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Sonhar é fundamental, transformar a sociedade é necessário

14.05.2010
 
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Além de encampar esse compromisso – o da mudança - na construção de um amanhã melhor, é necessário deixar de lado o orgulho e a jactância que por vezes muitos são acometidos e reconhecer-se, definitivamente, como seres insignificantes que somos perante o desconhecido. Afinal, o que somos? Não somos nada; nada somos. Somos apenas um entre 6,7 bilhões de pessoas – uma espécie única, perdidos entre outras três milhões de espécies classificadas. Essa imensidão de “coisinhas” vive num planeta que gira em torno de uma estrela que é uma entre 100 bilhões de outras estrelas que compõem uma galáxia que, por sua vez, está “perdidinha” entre outras 200 bilhões de galáxias; isso tudo num universo que, segundo consta, não é o único.

Somos insignificantes ou não? É fato que sim. Mas, diante disso, não podemos ser omissos. Não podemos deixar de acionar em cada um de nós os “botões” que nos movem na busca desse amanhã melhor que todos, afinal, tanto desejam.

Apesar de reconhecer-mo-nos como insignificantes perante o “desconhecido”, não se pode deixar de enaltecer que são nossas ações, ainda que ínfimas, que fazem as coisas acontecerem. Madre Teresa de Calcutá (1910-97), dentro de elevada sapiência que carregava consigo, a certa altura de sua vida afirmou que sabia reconhecer sua insignificância e se comparou a uma gota no oceano; mas tinha a plena convicção de que sem essa gotinha o oceano seria menor.

É disso que todos nós, seres humanos, precisamos. Reconhecer que mesmo uma simples ação, uma simples ajuda, um simples estender de mãos, uma política e uma proposta de compartilhamento, às vezes, se transforma em tarefa salvadora para com os mais necessitados e desprovidos que são sempre relegados à margem.

Dentro dessa perspectiva, se faz necessário aprender a tarefa de “consertar” esse mundo a partir das pequeninas ações em prol do próximo. Nossa insignificância, conforme apregoado, não pode ser fator impeditivo para essa premente mudança. O fato de sermos insignificantes perante o “desconhecido” não significa sermos inertes, passivos, complacentes com os desequilíbrios sociais. Portanto, a hora da mudança se aproxima; até mesmo porque a situação presente de anomalias sociais espalhadas mundo afora já passou do ponto.

Os cientista sociais, comprometidos com a transformação, precisam aprender uma lição fundamental: conhecimento não “se aprende”, se constrói, diria o professor Paulo Freire. Não se deve, portanto, esperar pelo pedido de ajuda; é necessário lançar-se nesse oferecimento. É necessário “construir” esse canal de ajuda mútua.

Esses cientistas sociais, dos quais o economista moderno, por tratar desse assunto com acuidade em seus estudos, precisa ser audacioso na hora de propor a transformação da sociedade. No entanto, não se pode lançar-se nesse empreendimento como um aventureiro; e muito menos confundir audácia com aventura. A mudança se faz com os audaciosos, não com os aventureiros. A audácia constrói, edifica mundos novos; a aventura, mais cedo ou mais tarde, apenas soçobra. O audacioso avança; o aventureiro regride.

Em especial ao economista moderno, cabe aqui uma recomendação: deverá esse estudioso ser audacioso e ser também um sonhador. Sonhar com a construção de um mundo mais digno, ainda que muitos por isso venham a chamá-lo de utópico. Sonhar com utopias faz bem à alma; aventurar-se na construção delas é o que dá sentido à vida. E estendo essa análise aos economistas, em especial, pois vejo nessa categoria os profissionais que podem ser, na medida, verdadeiros apóstolos das transformações sociais, principalmente pela penetração que a economia (enquanto ciência e atividade produtiva) tem junto às políticas públicas.

Ainda que se reconheça a insignificância que carregamos em nós, esse economista moderno precisa estar atento para o processo que clama pelas mudanças. O poeta Fernando Pessoa (1888-1935), nesse pormenor, assim resumiu tal pendência: “Não sou nada, não fui nada, nunca serei nada / Afora tudo isso, trago em mim todos os sonhos do mundo”.

Para construir essa utopia do possível, o economista moderno precisará fazer com que sua ciência abra canais de comunicação com outras ciências sociais num mundo que me parece cercado de questionamentos e de pouquíssimas certezas. Certamente, estamos num mundo em que mesmo a capacidade de sonhar tem sido, por vezes, sacrificada e maltratada mediante os abusos em nome dos privilégios de uma minoria que se sobrepõe com força destrutiva sobra a maioria.

Mas, sonhar é assim mesmo: nem sempre é fácil, por diversas vezes é complicado. Nem sempre o futuro próximo se apresenta recheado de colorido; por vezes, esse tempo próximo a que chamamos de futuro se apresenta nublado, carregado, como que possuindo um semblante pesado, denso.

Mesmo diante disso, do nebuloso e obscuro, é necessário não perder de vista a capacidade de sonhar. A frase a seguir, com a qual fecharemos esse assunto, é atribuída ao pastor Martin Luther King (1929-68), e me parece propícia para se encaixar nesse exemplo: “Se eu desconfiasse que o mundo acabaria amanhã, hoje mesmo eu seria capaz de plantar uma árvore”.

É esse o tipo de sonho e de esperança que não se pode perder.

(*) Economista e professor do UNIFIEO, da FAC-FITO e da Faculdade de Vinhedo.

Mestre pela USP e Especialista em Política Internacional.

Contato: prof.marcuseduardo@bol.com.br

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