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Consequências da passagem do capitalismo industrial para o financeiro

16.01.2021
 
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Consequências da passagem do capitalismo industrial para o financeiro

por Michael Hudson [*]
em diálogo com Pepe Escobar 
[**]

Bem, estou honrado de estar aqui com o Pepe e discutir os nossos interesses comuns. Penso que temos de enquadrar toda a questão de a China estar a prosperar e o Ocidente a chegar ao fim dos seus 75 anos de expansão experimentados desde 1945.

Havia uma ilusão de que os EUA estão a desindustrializar-se devido à competição da China. A realidade é que não há qualquer modo de os EUA se reindustrializarem e recuperarem seus mercados de exportação da forma como o país está hoje organizado, financeirizado e privatizado, mesmo que a China não existisse. Ainda assim haveria o Rust Belt a enferrujar-se. Ainda haveria a indústria americana incapaz de competir no exterior simplesmente porque a estrutura de custos nos Estados Unidos é demasiado alta.

A riqueza aqui já não provém da indústria. Ela é feita financeiramente, principalmente por meio de ganhos de capital. Aumento dos preços de imóveis ou de acções e títulos. Nos últimos nove meses, desde que o coronavírus aqui chegou, o 1% do topo da economia dos EUA cresceu US$1 milhão de milhões (trillion). Foi uma sorte inesperada para os 1 por cento. O mercado de acções está em alta, o mercado de títulos está em alta, o mercado imobiliário está em alta, enquanto o resto da economia está em baixa. Apesar das tarifas que Trump impôs às importações chinesas, o comércio com a China está a aumentar simplesmente porque não estamos a produzir materiais.

A América não fabrica seus próprios sapatos. Não faz determinados parafusos e porcas, não faz mais nada industrial, porque se se quiser ganhar dinheiro com uma empresa industrial será na compra e venda da empresa, não na contracção de empréstimos a fim de aumentar a sua produção. A cidade de Nova York, onde moro, costumava ser industrial e os edifícios industriais, os edifícios mercantis, foram todos convertidos em imóveis de alto valor e o resultado é que os americanos têm de pagar muito dinheiro com educação, rendas, cuidados médicos e que se obtivessem todas as suas necessidades físicas, sua comida, suas roupas, todos os bens e serviços de graça, eles mesmo assim não poderiam competir com a mão-de-obra estrangeira devido a todos os custos que têm de pagar, os quais essencialmente são as chamadas busca de renda.

A habitação nos Estados Unidos agora absorve cerca de 40% do salário do trabalhador médio. Quinze por cento são retirados dos cheques de pensões, segurança social e do Medicare. O seguro médico adicional reduz mais o valor do cheque, o imposto de rendimento e o imposto sobre vendas somam cerca de outros 10%. A seguir há empréstimos estudantis e dívidas bancárias. Assim, basicamente, o trabalhador americano pode gastar apenas cerca de um terço do seu rendimento na compra dos bens e serviços que produz. Todo o resto vai para o sector FIRE - finanças, seguros e imobiliário - e outros monopólios.

E, essencialmente, tornámo-nos naquilo que é chamado de uma economia de busca de renda, não uma economia produtiva. Portanto, quando as pessoas em Washington falam sobre capitalismo americano versus socialismo chinês, a questão está confusa. De que espécie de capitalismo estamos a falar?

A América teve capitalismo industrial no século XIX. Foi assim que ficou mais rica originalmente, mas agora mudou do capitalismo industrial rumo ao capitalismo financeiro. O que isto significa é que, essencialmente, a economia mista que tornou a América rica -, onde o governo investia em educação, infra-estrutura e transporte e os fornecia a baixo custo de modo a que os empregadores não tivessem de remunerar o trabalho a fim de este suportar custos elevados - foi transformada ao longo dos últimos cem anos.

"Afastámo-nos da ética que vigorava no capitalismo industrial"

E afastámo-nos da ética que vigorava no capitalismo industrial. Antes, a ideia de capitalismo no século XIX, de Adam Smith a Ricardo, de John Stuart Mill a Marx, era muito clara e Marx afirmou isso muito sem rodeios: o capitalismo era revolucionário. Era para se livrar da classe dos proprietários de terra. Era para se livrar da classe rentista. Livrava essencialmente da classe banqueira e apenas suportar todos os custos desnecessários para a produção, pois como é que a Inglaterra, a América e a Alemanha ganharam seus mercados?

