Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Somos uma ponte cultural e de amizade

Jair Gomes da Silva entrevistou Timothy Bancroft-Hinchey, director e chefe de redacção da versão portuguesa da PRAVDA.Ru, parte do seu trabalho como finalista do curso de jornalismo em SP, Brasil. PRAVDA.Ru tem o prazer de publicar a entrevista na íntegra, onde falamos do nosso projecto e explicamos um pouco acerca do jornal.

Jair Gomes da Silva (JGS): Há quantos anos existe PRAVDA em português?

Timothy Bancroft-Hinchey (TBH): A versão portuguesa iniciou no dia 14 de Setembro de 2002, dois anos depois da versão inglesa. A versão russa foi re-lançada electronicamente em 27 de Janeiro de 1999.

JGS: Porquê “re-lançada”?

TBH: Porque Presidente Eltsin fechou o jornal PRAVDA em 1991 e enviou 6.000 jornalistas para a rua, de um dia para outro. Nosso Presidente Vadim Gorshenin, jornalista e editor, levou o caso aos tribunais e ganhou o direito a lançar PRAVDA, mas pensava que na idade das novas tecnologias, chegaríamos a mais pessoas se tivéssemos versões electrónicas e em várias línguas. Assim nasceram as versões em inglês (dirigida pela Directora-Geral Inna Novikova), português e este ano, italiano (dirigido por Cláudio, a partir de São Petersburgo).

JGS: E quantos leitores ou hits têm por dia?

TBH: Tenho imenso prazer em falar disso, porque vi nascer o projecto desde o início, quase, e me lembro quando contava os leitores em centenas. Chegou depois a milhares, dezenas de milhar, centenas de milhar e agora, globalmente, uns 6,5 milhões. Mas a cifra oscila e por isso estas coisas são contadas em visitas por mês e não hits por dia. Na versão portuguesa poderá chegar a 700.000 e estou aqui a falar de um dia só. Foi o caso no Sábado passado por exemplo.

JGS: É muito, em quatro anos.

TBH: Pois, mau não é mas eu só estarei satisfeito quando chegarmos na versão portuguesa a um milhão de leitores fiéis todos os dias.

JGS: E qual é o objectivo do jornal PRAVDA.Ru?

TBH: Basicamente é continuar a tradição deste grande jornal e informar as pessoas sobre a verdade. PRAVDA em russo quer dizer “verdade” e nós não andamos a inventar histórias. Os leitores da PRAVDA.Ru encontrarão uma leitura da realidade na Rússia, no mundo e na versão portuguesa, temos todos os países da CPLP representados. Assim somos uma ponte cultural e de amizade entre o mundo lusófono e a Federação Russa. Também proporcionamos um serviço gratuito para ajudar imigrantes com problemas, enviando-os aos serviços competentes. Além disso somos uma porta de entrada para a Rússia e temos ajudado firmas a fazerem campanhas de publicidade na Rússia, e não só, pois chegamos a muitos países a volta do mundo com as nossas 4 versões. E os nossos preços são muito razoáveis. Finalmente, tencionamos abrir a Fundação PRAVDA para fins humanitárias, uma organização sem lucros, para principalmente canalizar matéria escolar para os países em desenvolvimento. Isso será feito em breve.

JGS: Vi muitas entrevistas suas em que enaltece o Brasil.

TBH: Pois, é para ser enaltecido, é um gigante que finalmente acorda e se assume no palco mundial. Rússia e Brasil são amigos naturais e os russos adoram os brasileiros, como aliás toda a gente. Entendo que Presidente Lula é hoje o ponto de equilíbrio e é bom ver formações políticas da esquerda a se assumirem, como o P-SOL.

JGS: Qual é a vossa relação com a política?

TBH: Entendo a sua pergunta, se somos o feudo do Partido Comunista da Federação Russa? Nós não somos feudo de ninguém. No mundo de hoje, um jornal publica notícias e é isso que nós fazemos. É conhecida a iniciativa da PRAVDA.Ru em Portugal servir de um ponto de encontro para debate e discussão de ideias entre vários pontos de opinião e de vista e no meu dicionário, “debater ideias” não é “cometer pecado”, não é trair a causa mas sim encarar a realidade de forma adulta, madura e responsável, pois quem sou eu a dizer que as ideias do próximo não prestam? Se ele e eu sentarmos a discutir as ideias juntos, chegaremos a algum lado. Oxalá que as nossas iniciativas nesse sentido, e aqui é Luís Carvalho o impulsionador destes eventos muito mais do que eu, tenham continuação.

JGS: Li vários artigos seus a defender Santana Lopes, o ex-Primeiro-ministro de Portugal, que é da direita. Poderá explicar?

TBH: Pois disse muito bem, defender Santana Lopes e não necessariamente as políticas dele. Eu tive a felicidade de conhecer Santana Lopes pessoalmente quando era Presidente do Sporting e se interessou pessoalmente no caso do meu filho mais velho, ajudando-o a sair de um círculo perigoso de amigos e lançando-o na vida de esporte, que felizmente seguiu. Por isso não vou ser eu a dizer coisas negativas acerca de Santana Lopes, a pessoa.

