Pravda.ru

CPLP » Brasil

Brasil: Um espectro tomou conta da academia

03.12.2007
 
Pages: 123


- Paulo Rizzo [durante a conferência "Produtivismo acadêmico, produção do conhecimento e alienação do trabalho docente"] chamava atenção para um fato muito importante: essa não é uma manifestação brasileira, é globalizada. Poderíamos até fazer uma brincadeira, dizer que ao invés dos operários do mundo terem se unido, foram os capitalistas que se uniram e, de certa forma, conseguiram orquestrar uma espécie de música de uma nota só. Então, desde os EUA até os países mais atrasados, você consegue perceber os sinais "civilizatórios" do capital e pela primeira vez na história temos uma espécie de caminhar junto entre o que ocorre no mundo empresarial e o que ocorre no mundo educacional.

Durante muito tempo, quando predominou o paradigma taylorista- fordista, empresa e escola tinham ritmos diferentes. Um período em que formamos especialistas e assim atendíamos ao mercado. Mas estávamos sempre ´defasados´. Quando a universidade se tornou competente – no sentido do que falávamos durante a conferência, ou seja, competitiva – para formar especialistas, o mercado diz: "não os quero mais, agora preciso de generalistas".

Aí, temos as quatro fases que você vai encontrar no livro Educação Coorporativa (organizado por mim e Elisa Maria Quartiero), cuja última fase é a educação corporativa, ou seja, uma educação sob medida para os interesses da empresa (1). Então, voltando à sua pergunta, esse enraizamento tem origem na "pedagogização" da empresa e na "empresarialização" da pedagogia, conforme enfatiza o professor José Alberto Correia da Universidade do Porto. É um jogo aparentemente contraditório que está posto. A pedagogia é colocada a serviço da empresa, e a empresa se torna aquilo que o Peter Senge, no livro A quinta disciplina, divulga como espaço qualificante, portanto, segundo esta perspectiva, a "empresa é uma escola".

Eu diria que, com as tecnologias disponíveis hoje, todo espaço-tempo é um espaço-tempo de aprendizagem. Isso parece uma grande vantagem, no entanto, temos que refletir sobre que tipo de valores éticos e morais estão permeando essa educação. Parece que se a escola não bater o pé, a universidade não bater o pé para aquilo que é a sua especificidade, vão ser engolidas. Talvez, assim, perca-se, com a empresarialização da pedagogia, um dos poucos espaços em que se discute o respeito à natureza, à vida, os valores éticos e morais.



- Que espaço essa universidade corporativa já ocupa no Brasil?


- Para mim, o fato mais significativo foi quando, pela primeira vez, há menos de dois anos, a Caixa Econômica Federal construiu uma sede fixa para sua educação coorporativa. Até aquele momento, alugavam-se salas em universidades, em espaços públicos, para cursos pontuais.

Agora, não, as empresas começam a ter seus próprios edifícios destinados à educação, ou seja, não é mais somente uma idéia. Antes, nos perguntávamos por que a empresa tinha a ousadia de chamar um centro de treinamento de universidade. A resposta que tínhamos era que o título indicava uma preocupação com educação. Era uma questão assim, meio idealista, meio metafísica, que não tinha materialidade. Quando a Caixa construiu o edifício, e passou a ter um lugar físico, com pessoas trabalhando nas mais diversas áreas, tudo passou para outro patamar. Não é mais algo que fica no nível da linguagem, do discurso, é algo material. E passam a chamar de professor uma figura que não passa de um instrutor.

- Quais os piores aspectos da universidade corporativa para a carreira docente?


- O maior atentado da universidade corporativa em relação à universidade acadêmica, ao professor, é difundir os conceitos de educação e instrução/treinamento como sinônimos. Temos que pensar na escola como uma instituição que leve em conta a tridimensionalidade do tempo. Ela tem que buscar no passado o patrimônio cultural da humanidade, que é um acúmulo de tudo que foi produzido; isso tem que repercutir aqui, no presente.

Ao mesmo tempo, tem que se preocupar com o futuro. Isso é o que a universidade acadêmica e a escola têm que fazer, cuidar dessa especificidade. Na universidade corporativa, há uma espécie de prisão, de um "presentismo" eterno, mesmo que essa expressão soe contraditória. Tudo se justifica, se explica, se torna necessário e valorizado porque tem uma aplicação imediata. Então, eu acho que o maior atentado é colocar como equivalentes instituições que têm atribuições diferentes, porque da escola e da universidade se espera uma formação humanitária, uma formação universal, capaz de ajudar a pessoa a compreender-se e a compreender o espaço e o tempo em que ela vive. Enquanto a universidade acadêmica tem a perspectiva de abrir-se, incluir, a universidade corporativa se fecha nos interesses da empresa.

- Qual sua opinião sobre a avaliação da Capes?

Pages: 123