Eles obtiveram seus mercados basicamente através do governo, que assumia grande parte dos custos da economia. O governo na América proporcionava educação de baixo custo, não dívida estudantil. Proporcionava transporte a preços subsidiados. Proporcionava infraestrutura básica a baixo custo. E assim, a infraestrutura governamental era considerada um quarto factor de produção.

E se ler o que as business schools do fim do século XIX ensinavam, como Simon Patten na Wharton School, é muito semelhante a socialismo. Na verdade, é muito parecido com o que a China está a fazer. E de facto a China nos últimos 30 ou 40 anos está a seguir praticamente o mesmo caminho de enriquecimento seguido pelos Estados Unidos.

Ela tem a sua infraestrutura básica do governo. Proporciona educação de baixo custo. Investe em ferrovias de alta velocidade e aeroportos, na construção de cidades. Assim, o governo arca com a maior parte dos custos e isso significa que os empregadores não têm de pagar tanto aos trabalhadores para que eles arquem com dívidas de empréstimos estudantis. Eles não precisam pagar aos trabalhadores o suficiente para que eles paguem alugueres enormes, como acontece nos Estados Unidos. Eles não precisam pagar aos trabalhadores para que poupem num fundo de pensões, a fim de receberem pensões posteriormente. E, acima de tudo, a economia chinesa não precisa realmente pagar a uma classe banqueira, porque a actividade da banca é o mais importante de todos os serviços de utilidade pública. A China manteve o sector bancário nas mãos do governo e os bancos chineses não emprestam pelas mesmas razões que os bancos americanos emprestam.

(Quando eu disse que a China pode pagar salários mais baixos do que os EUA, o que quis dizer foi que a China proporciona como serviços públicos muitas coisas que os trabalhadores americanos têm de pagar dos seus próprios bolsos - tais como saúde, educação gratuita, educação subsidiada e, acima de tudo, um serviço de dívida muito menor. Quando trabalhadores precisam se endividar para viver, eles precisam de salários muito mais altos para se manterem solventes. Quando precisam pagar pelo seu próprio seguro saúde, têm de ganhar mais. O mesmo se aplica à educação e à dívida estudantil. Grande parte do que os americanos parecem estar a ganhar - mais do que trabalhadores em outros países - vai directamente para o sector FIRE. Portanto, o que parece serem "salários baixos" na China vai um bocado mais além do que os salários mais altos nos Estados Unidos).

Oitenta por cento dos empréstimos bancários americanos são hipotecas de imóveis e o efeito de afrouxar os padrões de empréstimos e aumentar o mercado de imóveis é elevar o custo de vida e o custo da habitação. Assim, os americanos têm de pagar cada vez mais dinheiro por suas habitações, sejam eles locatários ou compradores; caso em que a renda é para pagar juros de hipoteca.

Assim, toda esta estrutura de custos foi construída na economia. A China conseguiu evitar tudo isso, porque seu objectivo no sector bancário não é obter lucro e juros, não é obter ganhos de capital e especulação. Ela cria dinheiro para financiar meios reais de produção para construir fábricas, para investigação e desenvolvimento, para construir instalações de transportes, construir infraestrutura. Os bancos na América não emprestam para essa espécie de coisas.

Os bancos só emprestam contra uma garantia já em vigor porque não farão um empréstimo se não for garantido por um colateral. Bem, a China cria dinheiro por meio de seus bancos públicos para criar capital, para criar os meios de produção. Portanto, você tem uma filosofia diametralmente oposta de como desenvolver entre os Estados Unidos e a China.

A China está a ganhar riqueza à moda antiga

Os Estados Unidos decidiram não ganhar riqueza investindo de facto em meios de produção e na produção de bens e serviços, mas em meios financeiros. A China está a ganhar riqueza à moda antiga, produzindo-a. E quer se chame a isso de capitalismo industrial ou capitalismo de estado ou socialismo de estado ou marxismo, basicamente segue a mesma lógica da teoria económica real, da economia real, não das despesas gerais financeiras. Assim, tem-se a China a operar como uma economia real, a aumentar a sua produção, a tornar-se a fábrica do mundo como se costumava chamar à Inglaterra e à América a tentarem extrair recursos estrangeiros, a viverem de recursos estrangeiros, a viverem tentando ganhar dinheiro investindo no mercado de acções chinês ou agora, a moverem bancos de investimento para a China e fazerem empréstimos à China, não formas reais do capitalismo industrial.

