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Latinidade

17.06.2009
 
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Costuma-se afirmar a existência de línguas neo-latinas, contudo, não é inadmissível a teoria de que tais línguas seriam anteriores à conquista romana. As línguas neo-latinas, então, seriam apenas línguas latinizadas. Isto é, teriam sido formalizadas pela gramática do império. Na época da conquista da América, a normalização daquelas línguas pela gramática latina é um fato irreversível. Contudo, na opinião de Ricardo Rojas: quando a civilização espanhola começou a ser transferida para o Novo Mundo, não estava constituída nem a unidade racial nem a consciência idiomática da metrópole.

A história da América Latina teve início no dia do desembarque dos navegantes europeus nas ilhas Bahamas, mais precisamente na rebatizada de San Salvador, atual Watling Island, à qual os nativos chamavam de Guanahani. A ocupação inicia-se pela palavra. “Assimilar” a cultura dos povos conquistados sempre foi uma prática sutil de dominação. Alterando-se os significados dos símbolos originais, torna-se possível implantar uma nova ideologia. Consumada esta primeira usurpação, foi fácil para os novos senhores impor outra escala de valores e assumir pelas armas os destinos das populações autóctones.

Os ibéricos chegam ao continente com a aura de Cultura Superior (hierarquia atribuída por eles mesmos) pois têm a herança da civilização romana acrescida da verdade “incontestável” de possuir o Deus verdadeiro. A identificação com Roma, duas vezes sacramentada, produz o “esquecimento” das diferenças raciais. Lusos, galegos, catalães, vascos, italianos em geral, são agrupados sob o rótulo latinos, ad majorem dei gloriam, presumivelmente. O curioso, se não cômico, é que o insigne genovês, que segundo a lenda perambulou pela Europa tentando o patrocínio sem ser levado a sério, somente foi reconhecido como Gênio da Raça, arquétipo de uma era, ao se perceber que chegara ao continente errado. Nessa altura, os aborígines já haviam sido denominados índios, pela única “razão” de que o Grande Almirante acreditou até a morte haver aportado na Índia.

A política colonial torna necessário a “purificação” do continente. As mais de duas mil línguas faladas na América antes da chegada dos europeus, são silenciadas pelo cristianismo. Por algum tempo circulará a expressão Ibero-América, mais tarde quase desaparece. Consagrado pelo uso nada casual, o latino impõe sua prosápia à terra mestiçada; e seus habitantes são meio brancos, pelo menos lingüisticamente. Os grandes manipuladores da história (políticos, militares, cronistas) operam o milagre da transformação racial segundo a etnia dos dominadores. O tempo, ajudado por estes taumaturgos, apaga aos poucos o termo americano que ainda identificava as populações falantes das línguas ibéricas nestas plagas. Hoje, o conceito latino, apesar de difuso, define etnia(s), comportamento e características psicológicas.

Também o nome do continente foi deturpado. Paul Herrmann, depois de noticiar a descoberta de Vespuccio (Temos seguido estas costas por um trecho de 600 milhas, e se estendem tão longe que ninguém pode prever seu término; sou do parecer que não se trata de uma ilha, mas de uma vastíssima terra firme(1)), detém-se a considerar a origem do seu prenome. Com suspeitosa naturalidade comenta: a extravagância dos Vespucci manifestou-se de modo ingênuo, por exemplo nos nomes de batismo dado aos descendentes varões. O pai de Amerigo se chamou Anastásio(2), nome extinto ou pelo menos raríssimo desde há séculos na Europa Central. O filho recebe o de Almerigo, italianização do germânico Almerico, também fora de uso desde tempo imemorial. O tom casual da referência sugere aquiescência unânime quanto ao nome, ou pelo menos à divulgação do fato, que torna desnecessário outros testemunhos. O pressuposto permite que encerre o assunto no parágrafo seguinte afirmando: E nada tem de ilógico que o geógrafo alemão Waldseemüller proponha aos cientistas de sua época se dê à nova terra do Ocidente o nome de batismo de Vespucci: América, isto é, a terra de Amerigo.

Uslar-Pietri, por sua vez, comenta o fato da seguinte forma: Martin Waldseemüller necessitava um nome para acompanhar o da Europa, da Ásia, da África, e como quem o havia revelado a Europa era Amérigo, pensou que podia chamar a esse continente com o nome desse personagem. Considerou denominá-lo Amérigen, mas achou que os nomes dos continentes eram femininos e se decidiu por América. [...] Assim, Amérigo veio a ter, sem sabê-lo, o dom supremo dos deuses, o de dar vida e destino através da palavra que nomeia.

Inútil citar outros textos que divulguem tal versão, esta é a verdade oficial. Há, entretanto, autores que a põem em dúvida, se não a refutam categoricamente.

Ricardo Palma cita as Cartas de Índias, documento publicado em Madri em 1877. Diz ele:

Trata-se de provar que a voz América é exclusivamente americana e não um derivado do prenome do piloto maior de Índias Albérico Vespuccio. [...] América, ou Americ é nome de lugar na Nicarágua e designa uma cadeia de montanhas na província de Chontales. A terminação ic (ica, ique, ico, quando castelhanizada) encontra-se freqüentemente nos nomes de lugares nas línguas e dialetos indígenas da América Central e das Antilhas. Parece que significa grande, elevado, proeminente, e se aplica aos cimos montanhosos não vulcânicos.

[...] Quando em 1522 publicou-se na Basiléia a primeira carta marítima com o nome de América província, Colombo e os seus principais companheiros já haviam morrido.

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