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Leitura endêmica

21.08.2020
 
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Leitura endêmica

 

Adilson Roberto Gonçalves

 

Poderíamos estar contagiados pela leitura, mas, infelizmente, o título não corresponde a esse desejo. O governo vive e faz morrer baseado em mentiras, não apenas na atual crise do coronavírus. Não é por menos que o dia máximo do criminoso júbilo militar de 1964, comemorado por presidente e vice, seja também o Dia da Mentira. Estamos longe de uma pandemia 'da' verdade, que nos levaria a um nível de entendimento das coisas e do mundo um pouco melhor e menos mortal.

Aqui vão algumas palavras sobre a leitura a partir dos livros infantis, o cronista de outrora e a necessidade de escrever, mesmo que sejam cartas para jornais e revistas.

O fenômeno Harry Potter é análogo ao Monteiro Lobato de minha geração. Apesar de nem sempre ser feita uma discussão sobre a questão do racismo nas obras de Monteiro Lobato, os depoimentos de escritores modernos ressaltam a importância de sua obra infantil para a formação de gerações de leitores, colocando o Dia Nacional do Livro Infantil em 18 de abril, dia de seu nascimento. Não se pode medir o passado com a régua do presente, de qualquer forma. A iniciação à leitura pela temática da fantasia não levará necessariamente o leitor mirim para temas mais robustos. O importante é ler.

A doce análise literária pode ser encontrada nas seções de opinião dos jornais, não apenas nas de cultura. No começo do ano, voltou à discussão a falta de republicanismo nas ações da bancada evangélica no Congresso Nacional brasileiro, que abre mão do silêncio ao defender seu livro sagrado, quando a leitura da Bíblia já estaria contemplada na legislação de outrora. É interessante analisar a questão religiosa e seus livros sob a ótica do 'pan-ateísmo', que é característico das religiões que aceitam apenas um deus. A necessidade da leitura completa de um livro é urgente para realmente entendê-lo, como foi evidenciado ao colocar Machado de Assis e Euclydes da Cunha como comunistas, dizendo somente sobre a ignorância dos que montaram a lista de Rondônia no início do ano, ainda antes da pandemia, e nada sobre esses clássicos autores.

A leitura, portanto, tem seu caminho pelos jornais. Os cronistas que estudamos usaram desse instrumento em seus primórdios de atividade e somente depois fazem aparecer seus livros em volume - ou tomo. Um desses representantes é Lima Barreto. É triste a perspectiva para novos e pretensos escritores, mas há que se corrigir uma informação corrente sobre Lima Barreto. Sua atuação nos jornais e revistas se deu como cronista, portanto. Foi funcionário do ministério da Guerra até quatro anos antes de falecer. Depois dos mecenas das artes e antes das leis de incentivo, o emprego público era a forma encontrada para a subsistência de muitos escritores. E para completar a importância desses instrumentos de leitura, em tempos de ode à ignorância, lembremos do Dia do Bibliotecário, aquele que nos conduz pelos meandros da organização dos ainda existentes e não queimados livros. Homenagem ao nascimento de Bastos Tigre em 12 de março, outro que conviveu com Lima Barreto.

A Biblioteca Nacional também deu sua contribuição para esses tempos de confinamento, tentando retirar um pouco do terraplanismo olavista de seu atual diretor. No entanto, há muito material digitalizado que não foi colocado para consulta, como a revista Fon-Fon de 1907, muitas vezes requisitado por e-mail, sem resposta.

Faço um parêntese para falar sobre as cartas que nos leitores escrevemos aos jornais. No caso específico da Folha de S. Paulo, em seu aniversário de cinco anos atrás, escrevi sobre o futuro do jornal impresso, a importância da discussão do próprio jornalismo e as expectativas dos novos governos. Creio que em seu centenário a Folha deva fazer uma reportagem especial sobre nossa contribuição para a discussão dos temas relevantes tratados pelo jornal. Somos missivistas contumazes cujo único prêmio é ver o comentário publicado, mas também somos um termômetro do que pensa o leitor. Perguntei se aceitam o desafio. Não responderam.

Por fim, com a morte de Aldir Blanc, ocorrida em maio, temos menos cultura e mais tristeza. Resta apenas uma singela homenagem. Seu falecimento é fato emblemático, não apenas por ser o autor de um hino contra a ditadura no Brasil, mas também por ter sido médico psiquiatra. De frente pro crime antidemocrático de hoje, resta-nos o silêncio.

 

Adilson Roberto Gonçalves, pesquisador da Unesp

 


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