Pravda.ru

Negόcios

O Autoengano e a Economia

17.08.2010
 
Pages: 12

É mister reiterar, por outro lado, que a teoria econômica também mostra (e não mascara) as limitações do ser humano. Wiliam StanleyJevons (1835-1882), economista que se especializou em estudar filosofia e moral, menciona esta temática quando trata de dois dos sentimentos específicos: prazer e sofrimento. Estes seriam como variáveis opostas que devem ser somadas para obter uma espécie de saldo de bem-estar. Uma vez mais, temos aqui a conotação de que a teoria econômica faz uso do cabedal filosófico para expor seus argumentos. Dor e prazer seriam as duas sensações a que o Homem, do passado e dos dias hodiernos esteve, está e estará sempre exposto. Para alcançar a felicidade procura-se, grosso modo, evitar a primeira e realizar-se plenamente na segunda. Não por acaso, os escritos dos economistas utilitaristas, dentre eles Jeremy Benthan (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-1873), afiançam esses princípios.

Voltando a Jevons, temos que, o homem nunca está feliz, mas sempre está para ser feliz, e é por esse desafio que é levado a, frequentemente, tomar uma série de decisões ou escolhas dentro de um contexto de pura racionalidade limitada (poucas informações, políticas tendenciosas, etc.).

Nesse pormenor, o processo de escolha, enaltecido por Jevons, seria o objetivo de análise mais considerável do universo da ciência econômica, ainda que paire discordância sobre isso.

No entanto, tudo depende, em termos econômicos, das boas escolhas, nos diz o economista liberal francês Guy Sorman. Essas escolhas, feitas por nós, carregam consigo o postulado defendido com unhas e dentes pela Escola Austríaca de economia, também de cunho liberal, qual seja: é a ação humana que aponta para a capacidade de fazer uma economia prosperar.

Nesse sentido, entendemos que a ação humana é movida pelas ideias que nos levam, na ponta final do processo, às escolhas. Reiteramos, todavia, o cuidado para não confundir ideias com capital humano. As ideias existem em função do capital humano. No entanto, elas somente, isoladas e não levadas a bom termo, não servem para nada. O que nos faz avançar são nossas ações. Leonardo Boff, teólogo brasileiro, a esse respeito é pontual: “Ideias boas podemos até tê-las, mas o que de fato move o mundo são nossas ações”. Reside aí, contudo, o fato de defendermos a inclusão das pessoas no conjunto de operações da economia. Se, de fato, agimos para maximizar nossas vantagens materiais, nada mais justo que inserir e combinar vontades com a participação de cada um. Edmund Phelps, outro nome consagrado da teoria econômica contemporânea reitera que “a boa economia é a que satisfaz a aspiração a uma vida boa”. Isso é, na essência, o que todos buscam ao frequentar o tipo de literatura que mencionamos no início deste artigo; ainda que seja no mais completo autoengano.

Destarte, há algo que ainda precisa ser dito: essa situação deixa o ser humano em situação vulnerável e, muitas vezes, dependente (viciado) de estímulos internos e externos. Esse contexto é aproveitado comercialmente pela prática da autoajuda que cumpre papel similar ao da religião. Neste caso, contudo, o faz fornecendo uma espécie de salvação necessária para minimizar impactos negativos de escolhas (ações) erradas ou para contribuir com a obtenção de resultados (objetivos) propostos. Neste caso, ademais, estamos convencidos que a autoajuda seria, na verdade, um completo autoengano.

Os autores: Economista peruano/brasileiro, Doutor pela Universidade de São Paulo (USP). É Diretor Geral das Faculdades Integradas Santa Cruz de Curitiba. Meza@santacruz.br

(**) Economista brasileiro, especialista em Política Internacional e mestre pela Universidade de São Paulo (USP). É professor de Economia da FAC-FITO e do UNIFIEO, ambos em São Paulo.

Contato: prof.marcuseduardo@bol.com.br

http://twitter.com/marcuseduoliv

Pages: 12