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A vacina russa contra a COVID 19, sobre os ombros da URSS

27.08.2020
 
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A vacina russa contra a COVID 19, sobre os ombros da URSS
por Angeles Maestro [*]


Se escrevo este artigo é porque creio que ninguém está a dizer o óbvio:   as equipas científicas russas foram capazes de criar a vacina porque ainda existe uma poderosa estrutura estatal de laboratórios de investigação que foi desenvolvida pela União Soviética.

O anúncio de que a Rússia já dispunha de uma vacina contra a Covid-19 deu lugar a massivas desqualificações prenhes de carga política e económica. O alinhamento com os EUA por parte dos grandes meios de comunicação, correias de transmissão da servil subordinação política ao imperialismo norte-americano - que por outro lado se assemelha cada vez mais àquele que tenta salvar-se agarrando-se a quem se afoga -, leva a desqualificar tudo o que vem da Rússia com a irracionalidade e sistematicidade de uma mola.

No caso da vacina russa, a rejeição mediática generalizada está também untada pelos poderosíssimos interesses das multinacionais farmacêuticas. Os impérios do medicamento já esfregavam as mãos e preparavam os seus cofres para recolher os lucros da venda mundial de centenas de milhões de vacinas. Ainda está fresca a memória dos milhares de milhões de dólares obtidos pela Gilead [1] com o Sovaldi ou pela Roche com o Tamiflu [2] , fármaco criado contra uma epidemia, a da Gripe A, que nunca existiu.

Muito se ironizou sobre os dois lapsos de Fernando Simón ao atribuir a vacina à URSS. Desconheço qual é a opinião de Simon sobre a URSS, mas efectivamente, os avanços soviéticos em saúde pública e medicina preventiva - alguns dos quais sobreviveram à Perestroika de Gorbachev, que considerava suspeito de ineficácia tudo o que era público - tornaram possível uma vacina à qual, significativamente, chamaram Sputnik V.

A URSS e a saúde pública

A Revolução de Outubro de 1917 deu origem ao primeiro sistema público de saúde, universal, baseado na promoção da saúde e na prevenção da doença e que exigia no seu funcionamento a participação da população na tomada de decisões [3] .

Num Estado que apresentava no início do século XX taxas de mortalidade infantil elevadíssimas - de cada 1.000 mortos, dois terços eram crianças com menos de 5 anos - e de mortalidade por doenças infecciosas (a mortalidade por tuberculose era de 400/100.000), a implementação de serviços de saúde em todos os recantos do imenso território foi acompanhada pela implementação de medidas de prevenção generalizadas [4] .

A vacinação de toda a população foi mais uma medida, entre outras também decisivas. O acesso a água potável e ao tratamento de resíduos, à electricidade ("O comunismo é o poder dos sovietes mais a electrificação de todo o país" V.I. Lénine [5] ), a habitação higiénica com aquecimento, a boa alimentação, a condições de trabalho decentes, a educação, ... e ao poder político - conditio sine qua non -, são muito mais importantes do que os medicamentos para melhorar a saúde das populações [6] .

A Rússia czarista já havia desenvolvido uma importante trajectória científica em microbiologia, e especificamente em vacinas, que não chegavam ao seu povo. Antes da descoberta da vacina contra a varíola por Edward Jenner em 1796 e uma vez que a doença devastava desde há séculos a vida de milhões de pessoas em todo o mundo, aplicava-se um procedimento arriscado: a variolização. Provocava-se o contágio para induzir imunidade, embora o risco de morte fosse elevado.

Após a morte por varíola do czar Pedro I em 1730, a imperatriz Catarina II, juntamente com o seu séquito, submeteu-se publicamente a tal procedimento - que teve êxito - e utilizou-o como arma propagandística a favor da ciência e contra a superstição. Efectivamente, com apoio estatal foram desenvolvidas instituições científicas relacionadas com a imunologia.

O Centro Nacional de Investigação de Epidemiologia e Microbiologia, responsável pela descoberta da vacina contra a Covid 19, tem o nome do cientista Fiodor Gamaleya . Gamaleya desenvolveu nos finais do século XIX importantes investigações sobre a raiva com Luis Pasteur e com o seu apoio fundou o primeiro Instituto Bacteriológico da Rússia, o segundo do mundo. Seguiram-se descobertas de Gamaleya e outros cientistas russos sobre vacinas e mecanismos de transmissão da cólera, peste, tifo, etc.

