Pravda.ru

Desporto

Daniel Enriquez – Gerente Esportivo Do Club Nacional De Football De Montevidéu

25.06.2010
 
Pages: 123456

ENRIQUEZ: Quase com certeza haveria mas nós muito distante da cabeça de hoje e tendo como objetivo sermos Campeões, ficamos de olhona nossa própria tarefa, não dava para dar atenção nos rivais, éramos muito amadores, vestindo a camisa com orgulho, o mundo não era tão globalizado com agora, não dispondo da informação que a gente recebe agora. Quem sabe, a gente teve o Zico na outra metade do gramado e não sabíamos. Maradona foi um caso diferente pois ele era a vedete do Sul-Americano, o caçulo do evento, com apenas 15 anos já era famoso. Quanto aos brasileiros, até poderíamos ter jogado perante onze que logo forem famosos mas para nós eram onze brasileiros e acabou. Não conhecíamos nada do agir deles e fora isso ninguém trouxe informações para nós. Na atualidade, mergulhamos na net e qualquer um poderia ter informações dos rivais. Nessa geração só tínhamos certeza absoluta que pulando em campo íamos ter onze rivais na frente, o Brasil, a Argentina, o Chile, o Paraguai, a Rússia, jogamos e acabou.

P: Tua carreira profissional? Um treinador marcante? O melhor zagueiro-parceiro? Hugo De León?

ENRIQUEZ: Treinadores marcantes na minha vida profissional foram dois. O primeiro, Dom Raúl Bentancor. Raúl era um treinador duro. Juro que não sei qual era sua idade na hora de chefiar essa geração 1977 na seleção mas parecia um idoso e até poderia ser um quarentão. Sua disciplina, seu jeito de ser sério, foi marcante para mim no meu agir quanto tinha a ver com a disciplina e no meu dia-a-dia fora do gramado. Ele salientou sempre que era muito importante tem uma aparência ótima, o jeito de vestir formal, se por acaso alguém tivesse os cabelos compridos, acabava sugerindo que fosse no cabeleireiro. Além de ser uma pessoa dura, tinha jeito paternal, acabava sendo o teu pai, recebendo o respeito de todos nós. O outro treinador que me marcou mesmo, de jeito específico na parte táctica, foi o Juan Martín Mujica, (conquistou um pênalti no México 1970) que no Uruguai criou o sistema de marcação individual no gramado inteiro em 1980 tendo voltado da França ainda como jogador e conquistado com o Nacional 1971 a Taça Libertadores de América perante o Estudiantes da cidade de La Plata e do Mundo perante o Panathinakos da Grécia. Então, logo ter jogado na França voltou como treinador do Nacional em 1980 e conquistamos esses dois canecos. No meu caso fiquei sempre tomando conta centroavante tendo apreendido um bocado do assunto com o Juan. Tudo quanto o Raúl foi para mim fora do gramado quanto tem a ver com disciplina, o Juan foi dentro pois acabei sabendo quanto é importante a valia de uma equipa de futebol, com onze respeitando um esquema de jogo e onze concentrados tendo como objetivo vencer e aplicar a táctica que o treinador pede. Isso acabou entrando na minha cabeça pela tarefa do Juan e foi tão bom assim o ensino dele que acabamos arvorando o caneco de campeões do mundo em 1981.

Mergulhando na segunda pergunta, acho que meu par ideal no gramado foi o Juan Carlos «Cacho» Blanco, mais velho do que eu, o líbero dessa turma campeã de 1980 tendo integrado também a geração campeã de 1971. Foi o meu professor ensinando como aprimorar o estilo do carrinho indo na procura da bola nos pés do adversário, temporizando, melhorando a marcação, conseguindo enfiar o corpo de forma correta na hora de marcar. Eu era rápido e forte, o Cacho também era forte, sendo que eu mais novo do que ele saia na «caça» do rival fora da grande área e ele ficava sobrando. Sem dúvida, foi meu professor nessa profissão de zagueiro, bem mais com a experiência ganha na Espanha no decorrer de alguns anos.

Quanto ao Hugo, Hugo De León, foi companheiro na 4ª Divisão do Nacional e também dessa seleção júnior na Venezuela, tendo vindo da cidade de Rivera, na divisa com Santana do Livramento no Brasil. Foi um dos jogadores do interior que foram parte dessa pré-seleção uruguaia de 1977. Os zagueiros titulares éramos José Luis «Pete» Russo e eu, e o Hugo foi reserva. No Nacional, sempre nesse esquema, eu titular e Hugo no plantão até que eu acabei lesado entrando o Hugo como titular e daí para frente deu início essa carreira futebolística ímpar. Foi assim mesmo, infelizmente para mim (tirou sorriso mais uma vez).

P: Que tipo de lesão sofreu?

ENRIQUEZ: Foi num jogo perante o Danubio no Estádio Centenario. Tentei fazer um lance de longa distancia para o ponta esquerda Julio César «Cascarilha» Morales, olhei para ele, eu ia subindo pela faixa direita do campo, tentei fazer cruzamento, eu era ótimo nesse negócio dos cruzamentos enxutos, um jogador rival travou o meu joelho e foi um lesão importante nessa data pois agora em quinze dias a medicina poderia resolver mas antes foram três meses a reabilitação. Nesses três meses o De León «abusou da situação» e ficou com a minha vaga de titular na zaga do Nacional. Saiba que do Hugo, são boas lembranças. Foi um zagueiro vindo do interior, e todos aqueles que chegam na capital estão em desvantagem quanto ao dia-a-dia. Os que moramos em Montevidéu, temos mais experiência, mais jogos na mochila, temos vantagem mas ele foi muito inteligente e soube absorver num abrir e fechar de olhos o que Montevidéu era, se adaptando rápido ao futebol profissional, e fora isso um grandíssimo profissional. Resumindo acho que foi isso que o fez alcançar quase todos os objetivos desejados no futebol. Acho que soube como tirar partido dos instantes além de ser líder, negócio que ninguém apreende, isso faz parte dele. Ainda hoje é um dos destaques do Nacional.

P: Reconheço que Hugo tem todas essas condiçõesvocê não chegou na Gerência Esportiva do clube só por acaso, não è?

Pages: 123456