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Para Israel, solução é uma terra sem Palestinos

31.03.2017
 
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No maior campo de concentração a céu aberto, 1,8 milhões de palestinos vivem espremidos nos 48 quilômetros de largura por quatro quilômetros de comprimento da Faixa de Gaza, em alguns pontos atingindo um máximo de sete quilômetros, fazendo com que a região compreenda não menos de cinco mil habitantes por quilômetro quadrado, a maior densidade demográfica do planeta sobre a qual é imposto, pelas forças de ocupação, um regime diário de ingestão de calorias (abaixo do necessário à saúde humana). Trafegar livremente pela própria região, sob permanente vigilância, também é proibido ainda que seja por razões médicas ou escolares.

Os 360 quilômetros quadrados da faixa de Gaza possuem somente três saídas: um ao sul, na fronteira com o Egito, e as outras a norte e a leste, na fronteira com Israel. Do outro lado, palestinos vivem separados de Gaza na Cisjordânia, fronteira com a Jordânia, onde as forças sionistas avançam indiscriminadamente as colonizações á base de demolições de residências, de muita violência e de sumários assassinatos praticados pelas forças sionistas. Para que o Exército israelense - oitavo mais potente exército do mundo (financiado em grande parte por Washington) e portador de alguns dos mais potentes armamentos - mate um cidadão por toda a terra palestina, é tão fácil (e impassível de punição) quanto se matar um pássaro. 

O regime de apartheid, reconhecido pela própria ONU e imposto pelo Estado de Israel aos palestinos, trata-se da maior violação ao direito internacional contemporâneo financiada diretamente pelos Estados Unidos, e apoiada pelas grandes potências ocidentais. Tudo isso acobertado e distorcido pela grande mídia de propaganda internacional, exitosa manipuladora do imaginário coletivo em todo o mundo, neste caso com clara tendência sionista.

Maher Awawdeh, diretor-geral de Mídia Externa do Ministério da Informação da Autoridade Palestina na Cisjordânia, fala nesta conversa do futuro das relações norte-americano-israelenses sob a nova administração de Donald Trump, avalia a cobertura da grande mídia internacional sobre o massacre histórico do Estado de Israel contra os palestinos, e comenta os desafios que se apresentam na tentativa de se alcançar um acordo de paz, justo e definitivo.

Confira a seguir a íntegra da bombástica entrevista de Maher, direto da Cisjordânia sobre um dos maiores e mais silenciados crimes de lesa-humanidade, pós-Segunda Guerra Mundial.

 

Edu Montesanti: Qual sua avaliação do encontro entre o presidente Donald Trump e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em 15 de fevereiro, especialmente em relação às seguintes observações do novo ocupante da Casa Branca: "Estou considerando a criação de dois Estados e de um Estado". "Eu apreciaria a solução que as duas partes apreciem. Estou muito feliz com a que ambas as partes apreciam. Posso conviver com qualquer uma"?

Maher Awawdeh: É de dar pena uma posição tão passiva do presidente da superpotência norte-americana, que deixa a solução que "ambas as partes apreciem". Isso só pode significar que se está permitindo que Israel goze de impunidade e viole o direito internacional. 

A solução que Israel aprecia é a terra sem palestinos. Na verdade, Israel está agindo firmemente com essa postura. Basta observar a expansão dos assentamentos em toda a Cisjordânia e Jerusalém, o cerco a Gaza que só pode ter um objetivo: fazer com que o povo palestino saia de sua terra natal. Israel parece totalmente indiferente ao mundo e ao direito internacional, justamente por causa do apoio de que goza dos Estados Unidos e de alguns outros países ocidentais.

Não há nenhum país no mundo que retenha restos de civis mortos que ele mesmo tenha assassinado, e os mantenha como fichas de barganha por mais de 40 anos, com exceção de Israel. 

Não há país que desloque sua população militante imigrante em direção a territórios ocupados à base da força, sem o consentimento dos proprietários originais e legítimos da terra.

Não há nenhum país no mundo que construa abertamente muros de separação dentro dos territórios ocupados pela força e que construa estradas separadas para seus cidadãos, ao mesmo tempo que nega aos cidadãos ocupados o acesso a tais estradas. 

Israel é o único país que nega ao povo ocupado, neste caso aos palestinos, o acesso à tecnologia de telecomunicações, tal como a 3G. 

Israel é o único país que reconhece abertamente a imposição de um sistema de ração com base na restrição calórica contra os palestinos, sitiados na Faixa de Gaza. 

Israel é o único ocupante que oprime os palestinos, e espera que estes demonstrem gratidão por isso.

