Pravda.ru

CPLP » Brasil

Somos uma ponte cultural e de amizade

21.11.2006
 
Pages: 123

Mas retornando a Santana Lopes, para ter um “nós” tem de ter um “ele” e ele neste momento é aquele “ele”. Tem enormes qualidades, é amigo do seu amigo e isso eu respeito imenso, é inteligente e não é por acaso que se posicionou para ser, e foi, Primeiro-ministro. Fez muito mais na vida dele do que eu, por exemplo. Na PRAVDA.Ru não andamos a dizer mal deste ou daquele, se não são notícias, e neste momento cabe ao Pedro Santana Lopes e seu partido seguir como entenderem. Trata-se numa democracia de processos em que as pessoas têm de saber escolher. Se o PSD o quiser como líder outra vez no futuro e se ele for a votos, cabe aos portugueses decidirem se ele foi tratado injustamente ou não quando lhe passaram a batata quente há dois anos atrás. Eu como estrangeiro nem sequer tenho o voto aqui, por isso minha opinião política não é colocada em questão.

No entanto, o facto de todos estarem a falar de Santana Lopes e não outras questões bem mais preocupantes, é sintoma da doença que facilita os que praticam políticas hostis ao povo.

JGS: Acha que o povo português está num momento difícil?

TBH: Não acho, tenho a certeza. Há aqui pessoas que recebem pensões de miséria, numa altura em que os preços subiram em flecha devido à adopção do Euro. Há aqui casos de pessoas a esperarem semanas ou meses até para receberem o subsídio de desemprego. Há uma coisa chamada o ser humano e em muitos casos, a governação tem esquecido isso e tem praticado políticas de laboratório que fazem sentido a quem nunca teve de cavar a terra para comer e cuja realidade é removida da do povo que representa e nisso falo não de partido A, B ou C mas o sistema parlamentar actual não só em Portugal mas na Europa em geral.

JGS: Como descreveria o momento actual em termos mundiais?

TBH: Acho que estamos a assistir o ponto do retorno do equilíbrio e da normalidade depois de termos iniciado um novo milénio da pior forma possível. Quem imaginaria que iríamos iniciar o terceiro milénio com um ataque monstruoso contra civis e duas guerras sangrentas?

O 9/11 deu aval às piores políticas neo-imperialistas dos Estados Unidos da América e seu clique de lacaios, os lambe-botas que esperam por migalhas atiradas pelo Pentágono e outras instituições e corporações elitistas que gravitam a volta da Casa Branca. Porém isso não quer dizer que não foi um acto horrível, monstruoso e muitos dirigentes árabes, incluindo Saddam Hussein, condenaram-no.

Mas lançar ataques terroristas com equipamento militar contra infra-estruturas civis, bombardeando redes de fornecimento de água, de electricidade, hospitais, hotéis, casas particulares, escolas constitui também actos de terrorismo. São crimes de guerra.

No entanto, vemos o embrulho em que os EUA e seus lacaios se enfiaram e não é bonito. Não devemos tirar prazer disso porque quem sofre são pessoas e as lágrimas sabem a sal, seja de quem forem derramadas. Quantas famílias iraquianas, quantas famílias norte-americanas e afegãs choraram pelos seus queridos? Por isso eu não tiro um momento de prazer em ver o Washington até às ancas na lama, a receber tiros de todos os lados e incapaz de sair do poço que cavou.

No entanto vemos agora o ponto final do imperialismo e acho que nem haverá um único elemento no Pentágono que daria o aval a qualquer outro ataque contra qualquer outro estado soberano enquanto eu for vivo, e espero viver muitos anos. O indivíduo agora tem poderes contra o estado e um não-estado agora tem a possibilidade de enfrentar e desafiar o estado, que não foi o caso há duas décadas atrás. Por isso o imperialismo fracassou.

Virando para outros continentes, vemos uma América Latina a assumir claramente seu próprio destino fora das algemas de Washington, vemos uma Cuba a lutar heroicamente contra um bloqueio injusto mas a sobreviver e a marcar sua presença no palco mundial como grande contribuidor para causas humanitárias com uma panóplia de acções sociais a volta do globo, projectos sustentáveis. Por isso Fidel Castro pode olhar para trás e ficar satisfeito, pois aquilo pelo qual lutou está em pé.

Vemos o continente africano em todas as agendas das grandes cimeiras mundiais, do G8, e recentemente nos Fóruns de Parceria em Moscovo e Beijing. Vemos o continente africano a identificar e resolver seus problemas, ajudado em muito pelo projecto de Muammar Gaddafy, da Líbia, que luta há décadas contra o imperialismo e em prol de liberdade e que teve recentemente o siso de saber que hoje em dia não se pode empregar sistemas de armamento contra ninguém e vencer. Por isso concentra-se na política e o resultado é a União Africana, criação dele e de grande número de visionários africanos, que através de transparência e boa governação, constituem os mecanismos para atrair investimento, implementado através da NEPAD.

O que é preciso é programas de apoio sem exigências políticas, que não passam de uma forma de neo-colonialismo.

Vemos a Ásia a crescer de forma galopante, vemos muito bom trabalho contra exclusão digital e muitos projectos a favor de inclusão a nível mundial.

JGS: E em termos políticos?

TBH: Em termos políticos vemos que o modelo monetarista do capitalismo simplesmente não funciona porque o que conseguiu desde os anos 50 foi retirar gradual e constantemente quaisquer benefícios que o Estado de Previdência criou. Hoje em dia, quem pode afirmar que tem um serviço nacional de saúde excelente e gratuito? Sei dum caso recente aqui em Lisboa em que uma rapariga em coma profunda depois de sofrer um aneurisma iria ser retirada do hospital porque precisavam da cama e a família estaria responsável pelo tratamento dela. Onde? No meio da rua? A rapariga fez questão de morrer antes de ser despejada como um balde de lixo. Sei de outro caso bem mais perto de mim: em Londres, uma enfermeira perguntou ao meu pai três semanas antes dele morrer de cancro se ele sabia quanto custava ao Sistema Nacional de Saúde os cuidados dele.

Pages: 123

Fotos popular