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Urbano Rodrigues: Reyes, o herói que o fascismo assassinou

04.03.2008
 
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Mais uma vez a operação foi adiada porque o Exército, nas vésperas da data prevista, mobilizou poderosas forças, concentrando-as nos departamentos do Caquetá, do Meta e do Guaviare, onde as Farc estão bem implantadas, e por onde, presumivelmente, os parlamentares poderiam passar.


Era duplo o objetivo dessa iniciativa


Se houvesse um choque direto, Uribe responsabilizaria as Farc pela morte dos deputados. Simultaneamente, os aviões espias, equipados com uma tecnologia que Washington só proporciona a Israel, estiveram ativíssimos.


Os satélites americanos transmitiram informações valiosas a Bogotá.


Mas as Farc cumpriram, mais uma vez, o que não impediu uma intensificação da campanha pró-libertaçao imediata de Ingrid Bettancourt.


Essa exigência era, nas condições existentes, de impossível concretização. Uma mulher fragilizada, doente, não podia em hipótese alguma caminhar durante dias através de regiões selváticas, onde as tropas colombianas poderiam interceptar o comando por ela responsável.


Renovaram portanto as Farc a sua proposta para desmilitarização de Pradera e Florida, sem a qual o intercâmbio humanitário é inviável.


O herói caído em combate


O comandante Raúl Reyes era, depois de Manuel Marulanda, o membro mais destacado do Secretariado e do Estado-Maior Central das Farc.


Revolucionário desde a juventude – tinha atualmente 60 anos. Travou as primeiras lutas políticas como sindicalista. Elas foram uma iniciação para outras batalhas. Há mais de trinta anos, Luís Edgar Devia embrenhou-se nas montanhas, aderiu às Farc, tornou-se Raúl Reyes.


Conheci-o em Maio de 2001. Recebi um convite para passar algumas semanas no seu acampamento, próximo de San Vicente del Caguán, capital da então Zona Desmilitarizada. Aceitei com prazer.


Personalidade excepcional


Raúl Reyes não impressionava pela aparência física. Baixo, levemente grisalho, tinha um timbre de voz suave. Mas logo na primeira noite, após o jantar, quando conversamos no seu posto de comando – um austero escritório, com uma mesa e duas cadeiras, instalado sob uma tenda oculta pelas altas copas da mata amazónica – percebi que aquele guerrilheiro frágil era uma personalidade excepcional. Falamos do mundo em crise antes de me oferecer livros e documentação como prólogo indispensável à abordagem da luta das Farc.


Era o responsável pelas conversações de paz que transcorriam naquelas semanas no vilarejo de Los Pozos, com os representantes do governo do presidente Andrés Pastrana.
Corriam então os tempos em que Pastrana saudava Manuel Marulanda com abraços de Judas, dias em que vi embaixadores de países da União Européia a disputar as palavras e o sorriso do legendário Tirofijo, comandante supremo das Farc.


Longas madrugadas de conversa


Viajei com Reyes para La Macarena, onde as Farc libertaram unilateralmente 304 soldados e policiais, prisioneiros de guerra, e tive o privilégio de manter com ele, nas madrugadas mornas da floresta, longos diálogos sobre a sua organização revolucionária, a América Latina e a estratégia do imperialismo estadounidense, o grande inimigo da humanidade. E também sobre a vida.


Escrevi no próprio acampamento artigos para o Avante! (semanário do Partido Comunista Português) sobre os combatentes das Farc e uma entrevista também publicada pelo órgão do PCP.


A atmosfera tinha algo de irreal, porque os próprios textos eram transmitidos pela secretária de Raúl para um destinatário que depois os encaminhava ao jornal. A internet, paradoxalmente, podia funcionar como instrumento a serviço de uma guerrilha revolucionária.


Para honra e proveito meu, Raúl Reyes manteve o contato comigo. Com frequência eu recebia mensagens suas, por intermédio de comandantes amigos, por vezes agradecendo artigos que publicara sobre a luta das Farc.


Recordo que pouco antes do sequestro no Equador do comandante Simón Trinidad – depois entregue por Uribe aos EUA – ele sugeriu que eu voltasse à selva colombiana. O projeto foi então a pique porque a fronteira equatoriana se tornara muito insegura.


A voz das Farc


Até o seu último dia, Reyes foi a voz das Farc no diálogo destas com o mundo. Mas o comandante guerrilheiro, incumbido de incontáveis tarefas, encontrava ainda tempo para escrever artigos, alguns sobre complexas questões ideológicas, para a revista Resistência, órgão internacional das Farc, e para dar entrevistas a jornais da Europa, da América Latina, dos EUA. Nelas o saber e a firmeza do comunista de têmpera tinham como complemento harmonioso a cultura do intelectual humanista.


Uribe festeja agora a morte do combatente que, nas palavras de homenagem de Jaime Caicedo, o secretário-geral do Partido Comunista Colômbiano, foi um revolucionário exemplar que «entregou a vida pela causa em que acreditava».


O triunfalismo do presidente neofascista da Colômbia que financiou o paramilitarismo quando governador de Antioquia e tem o seu nome na lista dos narcotraficantes elaborada pela Drug Enforcement Agency dos EUA, mas é hoje o melhor aliado de Bush no Continente não tem o poder de fazer historia.

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