O triunfo da Revolução em 1917 criou as condições para a aplicação desses avanços, que tinham permanecido encerrados em laboratórios, ao conjunto da população. Realizou-se a primeira campanha de vacinação universal da história da humanidade:   em 18 de Setembro de 1918, o Comissário do Povo para a Saúde Pública N.A. Semashko adoptou o "Regulamento de vacinação contra a varíola" baseado no relatório científico de Gamaleya e em Abril de 1919 o Presidente do Conselho de Comissários do Povo V.I. Lénine assinou o decreto correspondente. Foi a primeira campanha de vacinação universal da história da humanidade [7] .

No início dos anos 1930, a URSS foi o primeiro território do mundo a anunciar a erradicação da varíola. À escala mundial esse facto ocorreu 50 anos depois.

Os anos em que a OMS gozou de prestígio e autoridade mundiais - antes de ser engolida pelas multinacionais farmacêuticas - foram tempos de grande influência da URSS. Em 1958, Viktor Zhdanov, vice-ministro da Saúde soviético, propôs à Assembleia da OMS um plano para erradicar a varíola à escala global, que foi aprovado e posto em marcha. Algo mais de vinte anos depois, ao declarar a erradicação da varíola no planeta, o director da OMS lembrou a contribuição extraordinária da URSS para os países carentes de recursos: 400 milhões de doses da vacina [8] .

A vacina contra a poliomielite na URSS e a da Covid 19

Em meados do século XX uma nova epidemia causava grande mortandade e incapacitações: a poliomielite. Nos EUA, em 1955, foi desenvolvida a primeira vacina, baptizada Salk com o nome do seu descobridor. Pouco depois, o virologista Albert Sabin descobriu outro tipo de vacina mais eficaz, mais barata e mais segura (a vacina de Salk tinha apenas 60% de eficácia). Dado o sucesso da primeira não foi possível testá-la nos EUA.

Os cientistas soviéticos, Mikhail Chumakov e Anatoly Smorodintsev, foram enviados aos Estados Unidos. Sabin e Chumakov acordaram continuar a desenvolver a vacina em Moscovo. Vários milhares de doses da vacina foram trazidos dos Estados Unidos numa mala vulgar e as primeiras vacinações começaram.

Chumakov e a sua companheira, a virologista Marina Voroshilova, iniciaram a experiência em Moscovo com os seus próprios filhos. A vacina consistia num vírus debilitado, utilizava-se a via oral e era administrada por meio de um torrão de açúcar, de forma que não necessitava de pessoal qualificado.

Em ano e meio acabou a epidemia na URSS. Em 1960, 77,5 milhões de pessoas foram vacinadas. Albert Sabin foi chamado a depor acusado de actividades anti-americanas.

Uma anedota da época acaba por ser de grande actualidade. No Japão, a poliomielite assolava a população infantil e apenas a vacina Salk, de eficácia limitada e além disso em quantidade insuficiente, estava disponível. A vacina produzida na URSS não conseguia, por óbvias razões políticas e económicas, as licenças para ser importada. Depois de diversas peripécias, milhares de mulheres japonesas saíram à rua para exigir a vacina e alcançaram o seu objectivo. O filme soviético-japonês "Step" do realizador Alexander Mitta conta a história [9] .

Deve sublinhar-se que os avanços russos em matéria de vacinas continuaram após a queda da URSS. O Centro Nacional de Investigação de Epidemiologia e Microbiologia descobriu recentemente uma vacina contra o Ébola e trabalha actualmente em várias linhas de investigação, uma das mais avançadas a que tenta encontrar a vacina contra outro Coronavírus, o MERS-Cov. Desta forma, como reiteraram proeminentes investigadores russos, a rapidez do processo com a vacina contra a Covid-19 deve-se ao facto de se ter trabalhado sobre plataformas criadas há anos que avançavam em direcções semelhantes. De momento, a Rússia anunciou a fabricação de 1.000 milhões de doses para 20 países solicitantes.

A experiência continuará a escrever história. O que não se pode ignorar é que a campanha para desacreditar a vacina russa é orquestrada por gente que nada tem a ver com procedimentos científicos e tem, sim, muita relação com poderosíssimos interesses económicos, entre outros, da indústria farmacêutica.

Por outro lado, apesar dos lapsos de Fernando Simón, nem Putin é Lénine, nem a Rússia é a URSS. Mas nós, trabalhadores de todo o mundo, não deveríamos esquecer que a gigantesca gesta operária de Outubro de 1917 e a derrota do fascismo na Segunda Guerra Mundial, ainda continua a permitir alcançar, como neste caso, avanços científicos desenvolvidos sobre décadas de trabalho não sujeito aos interesses do capital e produzidos em instituições públicas.