Já disse muitas vezes que as minhas políticas e as dele podem ser opostas, mas isso não quer dizer que não podemos estar sentados a uma mesa a tomar um copo e falar de forma civilizada. Em Portugal há sempre o mau da fita qualquer, para todos baterem e caírem por cima, até que fique em baixo e depois eles deixam. Saiba que o português não dá ponta-pés a quem esteja no chão, é um povo basicamente muito bom e tem excelentes qualidades. São pessoas decentes e agradáveis, regra geral.

Mas retornando a Santana Lopes, para ter um “nós” tem de ter um “ele” e ele neste momento é aquele “ele”. Tem enormes qualidades, é amigo do seu amigo e isso eu respeito imenso, é inteligente e não é por acaso que se posicionou para ser, e foi, Primeiro-ministro. Fez muito mais na vida dele do que eu, por exemplo. Na PRAVDA.Ru não andamos a dizer mal deste ou daquele, se não são notícias, e neste momento cabe ao Pedro Santana Lopes e seu partido seguir como entenderem. Trata-se numa democracia de processos em que as pessoas têm de saber escolher. Se o PSD o quiser como líder outra vez no futuro e se ele for a votos, cabe aos portugueses decidirem se ele foi tratado injustamente ou não quando lhe passaram a batata quente há dois anos atrás. Eu como estrangeiro nem sequer tenho o voto aqui, por isso minha opinião política não é colocada em questão.

No entanto, o facto de todos estarem a falar de Santana Lopes e não outras questões bem mais preocupantes, é sintoma da doença que facilita os que praticam políticas hostis ao povo.

JGS: Acha que o povo português está num momento difícil?

TBH: Não acho, tenho a certeza. Há aqui pessoas que recebem pensões de miséria, numa altura em que os preços subiram em flecha devido à adopção do Euro. Há aqui casos de pessoas a esperarem semanas ou meses até para receberem o subsídio de desemprego. Há uma coisa chamada o ser humano e em muitos casos, a governação tem esquecido isso e tem praticado políticas de laboratório que fazem sentido a quem nunca teve de cavar a terra para comer e cuja realidade é removida da do povo que representa e nisso falo não de partido A, B ou C mas o sistema parlamentar actual não só em Portugal mas na Europa em geral.

JGS: Como descreveria o momento actual em termos mundiais?

TBH: Acho que estamos a assistir o ponto do retorno do equilíbrio e da normalidade depois de termos iniciado um novo milénio da pior forma possível. Quem imaginaria que iríamos iniciar o terceiro milénio com um ataque monstruoso contra civis e duas guerras sangrentas?

O 9/11 deu aval às piores políticas neo-imperialistas dos Estados Unidos da América e seu clique de lacaios, os lambe-botas que esperam por migalhas atiradas pelo Pentágono e outras instituições e corporações elitistas que gravitam a volta da Casa Branca. Porém isso não quer dizer que não foi um acto horrível, monstruoso e muitos dirigentes árabes, incluindo Saddam Hussein, condenaram-no.

Mas lançar ataques terroristas com equipamento militar contra infra-estruturas civis, bombardeando redes de fornecimento de água, de electricidade, hospitais, hotéis, casas particulares, escolas constitui também actos de terrorismo. São crimes de guerra.

No entanto, vemos o embrulho em que os EUA e seus lacaios se enfiaram e não é bonito. Não devemos tirar prazer disso porque quem sofre são pessoas e as lágrimas sabem a sal, seja de quem forem derramadas. Quantas famílias iraquianas, quantas famílias norte-americanas e afegãs choraram pelos seus queridos? Por isso eu não tiro um momento de prazer em ver o Washington até às ancas na lama, a receber tiros de todos os lados e incapaz de sair do poço que cavou.

No entanto vemos agora o ponto final do imperialismo e acho que nem haverá um único elemento no Pentágono que daria o aval a qualquer outro ataque contra qualquer outro estado soberano enquanto eu for vivo, e espero viver muitos anos. O indivíduo agora tem poderes contra o estado e um não-estado agora tem a possibilidade de enfrentar e desafiar o estado, que não foi o caso há duas décadas atrás. Por isso o imperialismo fracassou.

Virando para outros continentes, vemos uma América Latina a assumir claramente seu próprio destino fora das algemas de Washington, vemos uma Cuba a lutar heroicamente contra um bloqueio injusto mas a sobreviver e a marcar sua presença no palco mundial como grande contribuidor para causas humanitárias com uma panóplia de acções sociais a volta do globo, projectos sustentáveis. Por isso Fidel Castro pode olhar para trás e ficar satisfeito, pois aquilo pelo qual lutou está em pé.

