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Crise na Grécia ou crise nos estados da União Européia?

07.06.2010
 
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Quando isso aconteceu, os técnicos de Eurostat (o organismo de análise e estatísticas econômico-financeiras da União Européia) rejeitaram as falsas informações do governo grego, mas tiveram de aceitá-las em função da "solidariedade neoliberal" que havia tomado conta dos 16 governos da "área do Euro".

A partir dessa encenação iniciou-se um complexo processo especulativo cujos principais beneficiários foram os bancos alemães, seguidos pelos franceses e as seguradoras italianas. Por sua parte, todos os governos gregos que se sucederam na Praça Syntagma (sede do Parlamento) direcionaram a maior parte dos empréstimos europeus para sustentar o clientelismo eleitoreiro e refinanciar a dívida pública com uma desordenada emissão de títulos do Estado, de forma que nos últimos quatro anos o valor da dívida pública passou de 180 bilhões de euros para 320 bilhões.

Mais anacrônico era o tecido social dos "poupadores que compravam os títulos da dívida grega". Na sua maioria, eram representados por indivíduos ou entidades ligadas à economia paralela, à corrupção ou que, através do clientelismo político, conseguiam fraudar a receita grega, cujo rombo hoje é calculado em 30%. Por sua parte, os governos gregos – tanto o conservador da Nova Democracia quanto o social-democrata do PASOK - fecharam os olhos. Isso no momento em que, em uma sociedade empobrecida com os programas neoliberais, os únicos poupadores que podiam comprar os títulos da dívida pública eram quem lucrava com a corrupção, a fraude fiscal e a economia paralela, onde os "corretores" das máfias internacionais (italiana, russa, israelense) investiam nos "bonds gregos" paras reciclar seus lucros ilegais.

De fato, o Secretário Geral do Partido Comunista (KKE), Alex Papariga, ao questionar o aleatório programa de saneamento fiscal do governo Papandreu, dizia: "Como é possível que em um país como a Grécia haja somente 5.000 famílias que declaram uma renda anual de 100.000 euros, quando é suficiente ir ao porto do Pireo para encontrar milhares de barcos luxuosos que são a prova de que a evasão fiscal dos ricos é generalizada, enquanto os únicos a pagar os impostos são os trabalhadores do funcionalismo público e os do setor privado?".

Este perverso esquema de "poupança" entrou em crise quando, com a derrota do conservador Karamallis, os "poupadores" ficaram amedrontados com o crescimento do partido comunista "KKE", a afirmação da coalizão da esquerda social "Synaspismos" e, sobretudo, com a pressão popular sobre o governo social-democrata de Georgios Papandreu por parte da central sindical comunista "PAME". O medo por uma iminente ruptura do status quo fez com que os "poupadores" retirassem dos bancos gregos seus títulos para negociá-los em dólares nas filiais dos bancos alemães e franceses, agenciando com eles a transferência "em off" para os bancos de Jersey, Ilhas Channels, Luxemburgo e Malta, isto é, os paraísos fiscais europeus.

Quando o Banco Central grego se deu conta de que ninguém estava comprando seus "bonds" era demasiado tarde, inclusive porque os bancos alemães e franceses que haviam especulado sobre a compra em dólares da quase totalidade dos títulos agora exigiam o pagamento de uma dívida equivalente a 100 milhões de euros, e cuja perspectiva era a insolvência absoluta.

Somente quando a insolvência dos títulos gregos começou a atingir a confiabilidade dos bancos alemães que a primeira-ministra alemã, Ângela Merkel, interveio, pedindo ao parlamento alemão que votasse com urgência um pacote de ajuda financeira de 8,5 bilhões de euros para a Grécia não declarar default e abandonar o sistema monetário europeu. Em segundo lugar, Merkel, para garantir o pagamento aos bancos alemães, informava os presidentes do Banco Central Europeu, Jean-Cleaude Trichet, e do FMI, Dominique Strauss-Kahn, que o governo alemão aceitava a proposta de um maxi-refinanciamento da dívida grega no valor de 110 bilhões de euros.

Uma ajuda financeira que, na realidade, servia apenas para evitar a bancarrota dos bancos alemães, franceses e seguradoras italianas que haviam especulado com os "bonds" gregos e para enquadrar o Estado grego, podendo finalmente intervir em sua economia aplicando as receitas recessivas do FMI, cujo custo seria pago unicamente pelos trabalhadores gregos até 2020.

Crise do modelo de Estado europeu

O Tratado de Maastricht, mais que criar um novo modelo político para os países da União Européia, enquadrou toda a política européia em um complexo xadrez regulamentado por normas jurídicas definidas por cada área específica de jurisdição. De fato, a crise do chamado "Estado Moderno Europeu" - para além da contingência grega – se tornou evidente no momento em que esse Estado, embutido de neoliberalismo, foi incapaz de prevenir as desastrosas situações financeiras que seu mercado produziu e, conseqüentemente, não teve capacidade de solucionar tais crises, a não ser com a confirmação dos limites de sua própria natureza política. Isto é a prática neoliberal de repassar para o cidadão o ônus da crise econômica provocada pelos bancos com a especulação financeira.

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