Não é de todo provável que, apesar do sofrimento causado pela pandemia e do evidente desastre do sistema de saúde no Estado espanhol, o governo "progressista" se atreva a dar prioridade à saúde do seu povo e enfrentar, mesmo que apenas uma vez, o poder de um dos baluartes do imperialismo:   a indústria farmacêutica.

A conquista da independência, da verdade, terá que vir de outras mãos, da construção de outro poder capaz de derrotar a barbárie.
21/Agosto/2020
[1] A multinacional norte-americana Gilead quadruplicou os seus lucros ao comprar a patente do medicamento Sofosbuvir para Hepatite C. O medicamento, descoberto em laboratórios públicos dos Estados Unidos, era vendido em função da negociação com o Estado comprador. Um tratamento na Índia custava entre 100 e 200 dólares e em Espanha, 25.000. www.nogracias.eu/2014/04/10/tamiflu-la-mayor-estafa-de-la-historia/
[2] O Tamiflu da farmacêutica Roche, a maior vigarice da história. Governos de todo o mundo gastaram milhares de milhões de dólares num medicamento contra uma epidemia que não existiu. A multinacional ocultou resultados de investigações que demonstraram que não encurtava os internamentos, nem reduzia as complicações e que, pelo contrário, tinha importantes efeitos secundários. O governo de Zapatero gastou 333 milhões de euros em Tamiflú em 2009, em plena crise, quando a despesa pública era maciçamente cortada na saúde e outros serviços públicos. www.nogracias.eu/2014/04/10/tamiflu-la-mayor-estafa-de-la-historia/
[3] Uma ampla referência à obra seminal sobre os princípios fundamentais e o desenvolvimento do sistema de saúde soviético e o ensino das profissões da saúde "Social Hygiene and Public Health Organization" por A.F. Serenko e V.V. Ermakor, acessível em espanhol, pode ser consultada em https: www.scielosp.org/article/rcsp/2017.v43n4/645-660/
[4] Um resumo das origens do Sistema de Saúde da URSS e da figura de Nikolai Semasko, primeiro Comissário do Povo para a Saúde, pode ser encontrado em russo, com tradução automática, aqui: regnum.ru/news/polit/ 2318307.html
[5] "Lâmpada de Ilyich" A primeira lâmpada foi inventada por um engenheiro russo em 1874 e sua chegada às aldeias mais remotas da Rússia tornou-se o símbolo da Revolução. Aqui pode ver pormenores do GOELRO, o plano de electrificação de toda a Rússia. https://es.wikipedia.org/wiki/GOELRO
[6] Sobre o médico prussiano Rudolf Virchov, patologista de destaque e considerado o fundador da Saúde Pública. http://webs.ucm.es/centros/cont/descargas/documento28401.pdf
[7] A história da primeira campanha de vacinação universal da história da humanidade e da erradicação da varíola na URSS pode ser consultada aqui:   books.google.es/...
[8] https://www.who.int/mediacentre/news/notes/2010/smallpox_20100517/es/
[9] Com base nesta história, o realizador Alexander Mitta filmou em 1988 a coprodução sovieto-japonesa "Step", com Leonid Filatov e Komaki Kurihara nos papéis principais. Oleg Tabakov, Elena Yakovleva, Vladimir Ilyin, Garik Sukachev actuaram com eles. A sua canção "My Little Babe" é reproduzida no filme www.academia.edu/39610881/CINE_RUSO_Historia_y_literatura_rusa_y_española

Ver também:

  • Une belle histoire de virus (contre la virophobie ambiante...) , de Guillaume Suing
  • A vacina Sputnik V como salvadora da humanidade , de Kirill Dmitriev
  • Los crímenes de las grandes compañías farmacéuticas , livro de Teresa Forcades i Vila
  • Todo sobre la vacuna rusa (incluido lo que otros no te cuentan) , vídeo
  • Claves del éxito de Cuba contra el coronavirus (no lo verás en otros medios) , vídeo
  • Cuba's vaccine candidate 'Sovereign' begins clinical trials today


[*] Médica, dirigente da Red Roja, Espanha

O original encontra-se em redroja.net/...

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

  https://resistir.info/pandemia/vacina_russa_21ago20.html
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A Bielorússia poderá tornar-se a próxima Síria?
por The Saker [*]
Ok, admito que o título é um tanto hiperbólico. Mas aqui está o que estou a tentar dizer: há sinais de que a Rússia está a intervir na crise bielorrussa (finalmente!)

