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Clima é pra lavoura; golpe exige oportunidade!

26.07.2007
 
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Clima é pra lavoura; golpe exige oportunidade!

Uma parcela da classe média bem intencionada, porém equivocada, muitas vezes entende e expressa legítima indignação contra injustiças, participa de movimentos pró direitos humanos, consterna-se com vítimas de crimes hediondos e protesta contra as falcatruas de políticos e empresários que são pegos com a mão grande na botija, saqueando os cofres públicos.

Fernando Soares Campos


Uma parcela da classe média bem intencionada, porém equivocada, muitas vezes entende e expressa legítima indignação contra injustiças, participa de movimentos pró direitos humanos, consterna-se com vítimas de crimes hediondos e protesta contra as falcatruas de políticos e empresários que são pegos com a mão grande na botija, saqueando os cofres públicos. Porém, a despeito desse esforço de exercício da cidadania, esta camada da população geralmente busca justificativas para a instauração da pena de morte, a redução da maioridade penal e até para um “providencial” golpe militar que “restabeleça a ordem”, em “breve ditadura”. “Somente pra colocar ordem na casa”, tentam justificar.


A classe média brasileira (acho que em todo o planeta) geralmente confunde sistema capitalista, liberdade de mercado, com democracia. Apesar de estarmos tratando de uma classe, referimo-nos à mentalidade predominante em muitos indivíduos que formam este estrato social, não estou tratando propriamente de qualquer orientação ideológica adotada pela classe média brasileira, mesmo porque tal enfoque exigiria uma complexa análise de fatores que influenciam o comportamento de grupos. Refiro-me ao indivíduo que aposta numa tal mobilidade social, uma ascensão individual, baseada em méritos pessoais, num sistema capitalista que nada tem de democrático. Não dá pra confundir um oba-oba consumista, ou uma liberdade de sofrer e protestar contra o sofrimento, com democracia.


Entre as imagens que me causam profundo pesar, a mais perturbadora é a tomada aérea de favelas como o Complexo do Alemão, aqui na maravilhosa Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Citei do Complexo do Alemão como exemplo, mas não isolado, é que este complexo de favelas sempre me impressionou mais que todas as outras. É olhando para aqueles aglomerados humanos momentos que me lembro do sensacionalismo que se faz quando da deserção de cubanos.

Deserção sim, pois milhões de brasileiros marginalizados pelas leis do capitalismo insensível, se tivessem verdadeiro conhecimento de como vivem as pessoas em Cuba, diriam que os sujeitos estão desertando de uma revolução que dura 50 anos. Cuba tem pouco mais de 11 milhões de habitantes; o Brasil tem cerca de 30 milhões de pessoas vivendo em condições que beira a miséria. Além desses, no nosso país, a condição de pobre que faz uma razoavelmente boa refeição diária já coloca uma família na faixa dos “privilegiados” de classe “D”.


Por que Lula seria o culpado de tudo?


A classe média reage, em alguns casos, ou sob alguns aspectos, talvez até involuntariamente, sob o bombardeio midiático que, à falta de certos fantasmas, como a velha ameaça do “comunismo ateu”, a instiga com “monstros virtuais” do tipo de Hugo Chavez “ditador”, Evo Morales “usurpador”, Lula “presidente analfabeto”. Isso entre tantas outras artimanhas. Na verdade, onde o governo Lula esteja mesmo errando, nem sempre tal fato desagrada os golpistas.
Se Lula amadureceu e não adotou alguns dos antigos planos do seu partido, os golpistas (direita conservadora e extrema esquerda eterna oposição, feliz com seus carguinhos políticos) gritam: “Olha lá, traidor!”


Quando Lula se negava a fazer coligação com as diferentes correntes políticas, mesmo com os “bem comportados” quadros centristas, chamavam-no de “purista”, cobravam dele uma posição moderada, tolerante. No momento em que Lula resolveu fazer alianças que atendessem idéias e aspirações num âmbito interpartidário, tentando o tão sonhado governo de coalizão, acusaram o ex-metalúrgico de compactuar com as elites dos setores econômico-financeiros e com as velhas raposas da política nacional.


Diziam que Lula no governo iria perseguir seus antecessores e, vingativo, mandaria investigar até o momento do parto de seus desafetos. Lula resolveu trabalhar, restabelecer a moral no serviço público e atender às necessidades mais urgentes dos verdadeiros necessitados. Ao invés de chorar o leite derramado, Lula decidiu fazer o país produzir mais leite, carne, pão, manteiga, feijão, soja, carros, eletrodomésticos, combustíveis...


Vivíamos afirmando que neste país só se prendia ladrão de galinha. O governo Lula resgatou uma Polícia Federal, que chegou à beira da falência; fez, até agora na medida do possível, o que qualquer país sério deve fazer: mandou pra cadeia milhares de criminosos que durante muitos anos circularam impunes. Se os indivíduos conseguem se safar e protelar seus julgamentos até a prescrição de seus crimes, o governo Lula não pode ser responsabilizado pelas leis que esses mesmos corruptos elaboraram e nelas se apóiam há décadas!


Existe clima para golpe militar?

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