Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

De marítimo a metalúrgico, a mesma luta: mudar o mundo

Rosângela Ribeiro Gil *

Há pouco tempo, numa breve contenda com jovens jornalistas, um deles fez troça de uma situação e me disse que assim era a vida. Tristes os dias se esvaziarmos a vida e torná-la apenas um “sarro”, apenas uma disputa (insana) de quem sobrevive ou se sai melhor desta vida.

E por que me lembro dessa historieta? Porque para mim a vida só faz sentido com gente de verdade, com gente humana, com gente com coração no lugar do coração, com gente que muito já andou, viu e passou nesta vida mas mantém a humildade majestosa dos que estão sempre aprendendo (e porque aprendem, ensinam também). Prefiro os insanos que sonham e lutam por um mundo diferente, aos loucos-estressados moldados pelo mercado dos nossos dias.

O leitor e a leitora da coluna Debate Sindical terão o prazer, digo isso de coração e alma, de ler a história de uma das pessoas mais lindas e humanas que conheço. Um ser humano que acorda alegre e vai dormir alegre, com certeza, que o diga a nossa Claudia Santiago, por acaso sua esposa, amiga e grande companheira. Não existe tempo feio para o Vitão, como os amigos o chamamos carinhosamente. Não existe trabalho difícil, que dirá impossível, para Vito Giannotti. Existe a exploração que precisa acabar; existe a miséria que precisa acabar, existe a injustiça que precisa acabar; existe a violência que precisa acabar; existe o capitalismo que precisa acabar.

Vito Giannotti é um italiano que adotou o Brasil (sorte nossa!). Está aqui para mais de 35 anos. Vive no Rio de Janeiro. É escritor. É o coordenador do Núcleo Piratininga de Comunicação ( NPC ). É professor (de todos nós).

Debate Sindical - Qual é a sua formação profissional; sua origem? Quando veio para o Brasil, onde trabalhou? Hoje, o que faz?

Vito Giannotti - Eu abandonei uma faculdade de filosofia para andar pelo mundo tentando mudá-lo. Logo encontrei o socialismo como perspectiva de transformação e de vida. A revolução como objetivo único de vida. Passei por vários países antes de chegar ao Brasil. Me apaixonei logo por este país e, junto com muitos outros, na década de 1960, passei a lutar para acabar com a ditadura (militar de 1964) e construir um país socialista. Por isso fui trabalhar como marítimo, primeiro, e anos depois como metalúrgico. Para me tornar um profissional respeitado fiz muitos cursos do Senai e acabei sendo torneiro ferramenteiro.Trabalhei em muita fábrica de São Paulo. Lá organizamos grupos de trabalhadores, fizemos greves, fomos presos. Enfim, demos muito trabalho à ditadura e aos patrões. Faria tudo novamente, exatamente igual. Hoje, continuo a mesma empreitada. Natural, o objetivo da minha vida não foi alcançado e, então, o jeito é continuar lutando contra a exploração e a opressão da maioria da população e avançar na construção de uma sociedade socialista.

Debate Sindical - Você se tornou um estudioso dos passos da classe trabalhadora do Brasil e mesmo do mundo, mas você também já fez a história dos trabalhadores. Conte para a gente um pouco do Movimento de Oposição dos Metalúrgicos de São Paulo, como foi a sua formação, suas principais bandeiras, a repressão e onde está o pessoal que fez tão importante movimento?

Vito Giannotti - Eu me tornei um escritor de um bocado de livros e livretos, não por opção. Foi como o sapo. Ele “não pula por boniteza, mas por precisão”. Eu comecei a escrever um primeiro livreto (na época clandestino) sobre a história das lutas dos trabalhadores no Brasil, em 1970. Foi por pura exigência da luta nas fábricas onde atuávamos. Precisávamos ter algum material para nossas reuniões e cursinhos de formação com os companheiros. Aí, eu e um grande companheiro, Elias Stein, que era metalúrgico, mas tinha saído da USP para fazer revolução como eu, fomos destacados para escrever. E assim começou.

Nós militávamos como Oposição Sindical Metalúrgica no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Éramos contra os pelegos interventores nomeados e vendidos à ditadura militar. Mas, sobretudo lutávamos para criar um sindicalismo politizado, com claro posicionamento de classe e organizado a partir da base. Tínhamos fortes críticas ao sindicalismo de antes do Golpe de 64. Era um sindicalismo que se iludia de estar com tudo, mas tinha os pés de barro. Fazia uma grande confusão ideológica, não tinha uma clara definição de classe e funcionava de maneira cupulista, sem enraizamento na base. Queríamos construir um novo sindicalismo, classista, organizado pela base e profundamente democrático e participativo. A principal bandeira era estimular a luta de classes sem nenhuma ilusão em qualquer aliança com os patrões e estimular a organização de base, em grupos e Comissões de Fábrica.

Debate Sindical - O movimento sindical operário mundial está numa encruzilhada?

Vito Giannotti – Absoluta, total. Nunca esteve tão paralisado. As razões históricas são muitas. Mas o fato está aí. Politicamente, o movimento dos trabalhadores foi atingido pelo fim de todas as revoluções socialistas/comunistas que tinham sido realizadas no século XX. Só sobrou Cuba. O século XX foi o século da entrada em cena do proletariado, da classe operária. O (século) XIX foi o século da burguesia. A partir de 1917 os trabalhadores fizeram muitas revoluções vitoriosas.