Assim, poder-se-ia dizer que a América foi para além do capitalismo industrial e eles chamam a isto sociedade pós-industrial, mas poder-se-ia chamá-la de sociedade neofeudal. Poder-se-ia chamá-la de sociedade neo-rentista ou de servidão por dívida, mas não é capitalismo industrial.

E neste sentido não há rivalidade entre a China e a América. São sistemas diferentes que seguem seu próprio caminho e é melhor eu deixar Pepe continuar a partir daqui.

Pepe Escobar: OK, Michael, obrigado, é brilhante. E você fez isso em menos de 15 minutos. Contou toda a história em 15 minutos. Bem, meu instinto jornalístico é imediatamente começar a fazer perguntas a Michael. Assim, é exactamente o que vou fazer agora. Acho que é muito melhor ilustrar basicamente alguns pontos do que Michael acabou de dizer, comparando o sistema americano, que é essencialmente o capitalismo financeiro, com o capitalismo industrial que está em vigor na China. Deixe-me tentar começar com uma questão muito concreta e directa ao ponto, Michael.

OK. Digamos que mais ou menos, se quisermos resumir, basicamente eles tentam tributar a classe rentista não produtiva. Assim, este seria o modo chinês de distribuir riqueza, não é? Filtrando a literatura económica chinesa, encontra-se um conceito muito interessante que é relativamente novo (corrija-me se eu estiver errado, Michael) na China, ao qual chamam de investimento estável. Portanto, investimento estável, de acordo com os chineses, seria a emissão de títulos especiais como capital extra de facto, a ser investido na construção de infraestrutura por toda a China e eles escolhem esses projectos no que chamam de áreas fracas e elos fracos. Assim, provavelmente em algumas das províncias do interior, ou provavelmente em algumas partes do Tibete ou Xinjiang, por exemplo. Assim, isto é um modo de investir na economia real e em projectos reais de investimento do governo.

Certo? Então, essa é de facto a minha pergunta, será que este sistema cria dívida local extra, vinda directamente deste financiamento de Pequim? Será isto uma boa receita para o desenvolvimento sustentável, o caminho chinês e a receita que eles poderiam expandir para outras partes do Sul Global?

Michael: Bem, isto é um grande problema que eles estão agora a discutir. As localidades, especialmente na China rural (e a China ainda é em grande parte rural) cobrem apenas cerca de metade de seu orçamento operacional com impostos. Assim, eles têm um problema. Como vão conseguir o saldo do dinheiro? Bem, não há qualquer repartição oficial da receita entre o governo federal e os seus bancos estatais e as localidades.

Assim, as localidades não podem simplesmente ir ao governo central e dizer, dê-nos mais dinheiro. O governo permite que as localidades sejam muito independentes. E isto é uma variante do conceito "deixe uma centena de flores florescer". De modo que eles deixaram cada localidade ir longe, mas as localidades incidiram num grande défice.

O que é que eles fazem? Bem, nos Estados Unidos emitiam títulos sobre os quais Nova York está prestes a entrar em incumprimento. Mas na China, a maneira mais fácil de as localidades ganharem dinheiro é, infelizmente, fazer algo como Chicago fez. Eles venderão seus direitos fiscais pelos próximos 75 anos por dinheiro actual neste momento.

Assim, virá um desenvolvedor imobiliário e dirá: olhe dar-lhe-emos os próximos 75 anos de impostos sobre esta terra, porque queremos construir projectos sobre ela (um conjunto de edifícios). Então, o que isso significa é que agora as cidades abandonaram todas as suas fontes de renda.

Deixe-me ilustrar o problema com o que fizeram Indiana e Chicago. Chicago também era muito semelhante às cidades do interior da China. Assim, ela vendeu parquímetros e suas calçadas para toda uma série de investidores da Wall Street, incluindo o Fundo de Investimentos de Abu Dhabi, durante 75 anos. Isso significa que durante 75 anos este consórcio da Wall Street obtém o controle dos parquímetros.

Assim, eles instalaram parquímetros por toda Chicago, aumentaram o preço do estacionamento, aumentaram o custo de conduzir em Chicago. E se Chicago fizesse uma parada e interrompesse o estacionamento, Chicago teria de pagar ao fundo de Abu Dhabi e à companhia da Wall Street o que ela teria ganhado de qualquer modo. E isto tornou-se um desastre tão terrível que finalmente Wall Street teve que reverter o acordo e desfazê-lo porque estava a dar má reputação à privatização. O mesmo se passou em Indiana.

