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Colômbia pode incendiar o continente

05.03.2008
 
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E como o senhor avalia o posicionamento do Brasil?

A primeira expectativa é de que o país atue com moderação, sem apoiar totalmente Equador e Venezuela, mas defendendo a manutenção do marco jurídico e condenando a violação dos princípios de legalidade e colocando em maus lençóis a diplomacia colombiana. Mas se a situação se complicar e sair do campo diplomático para o militar, quem é a grande potência da região? O Brasil. Estamos preparados para qualquer implicação desse tipo?

Mas há uma possibilidade de haver um conflito?

É claro que há. Qual é o fim da linha da Colômbia? Se o Plano Colômbia é a cópia do plano dos Estados Unidos no Iraque, a rendição, o extermínio do inimigo, do terrorismo, temos que imaginar o dia seguinte dessa vitória sem as Farc. Ficará melhor a Colômbia? Não existe um inimigo público número um, e os problemas sociais todos permanecerão todos iguais. Isso já se repetiu, já se matou o inimigo público e não adianta, porque não se vai à raiz das questões, das desigualdades, da fragmentação interna colombiana em múltiplas regiões, em múltiplos grupos de poder oligárquicos.

A Colômbia não completou inteiramente sua integração nacional. Um dos objetivos da escalada colombiana é a morte da Ingrid. Será um trauma muito severo, se isso acontecer, mas o que se busca é isso. O movimento Nacion Cambam, separatista de Santa Cruz de La Sierra, já treina soldados na selvas colombianas com as Forças Autodefesas Unidas da Colômbia – grupo paramilitar – com patrocínio dos EUA, preparando-se para possíveis episódios que podem ocorrer. Essa visão de tentar liquidar as Farc me parece um erro estratégico e que pode incendiar a América Latina. É um risco que se corre.

Se houvesse um conflito armado, como os países da América Latina podem se posicionar?

O alinhamento está ficando claro: Argentina, Brasil e Venezuela formam um pacto Atlântico que não está se ajustando ao império norte-americano. No campo do Pacífico, há a Colômbia e Peru, que são as duas peças que fazem o jogo dos Estados Unidos. O Chile é um pouco mais neutro, e obviamente a Colômbia aqui se radicaliza e fica contra todo mundo. O Peru também está com uma sociedade muito dividida. Problemas de divisão interna e atritos externos colocam a temperatura das relações muito alta. Agora, aguarda-se que a diplomacia leve ao recuo das tropas que estão nas fronteiras. É perigoso manter as duas em preparação. É a isso que temos que estar atentos nos próximos dias.

Essa crise vai afetar as negociações de libertação dos reféns das Farc?

O objetivo estratégico político da ação foi esse, torpedear o processo de negociação

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