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O Ventura Russo e o Ocaso da Geopolítica do PS

05.02.2021
 
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O Ventura Russo e o Ocaso da Geopolítica do PS

A Juventude Socialista solidarizou-se no serão de 2 de Fevereiro com Alexei Navalny, o mais externamente eficaz e menos votado membro da oposição interna a Vladimir Putin, contudo trata-se apenas do equívoco mais recente da desastrosa normalidade geopolítica do Partido Socialista.

Flávio Gonçalves, Pravda.ru

Admito que passados quatro meses desde a última vez que submeti uma crónica da minha autoria ao Pravda.ru, contava debruçar-me esta semana sobre temas mais profundos acerca da necessidade do Partido Socialista, do Partido Socialista Europeu e inclusivamente da actual encarnação da Internacional Socialista se renovarem à esquerda, regressando não a um passado mitológico revolucionário - realista apenas no caso dos partidos irmãos SPD e Labour - mas meramente ao seu reformismo de outrora, evitando a deriva às mãos de uma ala direita e um aparelho cada vez mais reaccionários.

Admito que as acusações de estalinismo que Sérgio Sousa Pinto dirigiu a Miguel Costa Matos, o novo líder da Juventude Socialista, me encheram de esperança, afinal é sempre bom sinal quando a ala mais à direita do PS acusa qualquer desvio moderadamente esquerdista de "estalinismo" ou "radicalismo", mas quaisquer ilusões que pudesse ter quanto a tal poder afectar o atlantismo militante pró-americano dos PS e JS que é, esse sim, radical, cego e ousaria até afirmar fanático, desvaneceram-se ontem ao ler o seguinte comunicado da Juventude Socialista:

"Saudamos a coragem do ativista anti-corrupção Alexei Navalny, que depois de envenenado, foi detido e agora condenado a mais de dois anos de prisão, após procedimentos judiciais considerados arbitrários pelo Tribunal Europeu de Direitos Humanos.

Aplaudimos, ainda, a bravura dos milhares de ativistas que, inspirados pelos valores democráticos, foram encarcerados por por protestarem nas ruas de cidades por toda a Rússia contra a exclusão arbitrária de candidatos independentes do regime.

Condenamos as violações sistemáticas dos princípios e práticas democráticas por parte do governo russo, apelando mais uma vez à ação diplomática conjunta e coordenada da comunidade internacional no sentido da libertação imediata destes presos e de pressionar Moscovo a tomar reformas para instituir o Estado de Direito democrático."

Tudo leva a crer que a Juventude Socialista, na sua sede de agradar ao amigo americano, em ir ao encontro do sentimento anti-russo da maior parte dos líderes europeus e da geopolítica atlantista pela qual se norteia o Partido Socialista e o respectivo governo, não recorreu a ferramentas tão simples como o Google ou veria que estava a apodar "a coragem" de um activista cujas façanhas mais conhecidas remetem à sua pertença à extrema-direita onde comparava muçulmanos e imigrantes a insectos e apelava ao corte dos apoios sociais às minorias étnicas (soa familiar?), o racismo e a xenofobia de Navalny desde 2012 que têm sido notícia em revistas do 'mainstream' como "Salon", "The Atlantic" e "The Spectator" ou jornais como "The Australian" e até o "The Guardian" (de 2012 até 2017, antes de o começar a apodar de herói) e aparecem logo nos primeiros resultados de qualquer pesquisa atenta.

Por mais que me agradem as políticas do PS a nível interno, não posso deixar de reconhecer que somos um desastre ao nível das relações internacionais e da geopolítica, vamos sempre de arrasto atrás dos americanos a defender o Juan Guaidó (cujo partido pese embora ser aceite na Internacional Socialista é de extrema-direita e com milícia própria que tem levado a cabo imensos atentados à mão armada), a defender o golpe de Estado na Ucrânia (catapultado por milícias neo-nazis treinadas por Israel, como o Batalhão Azov) e agora este amor da JS para com Navalny? O ridículo tem que ter limite!

É um erro extramente grosseiro e grave elogiar os venturismos como bons ou maus dependendo do país onde surgem (ou seja o nosso é mau, mas se for na Venezuela, na Ucrânia ou na Rússia aí os venturismos já são bons). Esperava mais da Juventude Socialista, menos cegueira, mais objectividade e, acima de tudo, mais ideologia e menos impulso emocional refém do que aparece nos cabeçalhos do péssimo trabalho e danos que os jornais e televisões portuguesas têm causado à democracia portuguesa: Navalny é a oposição de extrema-direita a Vladimir Putin, nem mais nem menos, o líder da oposição russa é Gennady Zyuganov, secretário-geral do Partido Comunista da Federação Russa, o segundo mais votado.

Recorde-se que também em Portugal quem mais berra contra a corrupção é André Ventura, e o que mais leio nos perfis pessoais de militantes da JS e até do PS é como este deve ser pesadamente multado pelas afirmações racistas e xenófobas que profere e como o Tribunal Constitucional devia ilegalizar o Chega, mas Alexei Navalny que defende exactamente o mesmo que André Ventura na Rússia já merece a simpatia da JS. Tenham juízo!

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Flávio Gonçalves é cronista, crítico e difusor literário na edição em língua portuguesa do jornal digital Pravda.ru, diretor da revista "Libertária", tradutor, autarca, membro do Conselho Consultivo do Movimento Internacional Lusófono, sócio fundador do Instituto de Altos Estudos em Geopolítica e Ciências Auxiliares, activista do Conselho Português para a Paz e Cooperação e das campanhas internacionais Tirem As Mãos da Venezuela e Hands Off Syria Coalition, é colaborador do Centre for Research on Globalization (Canadá) e do Center for a Stateless Society (EUA), ex-jornalista na revista "Your VIP Partner" e no semanário "O Diabo".

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