Indiana estava com défice e decidiu vender suas estradas a uma firma de investimento da Wall Street para portajá-las. A portagem nas rodovias de Indiana ficou tão alta que os motoristas começaram a tomar as estradas vicinais. Este é o problema se se vende antecipadamente receitas fiscais futuras.

Agora, o que a China e as localidades ali estão a discutir é: agora que já demos o imposto sobre imóveis com estimativas muito baixas para os desenvolvedores comerciais, o que é que vamos fazer? Bem, eu lhes dei o meu conselho. Sou professor de teoria económica na Universidade de Pequim, na Escola de Estudos Marxistas, e tive discussões com o Comité Central. Também tenho um cargo oficial na Universidade de Wuhan. Lá, estamos a discutir como a China pode aplicar um imposto acrescentado sobre toda a valorização de terras, as que aumentaram de valor. O que fazer para deixar as cidades arrecadarem este imposto? Nossa afirmação é que as cidades, ao venderem esses direitos fiscais por 75 anos, venderam o que na Grã-Bretanha seria chamado de renda da terra (isto é, aquela que é paga à aristocracia fundiária).

Além disso, existe a renda de mercado. Assim, a China deveria aprovar um imposto sobre a renda de mercado acima do imposto sobre a renda da terra para reflectir o valor actual. E lá estão eles pensando, bem, podemos dizer que isso é um ganho de capital sobre a terra? Bem, não é realmente um ganho de capital até que se venda a terra, mas é valor. É a valorização do capital. E eles estão a pensar se deveriam apenas dizer que isto é o imposto de renda de mercado além do imposto uniforme (flat tax) que foi pago antecipadamente, ou é um imposto territorial sobre o ganho de capital da terra.

Agora, tudo isso requer que haja um mapa territorial de todo o país. E eles acabam de começar a criar esse mapa territorial como uma base para calcular quanto de renda há.

O que encontrei na China é algo muito estranho. Alguns anos atrás, em Pequim, tiveram a primeira conferência marxista internacional, onde fui o orador principal e falei acerca da discussão de Marx sobre a história da teoria da renda no Volume II e Volume III do Capital, onde Marx discute toda a teoria económica clássica que conduziu à sua visão; Adam Smith, Ricardo, Malthus, John Stuart Mill e a teoria do valor excedente de Marx foi realmente a primeira história do pensamento económico a ser escrita, embora só tenha sido publicada após a sua morte. Bem, houve um pouco de desconforto entre alguns dos marxistas na conferência. Assim, na vez seguinte eles convidaram meu colega David Harvey para vir e falar acerca do marxismo no Ocidente.

Bem, David fez o discurso de abertura e o de encerramento da conferência e disse: é preciso ir além do volume I do Capital. O volume I foi o que Marx escreveu como a sua contribuição à economia clássica, dizendo que havia exploração no emprego industrial do trabalho, bem como na busca de renda e a seguir ele disse, agora que fiz minha introdução aqui, deixem-me falar sobre como funciona o capitalismo nos volumes II e III. Os volumes II e III são todos sobre renda e finanças e David Harvey publicou um livro sobre o volume III do Capital e a sua mensagem à Universidade de Pequim e à segunda conferência marxista foi - têm que ler os volumes II e III.

Bem, pode-se ver, há uma discussão agora sobre o que é marxismo e um amigo e colega da PKU disse que marxismo é uma palavra chinesa; é a palavra chinesa para política. Isso deixou tudo claro para mim. Agora entendi! A Academia de Ciências Sociais da China havia-me pedido para criar um plano de estudos da história da teoria da renda e da teoria do valor. E essencialmente a fim de se ter uma ideia de como calcular a renda, como fazer uma análise do rendimento nacional em que se mostre a renda, é preciso ter uma teoria do valor e do preço e renda é o excesso de preço sobre o valor do custo real. Bem, para isso será preciso um conceito de custo de produção e é disso que trata a economia clássica. A economia pós-clássica negou tudo isso. Toda a ideia da economia clássica é que nem todo o rendimento é merecido.