Acreditamos que os Estados Unidos deveriam rever suas políticas em relação aos princípios da democracia e dos direitos humanos, os quais são indivisíveis e não podem ser desfrutados apenas por alguns e negados para outros. 

Acabar com a ocupação israelense é a única forma de alcançar a paz na região. O povo palestino precisa ter o direito de desfrutar de todos os direitos que as nações do mundo desfrutam. Roubo de terra, assassinatos e intimidação dia a dia não podem trazer estabilidade nem paz. 

Israel deve levar mais a sério o Tribunal Penal Internacional, o Tribunal de Haia e os vários tribunais internacionais, apenas exemplos que Israel deve recordar enquanto esses mecanismos devem assumir suas responsabilidades para a proteção dos palestinos, oprimidos e sofredores.


O governo israelense de direita e a AIPAC, uma das maiores lobistas da política dos Estados Unidos, comemoraram a eleição de Donald Trump à Presidência norte-americana, considerando-o um "verdadeiro aliado" de Israel que não deverá, na avaliação deles, criticar a construção de novos assentamentos na Cisjordânia e nem pressionar por uma solução de dois Estados com os palestinos. permitindo assim que as forças sionistas de extrema-direita exerçam maior pressão para a anexação da Cisjordânia. Na sua visão, o discurso do presidente Trump anteriormente mencionado visa fazer vistas grossas aos assentamentos israelenses?

Não sei se ele [Trump] quis dizer isso ou não, mas uma coisa é certa: o fato de o senhor Trump ter dito que tratava os palestinianos e Israel como se fossem iguais nas negociações, não é verdade. Israel é considerado o oitavo exército mais forte no mundo, e pode usar essa força como está fazendo o tempo todo, ditando sua vontade de contra os palestinos ocupados oprimidos. 

Ao deixar que ambos os lados decidam, apenas Israel pode decidir enquanto os Estados Unidos ou outro mediador forte não agir de forma justa e correta, para pressionar Israel a respeitar o direito internacional.

Como podemos obter um justo processo de paz, quando ambos os lados sobre a mesa são um ocupante opressor e um indefeso ocupado?!


Por que Israel e os palestinos não podem decidir sozinhos a questão? Por que os palestinos precisam de uma terceira parte para obter um acordo?

Israel parece estar determinado a ir até o pior e mais horrível modelo de apartheid, combinando ocupação, conquista de terras e limpeza étnica enquanto desempenhando o papel de vítima crônica, e desfruta do apoio incondicional dos Estados Unidos. 

Os palestinos já tomaram a decisão histórica ao reconhecer o Estado de Israel em mais de dois terços da Palestina histórica, enquanto Israel assina acordos e depois os viola. 

Os palestinos são a parte ocupada e oprimida que exige a criação de seu Estado, e a independência como qualquer outro país livre. Uma terceira parte, que seja efetivamente justa pode funcionar como uma obrigação, a garantia de que Israel cumpra e respeite os acordos que assina. 

Israel controla efetivamente toda a terra palestina, e todos os aspectos da vida local. Assim, a existência de uma terceira parte é fundamental para alcançar justiça e paz. Há dezenas de resoluções internacionais e resoluções do Conselho de Segurança da ONU que Israel continua violando, de maneira que há a necessidade de uma terceira parte para que este pesadelo da humanidade chegue a um fim, de modo rápido e justo.

Na verdade, a situação continuará piorando, os assassinatos cometidos por Israel contra os palestinos a menos que o mundo livre desperte para o fato de que a ocupação corrompe não só o mundo livre, mas também Israel. 

Lembre-se de Tom Hurndel (estudante britânico de Fotografia, pacifista contra a ocupação israelense em terras palestinas assassinado pelo Exército de Israel com um tiro na cabeça em Gaza, em 2004). Israel nem sequer pensa duas vezes para matar qualquer não-israelense, sem limitar isso apenas aos palestinos. O Exército que mata civis feridos enquanto estão sob seu controle, e depois considera o soldado assassino um herói nacional e até mesmo pede aos alunos que usem uniforme militar em solidariedade ao assassino... 

Isso tudo só pode terminar com esforços de intervenção sinceros e justos, que observem o direito internacional e os princípios de integridade.


Qual sua avaliação da possibilidade colocada pelo presidente Trump, de levar a Embaixada norte-americana de Tel Aviv a Jerusalém?

Jerusalém não é uma cidade "contestada", é uma cidade ocupada conforme reconhecido pelo direito internacional, pela ONU e por todos os países do mundo, incluindo os Estados Unidos.

Mudar a Embaixada tem sido repetidamente adiada porque os Estados Unidos compreendem bem as implicações políticas de tal movimento. 

