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Líbia, infra-estruturas civis sob ataque e a implacável guerra informativa

23.04.2015
 
Líbia, infra-estruturas civis sob ataque e a implacável guerra informativa. 22049.jpeg

O presente trabalho surge das notas de viagem que compilei enquanto viajava na Líbia em guerra, observando de perto a situação na sua parte ocidental que se estende da fronteira com a Tunísia até Tripoli. Durante este processo, assisti à conferência internacional "Hands Off Libya!" no hotel Bab Al Bahr em Tripoli. O evento foi organizado pela Organização Nacional da Juventude Líbia e pela Fundação Stop The War, contando com a ajuda do Conselho Económico Social e Cultural da União Africana, do Conselho da Juventude Árabo-Africana, do Fórum da Juventude Africana Para a Paz e da União da Juventude Africana, tendo atraído delegados de partidos políticos e ONGs de 17 países.

 Leonid Savin 

A conferência criou um grupo de contacto internacional encarregue de fornecer informação imparcial acerca da situação na Líbia à comunidade internacional, de mobilizar a opinião pública mundial e de equacionar várias opções para deter a agressão da NATO. A conferência foi inaugurada a 17 de Abril. Na véspera da abertura, os delegados passearam por Tripoli, visitando a Praça Verde onde diariamente se reúnem apoiantes pró-Khadafi, e inspeccionaram a residência de Khadafi, que foi recentemente alvo de um ataque aéreo da NATO (saliente-se, o local fora também bombardeado em 1986). Também testemunhamos as devastações causadas pelos ataques da NATO a um conjunto de outros locais. Os relatos da comunicação social de que os insurgentes na Líbia são ocasionalmente vítimas de fogo amigo por parte da Força Aérea da NATO confirmam indirectamente as alegações do governo líbio de que de facto a NATO tem como alvo infra-estruturas civis. O plano inicial da NATO para a ofensiva contra a Líbia colapsou de forma evidente, assim a aliança teve que mudar para a táctica que empregou contra a Jugoslávia, destruindo toda a gama de infra-estruturas do país e pondo toda a população civil sob pressão em vez de limitar os ataques às forças armadas envolvidas no combate...

Em perigo sistema de abastecimento de água

Se o uso desta táctica persistir, presumivelmente o sistema único de abastecimento de água da Líbia, composto por reservatórios subterrâneos e uma extensa rede de túneis, será danificado. Desde o princípio, a NATO usou munições de urânio empobrecido contra a Líbia, embora os estudos confirmados das Nações Unidas sobre o impacto de armas similares na Sérvia e na Bósnia tenham revelado consideráveis e persistentes níveis de contaminação radioactiva.

Os sistemas de defesa aérea líbios estão situados por toda a Tripoli. De facto, um deles estava localizado precisamente ao lado do hotel que albergava a conferência. Tornam-se audíveis à noite quando têm início os raids aéreos da NATO. Uma parte da população civil da Líbia é também portadora de armas e ajuda o exército a patrulhar as ruas de Tripoli. O moral da população é patentemente alto, e se a NATO se decidir por uma ofensiva terrestre, sem dúvida que sofrerá sérias baixas.

Mesmo a parte da Líbia onde o apoio a Khadafi é praticamente uniforme é continuamente bombardeada pela guerra informativa. A Al Jazeera do Qatar, a CNN e a BBC inundam as audiências com críticas ao regime de Khadafi e - às claras ou implicitamente - expressam o seu apoio aos rebeldes, enquanto que aos meios de comunicação oficiais líbios lhes falta claramente o potencial para responder com uma campanha de proporções comparáveis. Campos de refugiados decorados com as bandeiras monárquicas dos rebeldes estão localizados na parte norte da fronteira entre a Líbia e a Tunísia, na proximidade do posto de controlo de Ras Ajedir, uma área que costumava ser controlada a pente fino pelas forças pró-Khadafi. Não está claro porque é que a Tunísia, que parece continuar a ter relações amistosas com Khadafi, se presta a alojar os seus adversários.

