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Brasil: um ser maldoso sabe como enfrentar a pandemia

25.08.2020
 
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Brasil: um ser maldoso sabe como enfrentar a pandemia

  

Iraci del Nero da Costa *

  

Confesso aos meus leitores que em horrendo pesadelo fui abordado por uma figura fictícia absolutamente imoral e desprezível a qual, voltada contra a humanidade e, em particular, contra a população brasileira, expôs-me suas ideias sobre a presença do coronavírus entre nós. Como não aceito nenhuma das afirmações detestáveis e condenáveis de tal espectro relato abaixo as declarações feitas por tal fantasmagórica e irreal aparição. Disse ela:

"Nossos conselhos são bem simples e diretos.

Caso venhamos a ser atacados por um novo vírus derruidor e contra o qual não disponhamos de uma vacina ou remédios que possam atenuar seus efeitos devastadores devemos acolhê-lo com sabedoria.

Como sempre, a economia jamais poderá ser atingida. Destarte, impõe-se a continuidade da atividade produtiva e a luta contra qualquer forma - sempre deletéria - de isolamento social.

A doença causada pelo vírus matará pessoas? Ótimo! Como dispomos de grande massa de desempregados sempre teremos como repor o pessoal que se for. Ademais, o número das pessoas sem emprego diminuirá e todos sentirão como fomos corretos ao advogar a intocabilidade de nossas atividades econômicas.

Como a doença afetará largamente os mais idosos, menores serão os gastos com a aposentadoria, outra benesse que será aplaudida por nossos eleitores e economistas, pois menores serão os gastos com os que nada fazem e mais recursos sobrarão para novos investimentos ou para atendermos um maior número dos que nada possuem, elementos da mais alta significância para garantir nossa continuada permanência no poder.

Com respeito aos doentes recomendaremos um algo qualquer por nós apresentado como santo remédio. Daí derivam dois ganhos: primeiramente sempre poderemos afirmar que tivemos uma sadia e sábia preocupação com relação à cura; já em segundo lugar não interromperemos a atuação do benéfico vírus em sua tarefa de matar o maior número de indivíduos, atuando como forte aliado nosso na ininterrupta ação de rebaixarmos o número de desempregados.

Como se verifica, seja qual for a perspectiva considerada, nossa postura sempre será favorável ao aumento da produção, à luta contra a falta de oportunidades de se encontrar emprego, pelas assistência aos menos favorecidos e, sobretudo, estaremos a trabalhar de modo certeiro para garantir nossas sucessivas reeleições.

Resta demonstrado, independentemente de qualquer reparo, que, acatando o realismo, certamente chegaremos ao nosso desiderato maior: o de estabelecermos, para todo o sempre, nosso almejado reinado."

  

* Professor Livre-docente aposentado.

  

Foto: https://en.wikipedia.org/wiki/File:Guantanamo_captive%27s_hospital_beds_-c.jpg

 


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