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Qual criminoso cassar primeiro?

02.03.2021
 
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Qual criminoso cassar primeiro?

 

 

Adilson Roberto Gonçalves

 

 

Seria muito vergonhoso para a Assembleia Legislativa de São Paulo se o deputado Fernando Cury não for sumariamente cassado pela importunação sexual que praticou contra a deputada Isa Penna. As firulas que a defesa monta, incluindo que o vídeo não mostraria aquilo que é explícito, apenas corroboram que, para alguns, o Parlamento seria terra de ninguém. Que tenham a devida coragem de honrar nossos votos e não dourem a pílula com afastamento ou punição leve ao criminoso. Os deputados têm a oportunidade de extirpar o mal e não serem contaminados por ele.

Porém, olhando para a esfera superior do poder, os exemplos não são melhores. A prisão do deputado federal Daniel Silveira pelo STF, mantida pela Câmara dos Deputados, pode dar uma ilusão de bons ventos soprados. Primeiramente, é repetir que nunca houve nova política, mas, sim a politicagem tradicional representada por Bolsonaro e seus asseclas. O maior desafio desse deputado bolsonarista será apenas o de ser boi de piranha, tanto para os que querem um país melhor sem a necropolítica oficial, como para os ainda seguidores deste desgoverno que já estão denunciando censura e outros quejandos. Liberdade de expressão não se coaduna com a prática da destruição da democracia, representada pelo nefasto personagem Tunéscio, um codinome para um dos frequentadores deste espaço de leitores. O Congresso Nacional também teria a oportunidade de resgatar um pouco da sua imagem, espinafrando o criminoso de seu mandato. As articulações apontam em outra direção, uma pena branda, tal qual àquela para o deputado estadual. Por isso não adianta Artur Lira falar que o Brasil superou o 'negacionismo' parlamentar. O Presidente da Câmara dos Deputados faz apenas um jogo de palavras para esconder o primordial: se projetos e propostas não prosperaram no Parlamento em dois anos foi porque pouco foi encaminhado pelo desgoverno de Bolsonaro, do qual agora é sócio majoritário como representante do nocivo e corrosivo Centrão. E o negacionismo científico foi, sim, e continua sendo uma política deletéria aos verdadeiros interesses do povo que são sua saúde e sobrevivência.

Além dos exemplos estadual e federal no Parlamento, situações não faltam para a cassação do mandatário mor. Exemplifiquemos com as crises sanitárias e educacionais.

Com a tragédia ocultada pela pandemia, é evidente a contribuição do governo federal para a falta de controle e ações efetivas de combate à pandemia do coronavírus. Infelizmente, a velocidade de propagação da cepa P.1 é maior do que a da vacinação realizada, mostrando que, em breve, teremos de pensar em uma segunda vacina, como acontece com a influenza. Seremos vencidos pelo tempo e pela inépcia de Jair Bolsonaro e seus asseclas. O exemplo vem de cima e há prefeitos que se declaram bolsonaristas para não tomar medidas de fechamento do comércio e restrição do número de pessoas nas ruas exclusivamente para atender ao nefasto superior, capitão da morte. E são aplaudidos e apoiados em carreatas, feito o já mencionado personagem Tunéscio.

Parte significativa desse mesmo Parlamento segue os ditames de desmonte do Estado brasileiro ao propor a estapafúrdia desvinculação dos já parcos investimentos em saúde e educação. Não se sabe se por aceno ao desgovernante ou se por desconhecimento ou ainda por pura má-fé, fato é que a proposta do senador Márcio Bittar pelo menos causou espécie entre seus pares e deve ser sumariamente refutada. Não obstante, a ideia está ali semeada, tal qual a de incluir igrejas no Fundeb, que somente foi reprovada após intensa mobilização da sociedade. Os parlamentares estão deixando de ser representantes do povo para seguir uma nefasta agenda de um presidente que fez sumir R$100 bilhões da Petrobras com um arroto intervencionista, ainda que uma parte tenha sido recuperada.

 

 

Adilson Roberto Gonçalves, pesquisador da Unesp, membro da Academia Campineira de Letras e Artes, Academia de Letras de Lorena e Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas

Foto: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Ant%C3%B4nio_Parreiras_-_Funda%C3%A7%C3%A3o_de_S%C3%A3o_Paulo,_1913.jpg

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