Vemos o continente africano em todas as agendas das grandes cimeiras mundiais, do G8, e recentemente nos Fóruns de Parceria em Moscovo e Beijing. Vemos o continente africano a identificar e resolver seus problemas, ajudado em muito pelo projecto de Muammar Gaddafy, da Líbia, que luta há décadas contra o imperialismo e em prol de liberdade e que teve recentemente o siso de saber que hoje em dia não se pode empregar sistemas de armamento contra ninguém e vencer. Por isso concentra-se na política e o resultado é a União Africana, criação dele e de grande número de visionários africanos, que através de transparência e boa governação, constituem os mecanismos para atrair investimento, implementado através da NEPAD.

O que é preciso é programas de apoio sem exigências políticas, que não passam de uma forma de neo-colonialismo.

Vemos a Ásia a crescer de forma galopante, vemos muito bom trabalho contra exclusão digital e muitos projectos a favor de inclusão a nível mundial.

JGS: E em termos políticos?

TBH: Em termos políticos vemos que o modelo monetarista do capitalismo simplesmente não funciona porque o que conseguiu desde os anos 50 foi retirar gradual e constantemente quaisquer benefícios que o Estado de Previdência criou. Hoje em dia, quem pode afirmar que tem um serviço nacional de saúde excelente e gratuito? Sei dum caso recente aqui em Lisboa em que uma rapariga em coma profunda depois de sofrer um aneurisma iria ser retirada do hospital porque precisavam da cama e a família estaria responsável pelo tratamento dela. Onde? No meio da rua? A rapariga fez questão de morrer antes de ser despejada como um balde de lixo. Sei de outro caso bem mais perto de mim: em Londres, uma enfermeira perguntou ao meu pai três semanas antes dele morrer de cancro se ele sabia quanto custava ao Sistema Nacional de Saúde os cuidados dele.

O sistema simplesmente não funciona porque é incapaz de gerir financiamento sustentável para garantir serviços públicos. Falam mal dos sistemas socialistas, mas conseguem eles providenciar um sistema excelente de educação, gratuitamente? Conseguem garantir um emprego? Conseguem garantir acomodação? Bens de consumo? Tempo e actividades de lazer? Mobilidade social baseado em mérito e não por ser filho da mãe ou do pai? Pensões adequadas ao custo de vida? Transportação pública excelente, confortável e gratuita? Ruas livres de crime?

Não conseguiram não. E na política comercial externa, protegem o seu sistema com subsídios e sanções – onde está a justificação de um sistema desses? Não funciona!

JGS: Porquê Portugal?

TBH: Bem se eu não gostasse de Portugal não estaria aqui há 28 anos. É um cantinho muito especial, Lisboa é uma pérola do Atlântico, é um sítio onde todos têm seu lugar e seu espaço de serem o que querem. Há muito a fazer ainda mas já se fez muito também nas últimas três décadas, mas de forma sintética. É preciso fazer mais e mais profundo, resolver de facto as questões económicas e sociais e não só dizer “Ei pá! Vamos fazer uma ponte aí!” Para isso é preciso planeamento e políticos acima das limitações dos interesses partidários. Deve haver, algures, porque se Portugal soube historicamente proteger o que era dele no ultramar e ganhar e confirmar a sua independência várias vezes, é porque consegue parir gente de qualidade.

Além disso, é um país com belas paisagens, boas condições para gozar tempo de lazer, acho eu, excelente gastronomia, vinhos formidáveis, boa gente que é acolhedora e simpática, de forma geral, e que tem aquela característica especial de poder rir ao custo deles mesmo.

JGS: E finalmente, qual é a equipa da PRAVDA.Ru?

TBH: Na versão portuguesa, somos todos voluntários. Na maioria somos jornalistas ou pessoas ligadas ao jornalismo, escritores, mas temos estudantes também e outras pessoas que não são jornalistas de profissão mas que sabem dizer algo no papel. Aceitamos artigos para publicação de todos, não terão de ter curso mas estou especialmente empenhado em ajudar estudantes de jornalismo a ganhar currículo e a publicar seu material. Por isso as portas estão abertas a todos e eu pessoalmente respondo a todos os e-mails, dando conselhos e ajudando na formação do profissional, com muito prazer.

Devo enaltecer o trabalho da nossa magnífica equipa que opera incansavelmente, proporcionando matérias originais e interessantes que não são disponíveis em outras publicações. O mais recente membro é Gustavo Espiñeira em Montevideu, que como eu é adepto do Peñarol mas não mencionar os outros seria um crime, desde Carlo Moiana (Buenos Aires), a equipa nos PALOPs, Luís Carvalho em Portugal, todos os amigos do Brasil, em fim são tantos agora que nem temos espaço para colocar todos. E finalmente, temos uma excelente equipa no departamento português em Moscovo, Lyuba, Ekaterina e Júlia. A todos eles devemos aquilo que se vê aqui porque sem eles o que seríamos?

Timothy BANCROFT-HINCHEY

PRAVDA.Ru, versão portuguesa

Director e Chefe de Redacção

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Jair GOMES DA SILVA

SP BRASIL

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