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Brasil: Um espectro tomou conta da academia

03.12.2007
 
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- É indiscutível que a Capes é um modelo de sucesso no Brasil, ela induziu a produção, com base em um sistema de avaliação econométrico, oriundo da contabilidade. É um sistema de tamanho sucesso que o Chile, o Peru estão copiando, ou seja, é um modelo que pode ser exportado. O seu sucesso está relacionado à sua origem, principalmente quando se conseguiu acoplar avaliação e financiamento.

Países mais avançados não contam com um sistema centralizado como o nosso. Realizei duas palestras em Portugal sobre o sistema de avaliação da pós-graduação brasileira e os pesquisadores portugueses ficaram admirados a respeito da centralização do nosso sistema de avaliação. Em Portugal, cada universidade tem autonomia para abrir ou fechar cursos. Aqui, não, temos que pedir licença, ser acompanhados e prestar contas, pois caso contrário não contaremos com financiamentos.

Da junção desses dois elementos, financiamento e avaliação, deu-se a morte do conceito de avaliação. A avaliação pelos pares é outro fator que ajuda a explicar o sucesso do modelo Capes de avaliação da pós-graduação. Paralelamente, tivemos avanços (foram muitos os pontos favoráveis), como por exemplo, ao deixar de "perder" dinheiro público investido em alguém que não termina o curso. As novas tecnologias, igualmente, diminuíram os deslocamentos, principalmente pela disponibilidade de bancos de dados, favorecendo a redução do tempo de conclusão dos cursos. Tudo isso é realmente um sucesso, mas, por outro lado, há um problema seriíssimo, relacionado a um olhar homogêneo, a uma forma homogênea de avaliação, para áreas completamente heterogêneas. Há uma diversidade nas áreas que não é levada em conta.

- Nessa diversidade de áreas que não é levada em conta, como fica a pesquisa na área das ciências humanas?


- Caso não sejam criadas políticas públicas que garantam a igualdade de condições entre as áreas de conhecimento, o ideal republicano morrerá. Se não houver um cuidado dos organismos públicos para garantir que todas as áreas tenham um equânime aporte de recursos financeiros, vai predominar a perspectiva neodarwiniana. Os mais fortes, os produtivos, vão gritar mais alto, com seus produtos, resultados imediatos e terão mais facilidade para obter financiamento.

Vivemos uma lógica que alguns autores chamam de capitalismo acadêmico. A lei da selva, do mais forte, se instala. E ela migra para as ciências humanas. Por esse viés, quem precisa da filosofia, das ciências sociais?

- O governo se utilizada da necessidade de ampliação do ensino superior e da inclusão de mais brasileiros na universidade para legitimar medidas que só precarizam ainda mais a profissão docente e a qualidade do ensino. Quais as conseqüências disso?


- Resumidamente, diria que se houver inclusão social não precisará ser discutida a inclusão digital, por exemplo, porque uma está inserida na outra. Algo similar ocorre com a inclusão no ensino superior. Porém, enquanto predominar a lógica capitalista, a perspectiva será piramidal, ou seja, sempre teremos muitas pessoas sem acesso aos serviços mais básicos, como educação e saúde e menos pessoas com acesso.

A idéia de inclusão fortifica o discurso do governo enquanto a exclusão está na ordem do dia. O que acontece é que, ao invés de mudar a materialidade, o governo muda o discurso sobre a necessidade de ampliar o acesso ao ensino superior, ao proporcionar um ensino de qualidade questionável para formar indivíduos sob medida para as necessidades do mercado de trabalho. Poderíamos dizer que está sendo promovida uma "inclusão excludente", conforme tese da professora Acácia Kuenzer em artigo inserido no livro Capitalismo, Trabalho e Educação, publicado pela Editora Autores Associados.

1. Em um primeiro momento, a empresa encomenda à universidade os profissionais que ela precisa. Num segundo momento, a empresa cria o departamento de recursos humanos, onde começa a dar cursos de auto-ajuda, formar cursos pontuais. Num terceiro momento, cria escolas dentro do ambiente empresarial, para formar pessoas de acordo com suas necessidades. E o último estágio é o da educação ou universidade coorporativa, em que a empresa decide criar sua própria universidade.

Fonte: ANDES-SN

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