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'A verdade e a justiça sempre vencem o esquecimento e o silêncio'

28.04.2017
 
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'A verdade e a justiça sempre vencem o esquecimento e o silêncio'

Restituído o filho de Iris Garcia Soler e Henrique Bustamante, sequestrados e desaparecidos durante última ditadura cívico-militar na Argentina, nascido na ESMA

Tradução de Edu Montesanti

Avós da Praça de Maio tem a alegria de comunicar o restituição do filho de Iris Garcia Soler e Enrique Bustamante, desaparecidos em 31 de janeiro 1977, durante a última ditadura cívico-militar. 

No momento do sequestro, Iris estava grávida de três meses. Ligou para seus pais para dizer que os visitaria, mas em seguida cancelou o encontro e sua família nunca mais ouviu falar dela, nem do seu parceiro e nem da criança deve ter nascido em julho de 1977. 

Graças à perseverança da nossa pesquisa e do trabalho da Comissão Nacional para o Direito à Identidade (Conadi), hoje o neto 122 pode conhecer a verdade de sua origem.

Os Pais

Iris Nelida nasceu em 15 de maio de 1952 na cidade de Mendoza. Estudava Sociologia da Universidade Católica Argentina (UCA), e sua família e amigos a chamavam de "Susuki". Enrique nasceu em 5 de Junho de 1951, e era conhecido como "Baby". 

Iris começou suas atividades na Juventude Universitária Peronista (JUP), e logo exerceu a militância em parceria com Enrique na organização Montoneros. Lá, seus colegas a conheciam como "Tita", "Pajarito" ou "La Gallega", e a ele como "El Lobo" ou "El Chamaco".

Ambos foram sequestrados pela Polícia Federal na pensão onde viviam, na cidade de Buenos Aires, na rua Tacuarí, número 400. Foram vistos no centro clandestino de detenção "Club Atlético" e, de acordo com testemunhos de sobreviventes, soube-se que Henry foi levado à ESMA e, depois, retornou ao Atlético. Iris permaneceu no Atlético até maio de 1977, quando foi levada à ESMA para dar à luz. Seus companheiros de prisão a chamavam de "la Lobita". Isso mostra a coordenação repressiva da marinha Argentina com outras forças de segurança, neste caso com a Polícia Federal Argentina.

Por outro lado, testemunhos de sobreviventes da ESMA notaram que "Tita" tinha dado à luz um menino em julho de 1977, e que chegou a tê-lo em seus braços. A diversidade de apelidos e testemunhos fez com que se levasse muito tempo para identificar que "Tita" e "la Lobita" - a sequestrada grávida e a outra, que havia dado à luz na Esma - eram a mesma pessoa.

A Investigação

A denúncia sobre a gravidez e o desaparecimento forçado de Iris Nélida García havia sido realizada por seu pai, Manuel García. Ao mesmo tempo, da Avós da Praça de Maio, graças ao testemunho de Nilda Orazi e de outros sobreviventes da ESMA, ficou-se sabendo de uma jovem mulher grávida apelidada de "la Lobita" que havia sido transferida do centro clandestino Club Atlético à ESMA, onde foi levada para dar à luz. Mas as peças se encaixariam muito mais tarde.

Em 2004, o Conadi começou a trabalhar para elucidar a identidade de duas mulheres. Uma delas era apelidada de "Tita", e tinha sido vista por diferentes libertados do Atlético; a outra, "la Lobita", tinha sido vista na ESMA.

Através da investigação, soube-se que um dos apelidos de Iris era "Tita", de maneira que se determinou a conexão com a grávida vista no

Atlético. Mais tarde, a identidade de seu companheiro "el Lobo" tornou-se conhecida, e descobriu-se que não estava denunciado como desaparecido. O apelido de Enrique permitiu determinar que Iris era "la Lobita" vista na ESMA.

No final de 2004, uma pessoa libertada da Escola de Mecânica da Armada, que havia militado no mesmo campo do casal, conseguiu identificar ao "Lobo" e "la Lobita" ou "Tita", como Enrique Bustamante e Iris Nélida García. Desta forma, foi possível incorporar-se um novo caso para o no Banco Nacional de Dados Genéticos (BNDG). No entanto, até aquele momento não havia familiares de Enrique Bustamante para serem contactados, uma vez que não estava denunciado como desaparecido e seus pais tinham morrido. Apenas em 2010, uma prima procurou o Ministério dos Direitos Humanos para obter informações de Enrique, sendo então possível fazer a denúncia e incorporar o grupo familiar ao BNDG.

Vale ressaltar que tanto o desaparecimento de Iris como a apropriação de seu filho estão sendo julgados no tribunal de crimes da ESMA, que teve início em 2013, diante do Tribunal Oral Penal no Criminal Federal No. 5, da Capital Federal.

A Procura

Diante de inúmeras reclamações recebidas pelas Avós, a filial de Córdoba decidiu entrar em contato, através de sua equipe de aproximação, com um jovem que era presumivelmente filho de desaparecidos. O homem concordou em realizar voluntariamente testes de DNA, e no último dia 18 de abril o BNDG informou ao Conadi que ele é o filho de Iris García e de Enrique Bustamante.

Esta nova restauração é a prova de que a verdade e a justiça sempre vencem o esquecimento e o silêncio. Levou muitos anos para que se pudesse determinar a identidade de Iris e de Enrique, e muitos mais para encontrar seus parentes que não tinham conhecimento da existência de uma criança roubada, a quem haviam roubado a identidade. O próprio neto teve que esperar que lhe dissessem que poderia ser filho de desaparecidos para conhecer sua origem.

Aqui está a prova de que os julgamentos foram e continuam sendo uma ferramenta fundamental, e que o Estado deve acompanhar as políticas públicas em relação ao processo de Memória, Verdade e Justiça. À sociedade, pedimos que continue nos ajudando a encontrar nossos netos.

Neste ano comemoramos 40 anos de busca, e centenas de famílias anseiam dar o abraço em seu ente querido. Por favor, quebremos o silêncio e não deixemos em dúvida aos mais de 300 homens e mulheres que ainda não sabem quem eles.

 


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