Dois cronistas do Brasil

Adilson Roberto Gonçalves

 

            As eleições se aproximam e já é possível ler as intenções – e falsidades – de candidatos em relação à política cultural para o país constantes nos planos de governo apresentados para a Justiça Eleitoral, ainda que sejam documentos muitas vezes apenas decorativos e pura ficção.

            Mas, não sendo apenas ficção, e, se de alhures são colocados obstáculos à discussão cultural, no Brasil contemporâneo, em relação especificamente à literatura, a crônica se sobressai e sobre seus atores falemos um pouquinho. Adentrando apenas um dos jornais da capital paulistana, há dois deles que são dignos de nota para serem acompanhados diária ou semanalmente, a depender de qual se fala.

            Recentemente na Folha de S. Paulo, fazendo uma descrição plástica da arte, o articulista, cronista e escritor de biografias Ruy Castro superou o artista Vik Muniz – que criou arte (Rescaldo de memórias) com as cinzas do que restou do incêndio do Museu Nacional em 2018 –, mostrando no artigo “Das cinzas para a vida” (6/8) que, das tragédias humanas, provocadas e provocativas, restam apenas os átomos e as memórias. Um leitura diária imprescindível.

            O outro cronista semanalmente fala da língua e da linguagem. Mesmo com o lamento pela saída de Sérgio Rodrigues das páginas da Folha não apaziguado (ver algo a mais aqui: https://adilson3paragrafos.blogspot.com/2026/08/aprendemos-adoecer.html), é alentadora a forma como Caetano Galindo se refere ao antecessor e saber que a língua está muito bem defendida por ele no espaço. Essa defesa da língua portuguesa foi também feita recentemente (em 13/8) pelo membro da Academia Brasileira de Letras Arnaldo Niskier, ao elogiar o monólogo de Gregório Duvivier “O Céu da Língua”, arte que celebra a palavra. Sabor e saber têm a mesma origem no latim; assim, que saibamos o melhor de nossa língua portuguesa.

            Ao mencionar o substituto e o substituído são três, e não dois, os cronistas. Mas quem está contando?

 

Adilson Roberto Gonçalves, pesquisador na Unesp, Rio Claro-SP

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