Em primeiro lugar, podemos ver uma mudança verdadeiramente radical nas políticas de Lukashenko: se seu instinto inicial era desencadear uma repressão brutal tanto dos manifestantes violentos quanto dos manifestantes pacíficos, agora ele fez uma volta de 180º e o resultado é bastante surpreendente: no domingo houve grandes manifestações anti-Lukashenko, mas ninguém foi detido. Ninguém. Ainda mais surpreendente é isto:   o canal Nexta Telagram , dirigido pelos polacos (que é o principal meio usado pelo Império para derrubar Lukashenko), inicialmente apelava a um protesto pacífico, mas no fim do dia fez um apelo para a tomada do principal edifício da presidência. Quando os desordeiros (nesta altura estamos a tratar de uma tentativa ilegal e violenta de derrubar o estado - por isso não chamo essas pessoas de manifestantes) chegaram junto ao prédio, depararam-se com uma verdadeira "parede" de polícias de choque plenamente equipados: essa visão (realmente assustadora) foi o suficiente para travar os desordeiros que se detiveram por algum tempo e depois foram embora.

Em segundo lugar, Lukashenko fez algo um tanto estranho, mas que faz muito sentido no contexto bielorrusso: ele vestiu-se com um uniforme completo de combate, empunhou um rifle de assalto AKSU-74, vestiu o seu filho (de 15 anos!) também com um uniforme completo de combate (capacete incluído) e voou no seu helicóptero sobre Minsk e, em seguida, pousou no edifício presidencial. Eles então caminharam até os polícias de choque, onde Lukashenko os agradeceu calorosamente, o que resultou numa ovação de pé por toda a força policial. Para a maior parte de nós, este comportamento pode parecer um tanto estranho, senão totalmente tolo. Mas no contexto da crise bielorrussa, que é uma crise combatida primariamente no domínio informativo, faz todo o sentido.

  • Na semana passada, Lukashenko disse que nenhuma outra eleição, muito menos um golpe, acontecerá enquanto ele estiver vivo.
  • Desta vez, Lukashenko decidiu mostrar, simbolicamente, que está no comando e que morrerá a combater ao lado do filho, se necessário.


A mensagem aqui é clara: " Não sou nenhum Ianukovich e, se for preciso, morrerei como Allende".

Não é preciso dizer que a máquina de propaganda anglo-sionista declarou de imediato que ver Lukashenko a empunhar uma Kalashnikov é um sinal claro de que ele enlouqueceu. No contexto ocidental, se isso fosse, digamos, no Luxemburgo ou na Bélgica, esta acusação de insanidade estaria correcta. Mas, no contexto da Bielorússia, tais acusações têm muito pouco efeito, atribuam isto a diferenças culturais se quiserem.

Para entender quão poderosa é esta mensagem, precisamos ter em mente os dois principais rumores que a operação PSYOP do Império estava a tentar transmitir ao povo da Bielorússia:

  • Existem profundas diferenças entre e dentro das elites governantes (especialmente os chamados " siloviki " - os "ministérios do poder" se quiser, como o de Assuntos Internos ou KGB).
  • Lukashenko ou já fugiu do país ou está prestes a fugir (cada vez que um helicóptero sobrevoa Minsk, os PSYOPs ocidentais dizem que se trata de uma filmagem de Lukashenko "a sentir o país").


Tenho uma forte suspeita de que o que aconteceu entre Putin e Lukashenko é muito semelhante ao que aconteceu entre Putin e Assad: inicialmente, tanto Assad quanto Lukashenko aparentemente pensavam que a violência pura resolveria o problema. Aquela crença profundamente equivocada resultou numa situação em que as autoridades legítimas quase foram derrubadas (e isto ainda é possível na Bielorússia). Em cada caso, os russos disseram claramente algo como "vamos ajudá-lo, mas terá que mudar radicalmente os seus métodos". Assad ouviu. Aparentemente, Lukashenko também, pelo menos até certo ponto (este processo mal começou).

A verdade é que a oposição está numa situação difícil:   a grande maioria do povo da Bielorrússia claramente não quer um golpe violento, seguido de uma guerra civil sangrenta, uma desindustrialização total do país e uma submissão total ao Império, ou seja, eles não querem seguir o "caminho Ukie". Mas como derrubar legalmente um governo, especialmente se esse governo agora envia a mensagem clara "morreremos antes de permitirmos que você tome o poder"?

Depois, há o imenso problema com Tikhanovskaia: embora poucos acreditem que ela tenha obtido 10% dos votos e Lukashenko 80% - ninguém acredita sinceramente que ela o venceu. Portanto, embora o Ocidente queira pintar Lukashenko como "o próximo Maduro", é praticamente impossível convencer alguém "que Tikhanovskaia é o próximo Guaidó".

