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Quo Vadis, Portugal?

16.11.2007
 
Pages: 12


Sintomas, mas não causas, são os casos de nepotismo (familiares e amigos em lugares de destaque, às vezes no dia a seguir a tomada de posse de um ministro), de abuso (há quem compre cinco carros de luxo, por exemplo, enquanto pedem paciência e contenção ao povo) e de injustiça (quando as leis são feitas para safar aqueles amiguinhos que são apanhados com as calças na mão, não para proteger o cidadão comum, em cuja cabeça cai o sistema todo se cometer uma única infracção).


O mal é um: falta de ambição causada por uma irresponsabilidade politica pelos dirigentes (que curiosamente nunca são eleitos - passou-se de uma ditadura de um regime das 100 famílias para uma ditadura dos que se sentam na Assembleia Nacional e o resultado é o que se vê) e por um sistema ineficaz, basicamente porque a intrusão politica chega a níveis demasiado profundos.

Malta já ultrapassou Portugal

Há trinta anos, Portugal se situava por cima da Irlanda na mesma tabela (custo de vida/PIB). Hoje, Irlanda figura em segundo lugar e Portugal não só conseguiu ser ultrapassado por todos os países membros da Europa dos 15, como também por 5 dos 12 recém chegados (Eslovénia, Chipre, República Checa, Malta e Estónia). Malta, por cima de Portugal.

Plano Nacional de Desenvolvimento

Por quê? Todos estes países, como a Irlanda, não têm muitos recursos minerais, são de pequena dimensão, têm populações pequenas. Mas têm algo que Portugal nunca teve. Chama-se um plano nacional de desenvolvimento. Na Irlanda, por exemplo, os sectores público e privado sentem-se regularmente à mesa para traçar planos e estabelecer objectivos reais, não sonhos em papel, e avaliam de forma constante o progresso com indicadores objectivos. E os projectos ficam vacinados contra influências políticas, enquanto em Portugal, quantos dossiers vão para o shredder quando muda o partido?

Em Portugal, quem assume a responsabilidade quando as coisas correm mal? Ninguém. O coitado da vítima é tratado como bola de pingue-pongue, como palhaço, até que desista de qualquer eventual reclamação.

Em Portugal, será que todos estão geneticamente dispostos ou capazes de sentarem à mesa com quem quer que fosse para debater planos nacionais? Ou será mais provável observar o fenómeno “não vou sentar com aquele tipo na mesma mesa”? A divisão entre os Mouros, geneticamente transportado para Portugal. Ainda no século XXI.

Com falta de plano nacional e com influência política a níveis chocantes, é natural que Portugal estagnou-se e limita-se a ver os navios passar. Depois é natural que não consiga produzir riqueza para pagar salários decentes (nem se consegue imaginar a ginástica que a família normal tem de fazer para colocar comida na mesa, quanto mais o resto) e daí, resulta uma força de trabalho desmotivada e derrotada.

Sem um plano nacional, não há movimentação, nem progresso. Os sistemas continuam na mesma, dificultando iniciativas, o imposto sobre as empresas continua a ser pesado e inflexível e daí, quem tem duas ideias foge do país, como de Portugal sempre fugiu quem pudesse, até Durão Barroso. Portugal nunca soube aproveitar-se dos dons únicos que tem, nunca soube capturar o espírito do seu povo, espírito que lhe deu e garantiu a Independência como Nação e a historiografia sublinha as minhas palavras: por exemplo, no século XVIII, quando a produção de ouro estava no ponto mais alto, foi precisamente no mesmo período que as receitas do Fisco estavam em baixa.

Escorregaram fortunas pelas mãos dos portugueses naquela altura, tal como aconteceu durante a década depois de Portugal aderir à Comunidade Europeia. Não se pode dizer que isso aconteceu porque Portugal não estava preparado para entrar na CE, que não tinha condições para entrar na Eurozona ou que não tem capacidade para chegar à Taxa de Convergência, por serem desculpas.

Há que reagir e nem tudo está mal. Num inquérito feito pela PRAVDA.Ru a 100 universitários que fizeram o programa Erasmus, 94% compararam eles próprios favoravelmente aos outros universitários de outros países da União. Por isso parece que apesar de tudo, o sistema de educação sobreviveu várias tentativas de o arruinar. Além disso, Portugal conseguiu atrair 31 novos projectos de investimento em 2006, criando cerca de 10 mil postos de trabalho e o crescimento de 2% no PIB é para celebrar, criando um clima de optimismo que se espera transitar para o comportamento da economia.

Porém, sem um plano, sem mobilidade, sem dinâmica, Portugal continuará a ter salários totalmente desfasados dos preços de necessidades básicas e por isso não vai ter uma força de trabalho empenhada e activa. Continuará a grassar o ambiente de laissez-faire ou fazer o mínimo possível porque o patrão não está na loja.

Se vai continuar assim, seria melhor entregar o país ao Joe Berardo (aquele bilionário que caiu de pára-quedas de repente e aparece nas fotografias com os braços estendidos, em posição de crucifixo; não se sabe se tenta imitar o Senhor ou se é na qualificação de crucificado) até que Portugal chegue à 27ª posição dos 27 membros da U.E. e então poder-se-á aplicar a regra de noves fora, nada.

Timothy BANCROFT-HINCHEY

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