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Retrospecto de 8 atos de destruição nacional

26.03.2021
 
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Retrospecto de 8 atos de destruição nacional

Vamos recapitular o que houve no Brasil nos últimos sete anos, rapidamente, em oito atos para melhor interpretação de uma farsa histórica que se transformou em drama de toda uma nação

Por José Raimundo Trindade

 

O Brasil é um país em transe, algo que lembra o clássico filme de Glauber Rocha ("Terra em Transe"). O filme de 1967 se interpõe a uma realidade em plena efervescência e com enormes contradições sociais e própria das desigualdades brasileiras. A face política do filme de Glauber Rocha era tão ou menos estonteante que o atual cenário político e social brasileiro.


Essa terra em transe parece manter sua população em permanente condição de aflição, porém nestes últimos cinco anos o quadro de caos econômico e social instalado parece nos levar a um limite nunca visto de cataclisma e danos para sociedade brasileira. Quando a vida de milhares de pessoas foi vitimada a partir de uma ação pensada pela sua classe dominante.

Atingimos nesta semana o clímax da crise sanitária, pelo menos até aqui. Tivemos nas últimas semanas médias superiores a duas mil vítimas e alcançamos 300 mil mortes nesta quarta-feira (24/03). A crise sanitária que entrou numa fase trágica no Brasil, explicita o significado desta terra em transe.

Vamos recapitular o que houve no Brasil nos últimos sete anos, rapidamente, em oito atos para melhor interpretação de uma farsa histórica que se transformou em drama de toda uma nação:

Ato 1) Em março de 2014 se estabelece uma operação judicial/midiática, tendo como base o Ministério Público de Curitiba, denominada "Lava Jato". Os principais atores envolvidos, um juiz de primeira instância, até então um desconhecido, chamado Sérgio Moro e a que a Rede Globo passará a tratar de "Rei Moro" e um ajudante do referido juiz, algo agora plenamente comprovado, o procurador "Escudeiro Dallagnol. A lógica estabelecida foi de completa destruição das instituições democráticas do país e mais do que isso, agora fica evidente, objetivava destruir a economia brasileira e sua entrega aos interesses imperialistas dos EUA.

Ato 2) Em junho de 2015 o STF nega que o ex-presidente Lula ocupe a "Casa Civil" da presidência da República, sob convite legitimo feito pela ex-presidente Dilma. O objetivo da negação teve duas consequências: prejudicou profundamente uma saída da crise em que se encontrava o governo de Dilma e, aprofundou as condições de desestruturação das instituições, inclusive fortalecendo as "ações fascistas desenvolvidas pela República de Curitiba" (as palavras são de Gilmar Mendes).

Ato 3) Em maio de 2016 o Congresso Nacional afasta ilegítima e ilegalmente a ex-presidente Dilma da presidência (tanto o aspecto da ilegitimidade, quanto a ilegalidade foi já provados, seja pelos fatos históricos hoje revelados, seja pela completa ausência de prova acusatória contra a presidenta). Estava consolidado ali um novo golpe de Estado.

Ato 4) Em maio de 2018 se arma a farsa da prisão de Lula e a Lava Jato consolida sua obra: prender Lula e impossibilitar que o mesmo possa concorrer a presidência da República com base na "lei do Ficha Limpa", uma legislação bastante casuística, como muitas outras. Deve-se observar alguns fatos, inclusive a luz da decisão de terça-feira do STF (23/03/2021) quanto a parcialidade do juiz Moro.

Primeiro, desde o início do processo, tanto a defesa de Lula, como vários juristas alertavam para o fato mais que trivial que o fórum de Curitiba não constituía o local apropriado para o referido julgamento, já que se baseava em processo referente a Petrobrás e esta empresa teria sede no Rio de Janeiro e em Brasília, portanto o processo já teria um problema de início referente ao chamado "Juiz natural".

Segundo, o processo teria sido todo ele instrumentalizado de forma ilegal, pois o objeto específico referente a propriedade ou não do "apartamento do Guarujá" não constituía parte dos possíveis objetos de causa da Petrobrás, foi necessário "forçar a barra" mediante o estatuto da chamada "deleção premiada" e impor o referido apartamento como parte de uma "presumida" negociação cruzada entre a empresa OAS e a Petrobrás, ou seja, uma canhestra forma de fazer justiça acusatória.

Terceiro, por fim, as conversas entre procuradores, reveladas no âmbito da chamada "Operação Spoofing", onde o hacker Delgatti revelou o conjunto das tramas, nos termos do próprio ministro Gilmar Mendes, que buscava usurpar o poder judicial brasileiro, estabelecendo as condições de imparcialidade do referido ex-juiz.