Então, para onde vamos a partir daqui?

Bem, Lukashenko não demitiu o ministro das Relações Exteriores, Makei, nem o chefe da KGB, Vakulchik. Verdade seja dita, tendo a concordar com alguns analistas russos quando dizem que Makei não é realmente o problema e que o principal russófobo em Minsk é o próprio Lukashenko (apenas um exemplo:   foi ele quem removeu os quatro Sukhois russos que a Rússia enviara para ajudar a Bielorússia a controlar o seu espaço aéreo). É bem verdade que Lukashenko dirige todos os seus ministérios com mão de ferro e dizer que Makei é de todo mau e negro enquanto Lukashenko é uma vítima branca e inocente não é muito crível. Contudo, ainda que Makei e Vakulchik estivessem apenas a executar as ordens de Lukashenko, agora precisam cair em suas espadas como um sinal de contrição e reparação para com a Rússia. Mesmo assim, os russos provavelmente indicarão a Lukashenko que o Kremlin não trabalhará com estes vira-casacas.

Depois, há as declarações públicas do ministro da Defesa da Bielorrússia, Viktor Khrenin, que diz tudo que está certo e que parece ter uma linha muito dura contra aquelas forças ocidentais que estão por trás desta última tentativa de uma revolução colorida. É bem conhecido na Rússia que, embora os diplomatas bielorrussos pareçam, como direi, preferir sorrisos a uma colaboração substantiva com a Rússia. O caso dos militares bielorrussos é bastante diferente: os militares russos e bielorrussos não só treinam em conjunto como também compartilham inteligência de forma contínua. Além disso, sem a Rússia, os militares bielorrussos estariam completamente isolados, incapazes de obter apoio técnico ou peças, desconectados dos sistemas russos de alerta antecipada e removidos do apoio da inteligência russa.

Os militares bielorrussos são dramaticamente diferentes dos militares ucranianos, que praticamente perderam sua prontidão para o combate décadas atrás, que foram então expurgados de todos os verdadeiros patriotas e que eram fantasticamente corruptos. Em contraste, as comparativamente pequenas forças militares bielorrussas são, segundo todos os relatos, muito bem treinadas, decentemente equipadas e comandadas por oficiais muito competentes. Penso ser uma aposta segura dizer que as forças armadas são leais a Lukashenko e que provavelmente saudariam uma plena reunificação com a Rússia.

Quanto ao próprio Lukashenko, ele, pela primeira vez, permitiu abertamente o registo de um partido pró-russo (no passado, movimentos, organizações e partidos pró-russos eram sistematicamente perseguidos e encerrados). Ele também declarou na TV pública que "seu amigo Putin" o aconselhou sobre como reagir aos manifestantes.

Então a Bielorrússia se tornará a próxima Síria?

Bem, não, claro que não, os dois países são muito diferentes. Mas, num sentido diferente, o que aconteceu na Síria pode acontecer na Bielorússia: a Rússia dará seu apoio total, mas apenas em contrapartida de grandes reformas a todos os níveis. E apesar de Lukashenko agora declarar que o Ocidente só quer destruir a Bielorússia como uma primeira fase de destruição de toda a Rússia, não acredito que haja qualquer probabilidade de um conflito militar, a menos que uma destas três coisas aconteça:

1. Algum maluco em qualquer dos lados abra fogo e desencadeie um incidente militar (e mesmo isso pode não ser suficiente)
2. Os polacos ficarem realmente desesperados e fizerem algo fantasticamente estúpido (a história polaca demonstra que isto é uma possibilidade muito real)
3. Lukashenko é morto e o instala-se caos (também não é muito provável)

Devemos recordar que, quando a Rússia interveio na Síria, os militares sírios estavam em condições desastrosas e basicamente derrotados. Este não é o caso na Bielorússia, que tem um exército excelente (do tipo "pequeno e eficaz") e eles podem proteger seu próprio país, especialmente quando apoiados pelo KGB e pelas forças do Ministério de Assuntos Internos.

Ainda assim, embora Lukashenko possa ser parte da solução no curto prazo, a longo prazo ele deve ir e ser substituído por um líder fidedigno no qual o povo bielorrusso e o Kremlin possam realmente confiar e cuja principal tarefa será reintegrar totalmente a Bielorrússia na Rússia. Mais uma vez, uma grande diferença com a Síria.
24/Agosto/2020
O original encontra-se em thesaker.is/might-belarus-become-the-next-syria/

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .


https://resistir.info/bielorussia/saker_24ago20.html


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