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Economia tem a ver com felicidade

16.11.2009
 
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Embora o dinheiro não compre felicidade, é um pré-requisito para isso. Assim como o trabalho é o pré-requisito para o dinheiro. Em geral, os economistas querem que todos sejam felizes, e não apenas ricos. Até mesmo porque os economistas caracterizam o comportamento das pessoas quando fazem escolhas com base na maximização da utilidade esperada (espera-se escolher a opção que proporciona a maior utilidade média).

Para entramos nessa discussão, convém, antes, lembrarmos que a economia é construída em cima da estrutura da utilidade, como bem aponta Diane Coyle na obra acima citada.

Utilidade (utilitarismo) para os economistas só faz sentido se pensada em forma de benefício, de bem-estar. A base da Teoria do Consumidor passa pelo conceito de utilitarismo. Esse, por sua vez, pode ser definido como o bem que se identifica com o útil.

Os utilitaristas – Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-1873) - são claros a esse respeito: “a felicidade está na aquisição daquilo que nos é útil”.

O útil, grosso modo, leva à satisfação, leva ao prazer, leva ao bem-estar. Esse é, em essência, o objetivo do economista: proporcionar oportunidades e escolhas disponíveis a todos no dia a dia, auxiliando o maior número de pessoas na busca de algo fundamental: o bem-estar.

Bem-estar, então, se liga de forma íntima à felicidade. Pelo menos é o que diz a ciência econômica quando recomenda a seus fiéis consumidores que maximizem a utilidade esperada, ou seja, que no ato de tomada de decisões (e não somente no ato de consumir) cada indivíduo alcance o maior nível possível de utilidade.

Conquanto, nem sempre essa utilidade está relacionada apenas ao ato de consumir, para desespero da lógica mercadológica. Posso perfeitamente obter utilidade (felicidade) ao encontrar alguém, ao falar com alguém, ao pensar em algo prazeroso, ao ler um poema agradável, ao respirar um ar puro, ao contemplar uma obra de arte ou um monumento público. Estou assim consumindo algo? Sem dúvida; no entanto, não estou colocando a mão no bolso para isso. Para desespero do capitalismo, reiteramos, nem sempre um consumo vem seguido de gastos. Portanto, as portas da felicidade podem não ser aquelas que nos levam ao comércio/mercado.

Resultados sociais

Se a economia é uma ciência social, nada mais justo que seus resultados apresentem um significado social – e não apenas econômico, como quer a lógica econômico-consumista-mercadológica.

No entanto, esse lado social imerso nessa lógica econômica tem ficado à margem das decisões que priorizam, apenas, e tão somente, o lado econômico. O lado social sempre foi – e continua a ser – relegado a quinto plano.

Pelo lado econômico, o que tem validade são os ganhos financeiros, não os prazeres-utilitários que não envolvem somas de dinheiro. O que interessa, para o lado econômico, é o predomínio econômico-financeiro, não a abrangência social. Essa é a razão da existência de algumas discrepâncias que, em nosso entendimento, beiram a patologia.

O Human Development Report 1998 (p.37) atestava que “o mundo tem recursos mais do que suficientes para acelerar o desenvolvimento humano para todos e para erradicar as piores formas de pobreza do planeta”. Para tanto, a fim de universalizarem-se os serviços sociais básicos bastaria US$ 40 bilhões. Isso significa míseros 0,1% da renda mundial. Isso seria, portanto, o lado social sendo aflorado. Mas não é o que interessa aos grandes grupos que detém e dominam a cena econômica. Passados mais de dez anos do referido Relatório, nada mudou. A lógica econômica continua com a mesma recomendação: vender, vender, vender e, de preferência, excluir o lado social nessa vendas.

Nessa linha de análise as distorções continuam grotescas. Para assegurar educação básica para todos precisaríamos de US$ 6 bilhões, mas não se consegue esse valor. No entanto, os gastos em cosméticos apenas nos EUA são de US$ 8 bilhões ao ano, em média. Para assegurar água e saneamento para todos seriam necessários US$ 9 bilhões. Mas, não há “recursos” para isso. Preferem-se gastar US$ 11 bilhões em sorvetes na Europa. Saúde e nutrição básica para todos exigem cifras de US$ 13 bilhões suplementares por ano. Mas não há “dinheiro” para isso. Como o que predomina é a lógica do consumo sem sentido, a Europa e os EUA juntos gastam, ao ano, US$ 17 bilhões em ração para animais de estimação. Fora isso, apenas no Japão, os executivos se divertem em entretenimentos que “alimentam os desejos da carne” torrando por ano US$ 35 bilhões. Na Europa se gasta US$ 50 bilhões em cigarros e em bebidas alcoólicas todos os anos (em média) e o mundo literalmente “queima” US$ 400 bilhões em narcóticos.

Definitivamente, “o mundo não é uma mercadoria” como nos ensina o professor Henrique Rattner e, “nem tudo está à venda” (everything for sale) como alerta Robert Kuttner, para outra situação de desespero do sistema capitalista.

Logo, a felicidade, nesse sentido, não pode (e nem deve) repousar suavemente sobre o “nobre” ato do consumo exagerado que exige, por conseqüência, elevados dispêndios. Lembremos: o consumo consome o consumidor!

Há algo muito mais interessante que leva à felicidade, ainda que a publicidade, principalmente a televisiva, nos bombardeie diariamente recomendando o consumo a qualquer custo. E a economia, para os desavisados de plantão, tem tudo a ver com isso.

Basta atentarmos para o seguinte: onde a economia estará no futuro depende daquilo que milhões de nós faremos nesse meio tempo até lá. Cabe a nós decidirmos o futuro. O futuro nos pertence e a felicidade, certamente, há de nos esperar na próxima esquina abraçada à maximização da utilidade esperada.
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(*) Economista, mestre pela USP e professor universitário. Especialista em Política Internacional pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP).

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