Os Estados Unidos têm estado no monopólio do apoio ao processo de paz nesta região, que se baseia na ideia de duas soluções estatais e no estabelecimento de um Estado palestino independente ao longo das fronteiras de 1967. 

Os Estados Unidos compreendem bem que, ao mudar a Embaixada à Jerusalém ocupada, significará o fim do processo de paz que eles mesmos apoiam, uma questão que os Estados Unidos insistiram fortemente em apoiar. 

Falando na linguagem dos interesses, os Estados Unidos compreendem que tal movimento não pode servir ao interesse de ninguém, exceto ao de Israel.

A maioria das guerras e das crises na região tem uma forte ligação a Jerusalém e em se acabar com a ocupação israelense, os Estados Unidos são plenamente conscientes disso e estão cientes também de que a mudança da embaixada norte-americana só servirá para desestabilizar a situação, já delicada nesta parte do mundo. 

Pessoalmente, espero que os Estados Unidos adiem a mudança da Embaixada até que uma solução seja encontrada para o conflito, ou simplesmente desistam do envolvimento no processo de paz, o que eu não acredito que seja uma boa opção para os Estados Unidos.


Quais os crime cometidos por Israel contra os palestinos?

O preconceito e ou a negligência, ou a ignorância da mídia ocidental sobre a Causa Palestina é bem conhecida. Houve vários incidentes recentemente, como o assassinato cometido pelo Exército israelense contra Abdul Fattah Elsharif em Hebron (em 24 de março de 2016), embora ele estivesse sangrando e sob controle no chão. 

Muitos meios de comunicação ocidentais simplesmente se concentraram no farsante julgamento de Israel do soldado assassino israelense ,e mostraram-no como um menino bobo e ignorante, em vez de mostrar seu verdadeiro caráter terrorista e o incitamento militar ao assassinato entre os soldados israelenses. Esse soldado foi condenado a 18 meses de prisão, embora ainda esteja em liberdade. 

A farsante sentença de prisão é mais vergonhosa e mais criminosa quando comparada às penas de prisão sentenciadas pelo mesmo tribunal israelense contra crianças palestinas, condenadas a vários anos apenas por alegar que jogaram pedras no Exército mais poderoso do mundo. 

A mídia ocidental faz muito pouco para cobrir os muitos assassinatos de mulheres e de crianças palestinas em postos de controle israelenses, e ignorou até mesmo vídeos de soldados israelenses fincando facas perto dos corpos de crianças palestinas depois de tê-las assassinado sob alegação de que haviam atacando os soldados.


De modo geral, qual sua avaliação da cobertura da mídia ocidental em relação ao conflito israelo-palestino?

Vejo-a de maneira negativa, considerando exemplos intermináveis ​​de se usar a situação de ocupação e a falta de controle palestino nas fronteiras, de maneira que você vê muitos desses meios simplesmente invadindo os territórios palestinos sem atender aos requisitos palestinos oficiais para jornalistas internacionais. 

A mídia ocidental está fazendo muito pouco para lançar luz sobre a incitação israelense ao assassinato e à matança dos palestinos nas escolas israelenses. Em vez disso, essa mídia se concentra muito nas acusações israelenses contra as escolas palestinas, as mesmas escolas que Israel está demolindo e destruindo.

O muro de separação racista israelense que separa a maioria da Cisjordânia ocupada e só deixa os cidadãos palestinos longe de suas terras, esperando que eles finalmente saiam de suas terras após Israel ter restringido suas fazendas, a mídia ocidental tal omo a AFP (American Free Press) publicou uma foto denominada "70 muros ao redor do mundo, protegendo as fronteiras nacionais", incluindo a parede israelense. A agência de notícias simplesmente ignorou a opinião consultiva do tribunal de Haia que considerou o muro israelense um crime que deve ser removido, e proibido à comunidade internacional de facilitar ou reconhecer esse crime. 

O Estado da Palestina pediu a muitos desses meios de comunicação que visitassem prisioneiros palestinos em Israel, mas eles recusaram isso na maioria dos casos ou publicaram coisas totalmente distorcidas ou tendenciosas em relação à criminosa ocupação israelense. 

Israel tem instalado portões na entrada de cada comunidade palestina, e os fecha de acordo com os caprichos de seus criminosos oficiais militares esperando que os palestinos deixem seu país, mas a mídia ocidental raramente escreve sobre o sofrimento dos palestinos por causa dessas restrições, ou o sofrimento das mulheres que devem dar à luz nesses portões enquanto esperam que esses soldados lhes autorizem a ir aos hospitais.


Fale um pouco mais sobre as condições de vida em Gaza e na Cisjordânia.