De acordo com relatos que neste momento são difíceis de verificar, os petroleiros que os rebeldes enviaram para estabelecer a credibilidade do seu controlo da situação na parte da Líbia que controlam foram na realidade abastecidos no Qatar. Os rebeldes conseguiram capturar um grande número de veículos blindados em depósitos do Exército, mas parecem não ter ideia de como os usar. Nem tampouco demonstram ter aptidão para assegurar condições de vida decentes nas regiões sob o seu controlo, onde a população local sofre permanentemente faltas de abastecimento eléctrico e de água, sendo que têm sido reportados casos frequentes de pilhagens. Há imagens de matanças de soldados indefesos do Exército de Khadafi, nas quais se incluem decapitações e imolações pelo fogo.

Apenas a NATO impede as forças de Khadafi de suprimirem a revolta num espaço de tempo relativamente curto. A principal via de trânsito líbia é uma auto-estrada costeira, onde os veículos blindados são de todo visíveis e facilmente se tornam presa dos raids aéreos da NATO. Em resultado disto, o Exército de Khadafi perdeu muitos dos seus veículos pesados, embora pela mesma razão os insurgentes não possam avançar pela auto-estrada, uma vez que ficariam vulneráveis ao fogo de artilharia. As dunas de areia que a envolvem provaram ser impenetráveis após uma série de tentativas de ataques efectuadas pelos rebeldes.

Numa manobra atempada, o governo líbio desconectou o acesso à Internet em todo o país para contrariar os esforços de manipulação da opinião pública com a ajuda das redes sociais. Neste momento as redes de telemóveis da Líbia estão sob o controlo absoluto do governo.

O papel dos operacionais da Al Qaeda nos acontecimentos que decorrem na Líbia é impossível de negar. Az Zawiyah, localizada apenas a 40 quilómetros a Oeste de Tripoli, foi a primeira cidade líbia a sofrer os massacres de grupos extremistas que a aterrorizaram durante um mês, enquanto a vida decorria com normalidade a apenas 10 quilómetros de distância. Após um período de incoerência inicial, a polícia e as forças armadas do governo empregaram a força para expulsar os terroristas da cidade, ainda hoje marcada pelos combates de então. A informação sobre tais factos é censurada na Líbia e no geral, tirar fotografias em qualquer ponto entre Tripoli e a fronteira com a Tunísia é proibido. A Al Qaeda controla ainda várias cidades a Este de Bengazi e não faz segredo de que planeia a instauração de um califado na área. Supostamente, os militantes da Al Qaeda infiltraram-se na Líbia a partir da Nigéria e do Chade.

No que diz respeito às áreas fronteiriças da Líbia, desde fins de Abril que o governo legítimo controla a maioria das fronteiras do país com o Egipto, o Sudão, a Nigéria e o Chade. A estes dois últimos não lhes interessará a queda do regime de Khadafi uma vez que a sua própria estabilidade depende da da Líbia, a qual serve não só como espinha dorsal da segurança regional como proporciona emprego em larga escala aos migrantes dos países vizinhos.

Fuga para o Ocidente

O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Líbia alega que o conflito foi despoletado por uma conspiração de um grupo de actores políticos de primeiro plano no país. A fuga de vários destes para o Ocidente, onde seguramente detinham bem nutridas contas bancárias, torna a hipótese perfeitamente realista.

A conferência "Hands Off Libya!" aprovou uma declaração realçando o carácter ilegítimo da Conferência de Londres sobre a Líbia e do tristemente célebre Conselho Nacional de Transição líbio. A conferência expressou as suas reservas no que diz respeito à oferta de ajuda humanitária por parte de países da União Europeia e da NATO, uma vez que poderá tratar-se de um disfarce para fornecer armamento aos insurgentes.

Finalmente, não é despiciendo mencionar que os líbios ainda vêem os russos como amigos, embora a Rússia não tenha vetado a corrosiva Resolução 1973 do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Podemos testemunhar essa atitude positiva dentro e fora de Tripoli, mesmo nos postos de controlo, tanto por parte dos civis como dos militares. Esperemos que a posição oficial da Rússia no que diz respeito à Líbia não venha a esbater esse sentimento.

 in Finis Mundi nº 3, Julho-Setembro, 2011.

 


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