ano, até culminar na eleição de Jair Bolsonaro (presidente fantoche emergido do golpe branco orquestrado pelo consórcio entre o Alto Comando das Forças Armadas e o governo americano), finalmente entra em curto circuito total a partir do estouro da pandemia da covid-19.

 

Desde então é visível o descontentamento crescente de setores das elites econômicas locais com a desastrosa gestão da crise sanitária por parte do atual governo regido pela junta militar.

 

Ameaçado por sanções externas de todos os lados, o país que ultrapassou a marca de 300 mil mortes, vive uma fratura interna sem precedentes em sua história.

 

Algo pouco lembrado, mas já em outubro de 2019, os escritores lusófonos Mia Couto e José Eduardo Agualusa, em visita ao Brasil, se disseram impressionados com o clima de animosidade política local, chegando a comparar o gigante sul-americano com países africanos como Moçambique e Angola durante o período pré-guerra civil.

 

Ao mesmo tempo em que policiais militares do Rio de Janeiro organizam marchas vestidos com sugestivas camisas pretas em defesa do presidente Jair Bolsonaro, policiais militares do Estado da Bahia ameaçam instalar o caos com um motim contra o governador local (Rui Costa, do Partido dos Trabalhadores, adversário de Bolsonaro).

 

Em meio à escalada das tensões, a queda de braço entre governo e parlamento se acentua, e em particular no que diz respeito a duas questões de relevância geopolítica: o 5G e a vacina Sputnik V.

 

Mesmo que não fique claro nas matérias veiculadas pela imprensa hegemônica brasileira, é visível que o governo Bolsonaro atua deliberadamente como representante dos interesses dos Estados Unidos no Brasil.

 

As dificuldades criadas para a aprovação da vacina russa Sputnik V, e a ameaça constante de exclusão da gigante de tecnologia chinesa Huawei do grande leilão do 5G no país, refletem o papel atual do Brasil como campo de batalha da grande disputa expansionista do sistema mundial neste início de século.

 

A fratura social, e a divisão cada vez mais profunda no seio das elites locais expõem o risco seríssimo de um país que a qualquer momento pode sair do controle.

 

A notícia de que a Articulação dos Povos indígenas do Brasil (APIB) teria enviado uma carta ao Sr. Joe Biden, e ao seu Secretário Especial Climático John Kerry, solicitando um canal direto de comunicação - e ao largo do governo brasileiro - para tratarem de assuntos ligados à Amazônia, abre um alerta gravíssimo sobre algo que, para os conhecedores da história, não seria novidade.

 

Tendo em conta que a competição geopolítica entre as grandes potências costuma se concentrar em zonas de fratura do sistema mundial, a história nos ensina que sociedades fraturadas - e em Estados enfraquecidos - tendem a se tornar objeto de joguetes divisionistas nas mãos das grandes potências.

              

Com todo respeito a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil - tão maltratados e ameaçados pelo atual governo - , mas o momento pede uma profunda reflexão sobre isso.

Foto: By Hércules Florence (1804-1879) - collection of Russian Academy of Sciences, Russia, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=3522732