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A proliferação da condescendência

03.07.2020
 
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A proliferação da condescendência

 

 

Quando cercar o inimigo, deixe uma saída para ele, caso contrário, ele lutará até a morte.

Sun Tzu, a Arte da Guerra.

 

 

Se existisse algum "êxito" para o paranoico, este aconteceria quando todos confiassem nas imagens de sua mente. Com tal característica, o presidente Jair Bolsonaro, de tanto falar e sentir as minucias arrebanha uma parte da população e extenua a outra.

 

Os efeitos desse delírio se consolidam no virtual e no real. E assim, a Internet abre espaço à falácia compulsiva, aos robôs do Twitter que devoram apesar de serem decifrados. Como disse John Gray, em Cachorros de Palha, o ser humano reproduz sua moralidade nas tecnologias. Tal qual um grande recipiente, o mundo virtual se tornou uma espécie de inconsciente digital. Lá estão os sonhos, discórdias, esquizofrenias, mal e bem, informação e desinformação.

 

Se as atitudes são reflexos dos conteúdos armazenados na mente, a Internet é um grande inconsciente digital que revela o próprio homem. São tempos em que a análise superficial tem mais espaço, uma característica que nos conduz ao pensamento de Sennet ao afirmar que "a angústia do tempo leva as pessoas a deslizar na superfície em vez de mergulhar".

 

E é nessa superfície que as informações enganosas são encontradas. Nas redes sociais, por exemplo, estão as mais diversas espécies de agressões, muito típicas dos admiradores da intervenção militar. Desse vale mais sombrio são incitados ataques aos meios de comunicação, ameaças aos ministros do STF, ironias aos milhares de mortos pela COVID-19 e invasões a hospitais. Sim, esse lado primitivo está sempre à espreita, alucinado pelo desejo de entrar em cena e por indicar a forma mais desprezível de reação; quanto maior a vulgaridade, mais facilmente os tolos são incentivados  ao absurdo.   É dessa maneira que o presente entra em decomposição quando se prestigia o passado ditatorial.

 

Esses alucinados que enamoram a ditatura militar por terem sepultado sua liberdade e agora desejam velar a si mesmos, e outros que, por não terem vivido nessa época, são manipulados a habitar uma miragem. 

 

Mas, 'Ainda há tempo', tal qual reverbera a consciência humana na música do cantor Criolo: As pessoas não são más/ Elas só estão perdidas/Ainda há tempo. Entretanto, prefiro direcionar a semântica do tempo para os aduladores, já que para o governo o tempo exauriu.  

 

Quem não se recorda das palavras do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, na conhecida reunião ministerial? "(...) enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só se fala em COVID, e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas (...)".  Não tão distante dessa sinuosidade, a ministra Damares Alves falava em "prender governadores e prefeitos".  É preciso estar atento, pois existe algo além das conversas gravadas naquela ocasião, há uma corrosão silenciosa que percorre a sociedade brasileira.

 

Essa corrosão está, entre tantos, situada nas formas de gestão do sistema educacional, na tentativa de controlar os órgãos de fomento científico e universidades, na investida em deteriorar a arte e a cultura, na supressão de direitos dos povos indígenas, nas precárias relações internacionais e trabalhistas.  

 

Se, para a insanidade a ética é insana, por subserviência, a condescendência prolifera. Despertem! Democracia: nenhum passo para trás!.

  

Renato Dias Baptista é doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professor associado da Universidade Estadual Paulista, UNESP.

Foto: By 663highland - Own work, CC BY 2.5, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=4876792

 


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