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Trastes e contrastes

28.11.2020
 
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Trastes e contrastes

 

Adilson Roberto Gonçalves

 

'Trastes e contrastes' seria um excelente epíteto para os artigos de opinião e editoriais que trataram de ex-presidentes, governador e possíveis candidatos que apoiaram o golpe contra Dilma Rousseff e clamam pela defesa da Constituição (Michel Temer) e se despertam somente agora para a crise política em curso (Fernando Henrique Cardoso). Outro traste e indigna do sobrenome, a traidora Marta Suplicy tem a cara de pau de falar de outro mal - o desgoverno Bolsonaro - para esconder a falácia de seu suposto arrependimento em ter contribuído para o golpe contra Dilma Rousseff, início da tragédia que se abate sobre o Brasil. Foi preterida na candidatura da direita para a prefeitura de São Paulo e está sem palanque e espaço, além do que alguns jornais têm-lhe dado e a pose de papagaio de pirata na campanha de Bruno Covas. Deve estar usando sua formação psicológica para uma autoanálise, uma vez que os termos que usa - pulsão de morte - podem ser aplicados também a sua conduta política.

 

Amenizar o direitista Luciano Huck como opção do centro é falsear a realidade, como vem sendo feito por parte significativa dessa mídia, da mesma forma como Bolsonaro foi apresentado como "nova política", estando há mais de duas décadas usando do Parlamento para pavimentar sua vida e a de seus filhos. A direita conservadora se decepciona com o atual ocupante do Planalto apenas pela fanfarronice, pois trabalharia da mesma forma para a subtração de direitos, venda do patrimônio público e impedimento da mobilidade social. Querem caras novas, apenas isso, e Huck representa tal sordidez.

 

O governador João Dória externou sua leviandade ao afirmar em entrevista que não possui compromissos com o presidente que ajudou a eleger e por quem foi ajudado em sua conquista do Palácio dos Bandeirantes. Mas esse descaso já lhe é peculiar. Em melhor estilo tucano, abandonou a Prefeitura de São Paulo em 2018 pensando apenas em sua carreira política e, em face da sua alta rejeição na capital, é escondido na campanha de Bruno Covas. Por mais altivo que tenha sido João Dória na condução da crise do coronavírus, não há como esquecer que ele foi eleito na onda do voto BolsoDória e que representa a direita retrógrada paulista. Sua posição frente à vacina Coronavac poderia ser diferente, caso fosse o mandatário da nação e os interesses políticos pessoais falassem mais altos. O papel de bom moço não cola mais. Afirmar agora ser contrário à reeleição ou é mais uma das promessas e compromissos a serem quebrados ou a justificativa para ser candidato ao Planalto.

 

O ogro que ocupa o Palácio do Planalto intensifica o diversionismo como prática de governo, uma vez que perde seu amigo imaginário, Donald Trump. Chega a ameaçar a maior potência nuclear do planeta com a pólvora de um desprestigiado Exército e alimentar mais mentiras sobre as vacinas contra a Covid-19 em estudo. Ri da morte alheia, talvez como consolo por não ter destruído Guandu nem matado FHC. É ingênuo, pois, crer que uma declaração das Forças Armadas não concordando com os desvarios presidenciais mude o viés político que assumiram neste desgoverno que aí está. Os editoriais dos jornalões quase clamam por um pedido de desculpas aos militares pelas sujeiras de Jair Bolsonaro. A conivência também é crime contra a população, como aprendemos na prática no julgamento de Nuremberg.

 

Assim, protestamos e agimos contra o desgoverno pelos instrumentos que possuímos, mesmo antes da eleição, porque sabíamos que não eram duas candidaturas iguais, como a maioria dos representantes dos órgãos de imprensa defendiam. Mas não podemos esquecer os outros 512 deputados federais, além de Rodrigo Maia, que em momento nenhum acionaram os órgãos da Câmara para obrigar seu presidente a colocar as dezenas de processos de impeachment em votação ou ao menos julgar sua má conduta. Todos são coniventes, não apenas o Centrão.

 

 

Adilson Roberto Gonçalves, pesquisador da Unesp, membro do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas, da Academia Campineira de Letras e Artes e da Academia de Letras de Lorena.