O mapa do mundo estava cheio de bandeiras vermelhas. Pouco a pouco estas revoluções se desviaram, se corromperam, se auto-destruíram. Afinal, perdemos todas. Esse fato colocou a classe operária do mundo todo na retranca. Junto com esse recuo da esquerda mundial, em todos os sentidos, houve o avanço do capitalismo na sua versão mais violenta e cruel, o neoliberalismo. De 1970 em diante, nas fábricas foi introduzida a reestruturação produtiva e toda a política individualista neoliberal. Esta implica a destruição dos sindicatos e sua transformação em órgão de total colaboração de classes. E, o pior, muitos dirigentes político-sindicais foram ganhos por esta nova visão do mundo e passaram a aplicá-la nos partidos e sindicatos por eles dirigidos. O resultado é esta paralisia que vai levar décadas para ser revertida.

Debate Sindical - Não existe mais luta de classe? Por que os trabalhadores estão tão quietos no Brasil?

Vito Giannotti – A luta de classes é hoje mais dura do que há cem anos atrás. A exploração capitalista neoliberal é hoje mais cruel. Há quatro bilhões de pessoas, no mundo, que vivem abaixo da linha de miséria. E sem perspectiva de melhoras. Ao contrário. O capitalismo neoliberal de hoje exige esta lógica. Um mundo para um terço da humanidade. O resto está sobrando. Que morra, o quanto antes. Esta é a lógica. É isto que queremos dizer quando reafirmamos que a humanidade está na alternativa entre “Socialismo ou barbárie”. Só que a crise político-ideológica da qual falei antes, faz com que a maioria dos dirigentes e militantes dos partidos, centrais e movimentos sociais que já foram de esquerda não nos permite ver uma saída à vista. Na minha visão, a revolução socialista mundial, pela qual comecei a lutar muitos anos atrás, vai demorar muitas décadas. Eu costumo falar de séculos, mas meus amigos me corrigem o tempo todo. Tomara que tenham razão.

Debate Sindical - Ter um presidente da República que veio do meio operário pode ter gerado uma crise de identidade no movimento sindical brasileiro? Por quê?

Vito Giannotti – É claro que gerou. E isso é normal. Aconteceu em vários países, como na Itália, nos anos 80 e 90 e na França, na mesma época. Agora o momento é de refletir sobre este fato e ver quer passos podem ser dados para garantir a autonomia do movimento dos trabalhadores, dos partidos que se referenciam na classe explorada, da central que nasceu das fortes lutas operárias do final da década de 1970 e dos vários movimentos sociais criados nos últimos 30 anos. Isso se aplica a cada passo da vida política, da reforma sindical e trabalhista, á Reforma Agrária, á luta popular pela Educação e pela Saúde.

Debate Sindical - Fale para a gente como surgiu a idéia desse novo livro, em quanto tempo você o elaborou e qual é a mensagem que você quer passar?

Vito Giannotti – O livro que vai sair em fevereiro tem um título que diz tudo: História das lutas dos trabalhadores no Brasil. É um livro que pretende ir para as mãos de milhares de trabalhadores para ajudar a entender sua história e dar condições de lutar melhor. O objetivo é o de sempre. Apressar o dia de termos um país sem exploradores e sem explorados. Nada mais, a velha formula de Marx. A idéia dele não surgiu. Foi uma imposição da realidade. Milhares e milhares de trabalhadores, dispostos a lutar, mas que não conhecem minimamente a nossa história. Livros sobre a classe operária há até bastante, no país. Mas, são parciais, sobre um aspecto, um período da nossa história. Pretendi, com esse livro, dar um quadro geral, desde a chegada dos imigrantes e as primeiras fábricas, até hoje. Saiu meio massudo , o queria mais curto. Mas, não deu. Porém está numa linguagem e num estilo que tenho certeza fará com que seja lido e aproveitado por muitos.

Debate Sindical - Qual a bandeira que você destacaria como a mais importante hoje para os trabalhadores do Brasil ou do mundo mesmo?

Vito Giannotti – Entender as formas de exploração de hoje. Desmascará-las e lutar para acabar com esta exploração. Isto significa acabar com o capitalismo neoliberal e construir um socialismo que deverá ser novo. Não dá para repetir esquemas e frases feitas para outra época. Devemos aprender as lições de quase duzentos anos de luta operária e socialista e avançar. Pensar um socialismo para o século XXI, XXII. Como? Não há formulas. Não é suficiente falar da Comuna de Paris e da Revolução Russa ou Chinesa. Estas devem ser referências, mas temos tudo a repensar.

Debate Sindical - Quando a classe operária vai para o paraíso?

Vito Giannotti – Depois de retomar o rumo, que hoje está perdido. Isso leva anos. Muitos anos. É preciso ter paciência. Agir como se o paraíso estivesse ali para ser conquistado amanhã de manhã cedo. Mas, não se iludir para não ser mais um desiludido, logo aí na frente. E para não se iludir, não pensar que uma vez chegado ao paraíso, acabou. O inferno está sempre pronto para voltar. Ou seja, a construção de uma nova sociedade, de homens e mulheres novos, é uma tarefa que nunca está terminada. É permanente. Não dá para ninguém morrer de tédio.

* Rosângela Ribeiro Gil é jornalista formada pela Faculdade de Comunicação da Universidade Católica de Santos (UniSantos). Durante 20 anos trabalhou como assessora de imprensa em vários sindicatos da região (Urbanitários, Estivadores, Petroleiros, Metalúrgicos e Trabalhadores da Construção Civil). É integrante do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), entidade que desenvolve trabalhos em comunicação sindical, social e comunitária, com sede no Rio de Janeiro.


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