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Fidel Castro: A política cínica do império

27.05.2008
 
Pages: 123
Fidel Castro: A política cínica do império

O que afirmou?

NÃO seria honesto que eu guardasse silêncio depois do discurso de Obama, na tarde de 23 de maio, perante a Fundação Cubano-Americana, criada por Ronald Reagan. Escutei-o, assim como fiz com o de McCain e o de Bush. Não guardo rancor a sua pessoa, porque não foi responsável pelos crimes cometidos contra Cuba e contra a humanidade. Se o defendesse, faria um enorme favor a seus adversários. Por isso, não temo de criticá-lo e de expor com franqueza meus pontos de vista sobre suas palavras.

O que afirmou?

"No decurso de minha vida houve injustiça e repressão em Cuba, e nunca, durante minha vida, o povo conheceu a verdadeira liberdade; nunca, durante duas gerações, o povo de Cuba experimentou uma democracia… não temos visto eleições durante 50 anos… Nós não vamos suportar essas injustiças, todos nós, juntos, vamos conseguir a liberdade de Cuba," disse aos anexionistas e prosseguiu: "Essa é minha palavra. Esse é meu compromisso. …é hora de que o dinheiro estadunidense faça com que o povo cubano seja menos dependente do regime de Castro. Vou manter o embargo…"

O conteúdo das palavras deste forte candidato à presidência dos Estados Unidos, isenta-me da necessidade de explicar o porquê desta reflexão.

O próprio José Hernández, um dos dirigentes da Fundação Cubano-Americana, que Obama elogia em seu discurso, era o proprietário do fuzil automático calibre 50, com mira telescópica e raios infravermelhos apreendido por acaso com outras armas mortíferas, durante sua transportação pelo mar rumo à Venezuela, onde a Fundação planejou assassinar quem está escrevendo isto, numa reunião internacional, realizada em Margarita, estado venezuelano de Nueva Esparta.

O grupo de Pepe Hernández desejava voltar ao pacto com Clinton, que o clã de Mas Canosa traiu, dando, mediante a fraude, a vitória a Bush em 2000 porque tinha prometido assassinar Castro, assunto que todos aceitaram com vontade. São conluios políticos próprios do sistema decadente e contraditório dos Estados Unidos.

O discurso do candidato Obama pode se converter numa fórmula de fome para a nação, as remessas como esmolas, e as visitas a Cuba como propaganda para o consumismo e o modo de vida insustentável que o sustenta.

Como vai encarar o gravíssimo problema da crise alimentar? Os grãos devem ser distribuídos entre os seres humanos, os animais domésticos e os peixes, que ano após ano são cada vez mais pequenos e mais escassos nos mares excessivameente explorados pelos grandes navios de pesca de arrastão, que nenhum organismo internacional foi capaz de deter. Não é fácil produzir carne a partir do gás e do petróleo. O próprio Obama superestima as possibilidades da tecnologia no combate à mudança climática, embora esteja mais ciente que Bush dos riscos e do escasso tempo disponível. Poderia consultar Gore, que também é democrata e deixou de ser candidato, porque sabe muito bem ao ritmo acelerado que aumenta o aquecimento. Seu mais próximo adversário político embora não candidato, Bill Clinton, perito em leis extraterritoriais como a Helms-Burton e a Torricelli, pode prestar assessoria num tema como o bloqueio, que prometeu pôr fim a ele e nunca o cumpriu.

Como foi que se expressou em seu discurso de Miami o que, sem dúvida, do ponto de vista social e humano, é o mais avançado candidato à presidência nos Estados Unidos? "Durante 200 anos" ―disse― "os Estados Unidos esclareceram que não vamos suportar a intervenção em nosso hemisfério, contudo, devemos reparar que existe uma intervenção importante, a fome, as doenças, o desespero. Do Haiti ao Peru podemos fazer melhor as coisas e devemos fazê-lo, não podemos aceitar a globalização dos estômagos vazios…" Magnífica definição da globalização imperialista: a dos estômagos vazios!

Devemos agradecer-lhe isso; mas há 200 anos, Bolívar lutou pela unidade da América Latina e há mais de 100 anos, Martí entregou sua vida combatendo contra a anexação de Cuba aos Estados Unidos. Então, qual a diferença entre o proclamado por Monroe e o que, dois séculos depois, proclama e reivindica Obama em seu discurso?

"Teremos um enviado especial da Casa Branca, como o fez Bill Clinton" ―expressou quase ao concluir― "…vamos ampliar o Corpo de Paz e vamos pedir a mais jovens que façam que nossos vínculos com as pessoas sejam mais fortes e, talvez, mais importantes. Podemos forjar o futuro, e não deixar que o futuro nos forje." É uma bela frase, porque admite a idéia, ou pelo menos o temor, de que a história faz os personagens e não o contrário.

Os atuais Estados Unidos não têm nada a ver com a declaração de princípios de Filadélfia, formulada pelas 13 colônias que se revoltaram contra o colonialismo inglês. Hoje constituem um império gigantesco, que não passava naquele momento pela mente de seus fundadores. Porém, nada mudou para os indígenas e os escravos. Os primeiros foram exterminados à medida que a nação se estendia; os segundos continuaram sendo objeto de leilões nos mercados ―homens, mulheres e crianças― durante quase um século, apesar de "todos os homens nascerem livres e iguais", como afirma a declaração. As condições objetivas no planeta foram favoráveis para o desenvolvimento desse sistema.

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