Ato5) Em outubro de 2018, o ex-presidente é proibido pela justiça de dar qualquer declaração à imprensa. O objetivo central era prejudicar a candidatura de Fernando Haddad e facilitar a eleição do candidato da direita fascista e conservadora brasileira, o que de fato acaba se dando.

Ato 6) Eleição do Sr. Jair Bolsonaro, em claro conluio do conjunto de forças conservadoras e a burguesia brasileira, impondo mediante um processo ilegítimo, já que se tinha afastado o principal candidato (o ex-presidente Lula) e se tinha prejudicado ao máximo a candidatura de Haddad, inclusive, não realizando debates e dando tempo permanente de denúncias nas principais redes de TV, especialmente Rede Globo, Record e SBT, quanto a "novos" fatos da operação Lava Jato. Um processo de denuncismo e propaganda de falsas acusações, hoje de conhecimento público, que tiveram quatro atores fundamentais nas ações: a mídia corporativa; as corporações empresariais; os militares e o judiciário, na forma da República de Curitiba.

Ato 7) Em março de 2020 se observam os primeiros casos da pandemia do Covid-19 em solo brasileiro. O governo federal toma uma posição negacionista e negligente. Com base em uma falsa tese de que o Covid era uma doença sem maiores consequências (em março de 2020 o atual presidente fala que no máximo se terá "800" óbitos e que é uma "gripezinha") e que políticas como isolamento social não deveriam ser adotados. Em maio/junho de 2020 temos a primeira onda de Covid e chegamos em agosto de 2020 com mais de 60 mil vítimas fatais.

Sob enorme pressão social e graças a atuação dos partidos de esquerda, se aprova em maio/2020 uma renda emergencial que possibilitou com que fosse efetivado durante alguns meses um certo isolamento social, algo frouxo, mas que determinou que a primeira onda não fosse mais grave do que foi.

A continuidade da inexistência de políticas organizadas, a ausência de uma linha diretiva por parte da autoridade federal, como mostrado pelo ocorrido na crise de Manaus, onde muitas pessoas morreram pela ausência de equipamentos básicos e que deveriam ser supridos pelo Ministério da Saúde, como válvulas de oxigênio, aliado a uma política pensada e levada a efeito de propagação institucional do vírus, como provado por recente pesquisa publicada pela USP, nos levou a um quadro sanitário gravíssimo. Chegamos às 300 mil vítimas fatais e a uma média diária acima de dois mil óbitos. Hoje representamos 25% dos óbitos de Covid ao nível mundial.

Ato 8) Esse quadro trágico da realidade brasileira, tanto nos aspectos humanitários, quanto na própria destruição das instituições democráticas, se soma a outro ponto central. Diversas das revelações no âmbito da referida "Operação Spoofing" revelam que tanto os procuradores, quanto o ex-juiz Moro tinham relações diretas com órgãos de segurança do governo estadunidense, tanto FBI, CIA, quanto órgão da justiça norte-americana. Fato grave e que revela o conteúdo de ataque a própria soberania nacional brasileira se observa quando agente do Estado brasileiro negociam considerando facilitações referentes as condições de privatização da Petrobrás, entre outras tramoias que beiram o drama ficcional, porém o drama de toda uma nação.

Segundo estudo recentemente divulgado pelo DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Econômicos), o prejuízo para economia brasileira ocasionados pela Lava jato monta a algo próximo de 100 bilhões de reais, seja destruindo a base industrial da empresa, seja destruindo parcela significativa da indústria de construção nacional, seja destruindo milhares de empregos (algo em torno de 4 milhões de postos de trabalho). Porém, os ataques não param por aí. Com a eleição de Bolsonaro e a efetivação de seu governo antinacional se aprofundou a perda de conteúdo tecnológico em toda estrutura produtiva brasileira, isso ao lado do agravamento inaudito do desemprego e da destruição das condições básicas de vida da maior parte da população brasileira.

Podemos afirmar que esses 8 atos relacionados constituem a maior destruição de uma nação em tempos de paz da história mundial. Sem usarem uma bala, mas usando o "lawfare", o entreguismo mais desvairado das corporações militares e da mídia tivemos os crimes de genocídio, lesa-pátria, destruição industrial e imposição da fome ao povo brasileiro como atos pensados da burguesia mais torpe do planeta.

José Raimundo Trindade (Professor e pesquisador UFPA/PPGE) 

 

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