Os proprietários fundiários não ganham seu rendimento a fazer renda durante o sono, como disse John Stuart Mill. Os bancos não ganham seu rendimento apenas sentados ali e deixando as dívidas acumularem-se e os juros a comporem-se e duplicarem. Os economistas clássicos separavam o rendimento real não merecido da economia de produção e consumo.

Bem, na América por volta de fins do século XIX, havia economistas lutando não apenas contra Marx, mas também contra Henry George, que, naquela época, estava a instar por um imposto sobre a terra em Nova York. E assim, na Universidade de Columbia, John Bates Clark desenvolveu toda uma teoria de que todos ganham o que merecem. Que não existia tal coisa como um rendimento não merecido e essa ideia desde então tornou-se a base para as estatísticas americanas do rendimento nacional. Portanto, se você examinar os números actuais do PIB dos Estados Unidos, verá que eles apresentam 8% do PIB como renda dos proprietários de casas. Mas os proprietários de casas não se pagariam a si próprios se tivessem de arrendar o apartamento para si mesmos, então haverá juros de cerca de 12% do PIB.

E eu pensei, bem, como pode o juro ser tão constante? O que acontece com todas as taxas atrasadas; aqueles 29% que as empresas de cartão de crédito cobram? Liguei para o pessoal do rendimento nacional em Washington, quando estava lá. E eles disseram bem, multas por atraso e penalidades são consideradas serviços financeiros.

E isto é o que se chama uma economia de serviços. Bem, não há nenhum serviço na cobrança uma multa por atraso, mas eles adicionam todas as multas por atraso. Quando as pessoas não conseguem pagar suas dívidas e devem cada vez mais, tudo isso é considerado um acréscimo ao PIB. Quando a habitação se torna mais cara e os preços da mão-de-obra americana saem do mercado, isso é chamado de um aumento do PIB.

"Quando o povo não consegue pagar suas dívidas e deve cada vez mais, tudo isso é considerado um acréscimo ao PIB".

Não é assim que um país que quer se desenvolver vai criar uma contabilidade do rendimento nacional. Portanto, há uma extensa discussão na China sobre, apenas para responder à sua pergunta, como criar uma contabilidade que distinga entre o que é o custo necessário para a produção e o que é um custo de produção desnecessário e de como evitar fazer o que os Estados Unidos fizeram. Assim, mais uma vez, não há rivalidade. Os Estados Unidos são um objecto de lição para a China sobre o que evitar, não apenas na industrialização da economia como também na criação de um quadro da economia como se todos ganhassem tudo e não houvesse exploração, nem rendimento não merecido, em que ninguém ganhasse dinheiro a dormir e não houvesse os 1 por cento. Bem, é isso que está realmente em causa e a razão porque o mundo inteiro está a despedaçar-se enquanto você e eu estamos a discutir o que escrevemos.

Pepe: Obrigado, Michael. Muito obrigado. Então, para resumir tudo, podemos dizer que a estratégia de Pequim é evitar que as áreas provinciais arrendem suas terras e sua infraestrutura por 60 ou 75 anos? Tal como acaba de mencionar, podemos dizer que o fulcro da estratégia nacional é o que você define como o imposto sobre a renda de mercado? Será este o mecanismo nº 1 que eles estão a desenvolver?

Michael: Idealmente, eles querem manter as rendas tão baixas quanto possível porque renda é um custo de vida e um custo de fazer negócios. Eles não têm bancos que estejam a emprestar para inchar o mercado imobiliário.

No entanto, em quase todos os países ocidentais - Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra - o valor das acções e títulos e o valor do imobiliário é quase exactamente o mesmo. Mas na China, o valor do imobiliário é muito, muito maior do que o valor das acções.

E a razão não é porque o Banco Central chinês, o Banco da China, empresta para imóveis; é porque eles emprestam a intermediários e os intermediários financiaram muitas compras de casas na China. E esse é realmente o problema, pois se eles criarem um imposto territorial, isso irá quebrar muitos desses intermediários financeiros.

É o que estou a advogar e não prenso que seja uma coisa má. Estes intermediários financeiros não deveriam existir e esta mesma questão veio à tona em 2009 nos Estados Unidos. Ali o principal banco americano, sendo o banco mais desonesto e internamente corrupto do país, o Citibank, a fazer hipotecas lixo e ele estava insolvente.

 

 

 

Foto: Michael Hudson

Ler na íntegra na fonte original

https://resistir.info/m_hudson/hudson_pepe_07jan21.html