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O sistema financeiro, o primeiro ditador global – 2

03.12.2020
 
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O sistema financeiro, o primeiro ditador global - 2

Na primeira parte desta análise o crédito total dirigido ao sector não financeiro é acompanhado de uma abordagem sobre uma das suas parcelas, o sector publico. Nesta segunda parte, iremos considerar outras duas restantes parcelas desse sector não financeiro - as famílias (incluindo entidades não lucrativas) e as empresas não financeiras. Também e, como anteriormente, tendo em consideração que todas as grandezas são medidas em termos de percentagem do PIB para cada ano.

Segue-se um esquema do enquadramento dos vários sectores de atividade económica com os dados divulgados pelo Bank of International Settlements (BIS)

Total -  sector não financeiro

 

    Sector público

Famílias e empresas sem fins lucrativos

      Empresas

 
 
 
 

Privados  não financeiros    

 

  

No capitalismo de hoje é preciso promover uma acrescida disponibilidade de capital, uma vez que a atividade económica nunca gera o rendimento suficiente que satisfaça a acumulação sentida como necessária; daí a pulsão do crescimento económico que não existia antes de Keynes. Nesse contexto, procura-se aumentar o capital "investido", sem limitações quantitativas, especulando, obtendo favores do Estado, obtendo crédito junto do mercado financeiro (bancos, bolsa, especulação) ou, fazendo a guerra se necessário.

De modo idêntico, é incutida em quantos vivem de rendimentos do trabalho uma pressão para o consumo, em grande parte de bens ou serviços inúteis ou perniciosos, a despeito da precariedade desses rendimentos. E, a satisfação dessa pressão obriga ao recurso do crédito, mormente de muito longo prazo, junto do sistema financeiro.

A própria gestão pública não escapa a essa pulsão, pois cada gang no poder precisa de manter a ordem e a obediência, domesticando polícias, militares e funcionários civis; como precisa de mostrar obra para ganhar as próximas eleições e agradar aos empresários que financiam a corrupção própria de governos e classes políticas, em geral.

A saída para esse dilema comum, é o recurso ao endividamento, algo que se tornou obsessivo e cuja solução é apresentada pelo capital financeiro que se coloca à parte da chamada economia "real"; sendo esta, a dos capitalistas tradicionais, produtores de bens e serviços não financeiros, a dos aparelhos de Estado, encarregados da redistribuição conveniente para a punção fiscal; e ainda, a das pessoas comuns, das famílias, dos hilotas, cuja mansidão é essencial para a continuidade do sistema capitalista e dos regimes políticos de "democracia" de mercado, com diferentes graus de músculo.

  

  

4 - Crédito total dirigido a famílias e empresas não lucrativas ao serviço das famílias (% do PIB)

Há, no primeiro gráfico abaixo inserido, diversos tipos de evolução do crédito concedido ou, se se preferir, do grau de endividamento das famílias, nos últimos 25 anos, para os países escolhidos.

É bem clara a existência de dois períodos. O primeiro, que termina cerca de 2009, de grande expansão do peso do endividamento das famílias no PIB; e o segundo, até ao momento presente, no qual se observa uma estabilização do peso do endividamento.

Para o conjunto dos países do euro estes créditos crescem até 2009, recuando depois até aos dias de hoje, abandonando, claramente o elevado pendor ascendente verificado até à crise de meados da década. Na Grã-Bretanha, bem como nos países ibéricos, o endividamento das famílias é muito acentuado, com um grande crescimento até ao desembocar da crise financeira decaindo daí em diante, excepto na Grã-Bretanha que mantém estável o peso da dívida das famílias nos últimos anos.

Portugal, Espanha e Grécia apresentam grandes crescimentos do crédito às famílias e, que duplicam, sensivelmente em cerca de dez anos, com a Grécia, num patamar mais baixo; a euforia nos países ibéricos tem um ponto máximo em 2009, decaindo até ao momento presente para valores de peso no PIB próximos dos registados vinte anos antes. No caso da Grécia o ponto máximo é atingido em 2013 mas a queda não é tão brusca como em Portugal ou Espanha. Assim, excluindo a Grã-Bretanha, há a registar uma aproximação do grau de endividamento familiar nos últimos, entre os países do euro, para indicadores próximos do conjunto.

A França mostra uma grande regularidade no crescimento do endividamento das famílias e a Itália evidencia os níveis mais baixos de endividamento familiar, comparativamente ao PIB e, num plano estável em torno dos 40% do PIB, desde 2008.

A Alemanha mostra uma clara dissemelhança face aos outros países considerados. O peso das dívidas familiares alemãs - o mais alto na viragem do século - evolui até atingir o coeficiente mais baixo, entre os países considerados, exceptuando a Itália; uma evolução muito regular, com pendor decrescente.

 

Sinteticamente, é nítida a redução, através do tempo, das diferenças entre o grau de endividamento das famílias para os países do euro, se se excluir a Itália.

Quando se procede a uma abordagem da situação para grandes agregados de países - zona euro e G20, por um lado e os dois colossos mundiais - China e EUA, por outro - observa-se (ver gráfico abaixo) uma grande similitude entre os dois primeiros agregados, com indicadores próximos dos 60% do PIB desde 2006.

Quanto aos EUA, o endividamento familiar tinha uma dimensão equiparada ao valor do PIB no período 2007/2009, no auge da crise financeira conhecida como a dos subprimes. O que se verificou no período posterior é o reflexo, em negativo, da euforia de assunção de dívida por famílias com recursos limitados mas aliciadas para acréscimos de dívida, tendo como contrapartida a alta valorização das suas casas. Como o imobiliário perdeu valor, ao contrário do endividamento, a execução das hipotecas conduziu a milhões de pessoas sem cobertura sanitária (no tempo da bestial incúria de Trump como gestor político da pandemia) e sem tecto, a dormir nas ruas e debaixo das pontes. O American Dream parece estar a rebatizar-se de American Nightmare, perante o sorriso de Xi que estará convencido da possibilidade de um capitalismo sem ressaca, protegido por uma nova Grande Muralha; esta, porém, não impediu a entrada dos mongóis e muito menos a pilhagem e as violências levadas a cabo pelos bárbaros (designação oficialmente dada aos europeus).

Quanto à China, o peso no PIB do endividamento das famílias sextuplica em catorze anos (2006-2020) o que é algo de extraordinário. Se bem que se trate de um país com 1300 M de pessoas (duas vezes e meia a população da UE) cabe perguntar se uma economia capitalista pode manter essa ascensão mesmo que no âmbito de um poder político tentacular e intratável; ou, se o poder exportador do país, mesmo que dependente de energia e de investimentos um pouco por toda a parte, se poderá manter; que alterações surgirão da cooptação económica na área do Pacífico Ocidental (entre outras áreas de penetração), com a Parceria Económica Abrangente Regional. O recuo estratégico dos EUA na criação da Parceria Trans-Pacífica que visava, precisamente, deixar a China de fora, deve ser considerado um brinde para a China. Em contrapartida, os EUA reforçaram o potencial militar na Formosa...   

 

 

 

Ler na integra e no original

http://grazia-tanta.blogspot.com/2020/11/o-sistema-financeiro-o-primeiro-ditador.html