Em Gaza, como mencionei anteriormente, Israel opera um sistema racista de restrição calórica através da qual, reconhecidamente, Israel permite que a comida entre em quantidades suficientes para que as pessoas permaneçam em uma condição de vida miserável. 

Em Gaza você não pode viajar por nenhum motivo, inclusive por questões médicas ou envolvendo estudos. Israel raciona o fornecimento de combustível para geração de eletricidade, a fim de limitar o fornecimento de energia em até quatro horas por dia. A mesma coisa aplica-se para materiais de construção, fundamentalmente necessários para reconstruir as moradia devastadas pelos bombardeios de Israel, destruídas nas várias guerras travaradas contra Gaza.


O professor Avi Shlaim observou no mês passado, na rede de notícias catari Al-Jazeera: "Infelizmente, os palestinos são prejudicados pela fraca liderança e pela rivalidade interna entre Fatah e Hamas". Sua opinião sobre a política interna entre os palestinos, por favor.

A liderança palestina é limitada pelas restrições da ocupação israelense, já que nenhum líder palestino pode fornecer combustível para a eletricidade em Gaza sem o consentimento do Exército de ocupação israelense, por exemplo. 

A liderança palestina tem pressionado por apoio internacional a fim de acabar com a ocupação israelense, e todos sabemos que tudo começa ou termina no Conselho de Segurança da ONU. Porém, a liderança palestina conseguiu expandir o reconhecimento internacional do Estado da Palestina e a solidariedade com os palestinos aumentando a conscientização da opinião pública internacional sobre esta questão; tome como exemplo neste sentido os vários mandados de prisão contra líderes israelenses em diferentes países, e o crescente boicote contra Israel.

Sim, a rivalidade interna Fatah-Hamas está afetando negativamente a Causa Palestina, mas não se deve esquecer as intervenções israelenses e internacionais nesta questão tal como a limitação do potencial de auto-restauração palestina por meio de restrições à liderança ou ao público palestino, incluindo a capacidade de realizar eleições, reconstruir casas destruídas, e estabelecer uma abrangente vida democrática.


Qual a solução para o conflito?

Não se pode ter ocupação ilegal e crimes em curso, esperando que este conflito seja resolvido. Israel atua em flagrante violação ao direito internacional e continua desperdiçando tempo e oportunidades para a paz. 

Os palestinos já fizeram uma concessão histórica e reconheceram Israel, mas Israel continua pedindo mais e não faz nada para atingir o mínimo palestino, que é um estado soberano ao longo das fronteiras de 1967. 

Israel deve cumprir as intermináveis ​​resoluções internacionais que pedem o fim do conflito com base nessa posição, caso contrário Israel está simplesmente avançando em direção a um regime de apartheid, Estado este que, aliás, já existe.


A criação de dois Estados é o ideal para ambas as partes?

Sim, acredito na solução de dois estados onde o Estado democrático Independente soberano da Palestina pode prosperar, viver em paz e contribuir para a estabilidade e a paz internacionais.


E por que não um único Estado onde os palestinos retornem à terra de onde foram expulsos, e convivam todos, judeus e palestinos, em um sistema de votação democrático?

Lendo o recente relatório da ONU da ESCWA (United Nations Economic and Social Commission for Western Asia), em que o secretário-geral da ONU ordenou cancelá-lo antes que o secretário-geral da ESCOWA Rima Khalaf tenha sido demitido, constata-se como Israel opera como um regime de apartheid descarado. 

Na Palestina histórica, os palestinos podem fazer uma grande maioria, mas você acha que os Estados Unidos e o Ocidente permitirão isso? Em poucas palavras, a resposta é: o racismo israelense não permitirá isso.


Quais os principais obstáculos para um acordo justo, e para as consequentes soluções?

Há apenas um obstáculo: o desrespeito israelense ao direito internacional que exige o fim da ocupação israelense e o estabelecimento do Estado independente da Palestina, através das fronteiras de 1967. 

Este desrespeito israelense ao direito internacional é certamente injustamente blindado e apoiado pelos Estados Unidos, e vários países aliados aos Estados Unidos, como eu já disse.

O que se poderia esperar dos líderes árabes de agora em diante, no sentido de se obter uma solução definitiva para a Questão Palestina?

Muitos dos líderes árabes estão altamente ocupados com suas questões internas, apesar de muitos deles continuarem apoiando a Causa Palestina. 

Assim, esperamos que os países árabes reforcem o apoio nos fóruns internacionais, incluindo a ONU, e façam uso de suas relações com os Estados Unidos e outros países para garantir uma situação mais equilibrada e urgente para o fim desta ocupação israelense.

 


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