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Mas... Obama quer bombardear quem?

16.09.2014
 
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Dia 10/9, o presidente dos EUA Barack Obama ordenou forte escalada na campanha militar contra o Estado Islâmico, declarando que a Força Aérea dos EUA atacaria não só o Iraque, mas também a Síria. Falou de destruir terroristas onde estejam. Como o presidente Bashar al-Assad reagirá à invasão? 

12/9/2014, Lyuba Lulko, Pravda.Ru
http://english.pravda.ru/world/asia/12-09-2014/128517-obama_bombing-0/


Qual, precisamente, é o plano de Obama? Em outros tempos, os EUA fariam ataques apenas pontuais, para proteger pessoal ou prédios de importância vital para os EUA - o consulado em Erbil, escritórios de empresas de petróleo no Curdistão Iraquiano, uma base secreta de forças especiais e da CIA, etc. Agora, os EUA pôr-se-ão a bombardear territórios que os EUA considerem úteis para a ofensiva do exército iraquiano. Obama também propôs bloquear as fontes de financiamento do Estado Islâmico e criar uma ampla 'coalizão' de contramilitantes. Acrescentou que não haverá soldados norte-americanos 'em solo'.

Analistas norte-americanos creem que, para alcançar sucesso sem operação por terra, será indispensável aumentar consideravelmente o número de ataques aéreos. Mas só bombas tampouco bastarão. O principal problema é que as ações dos EUA não encontram nenhum apoio entre a população civis (sunitas) que pagam impostos ao Estado Islâmico e consideram os EUA como "inimigo público n. 1" - como se lê na imprensa dos EUA. Assim sendo, na opinião de vários analistas norte-americanos, implementar no Iraque e na Síria o cenário líbio, não dará certo.

Tampouco o Pentágono acredita no poder dos ataques aéreos. O tenente-general William Mayville, por exemplo, disse, dia 11/8, que o Estado Islâmico estava ganhando impulso persistentemente em todo o Iraque, e que conseguirá sobreviver a ataques das forças de segurança iraquianas e curdas, apesar do ataques aéreos.

"Bombardeios servem para destruir infraestrutura, mas não destrói combatentes, que sabem esconder-se em terreno adverso. Só se derrotam combatentes com coturnos em solo - disse ao jornal Pravda.Ru Azhdar Kurtov, historiador, cientista político e editor-chefe do periódico Problemas de Estratégia Nacional. Segundo o especialista, é claro que os norte-americanos terão de conduzir operação por terra no Iraque e na Síria, se querem mesmo alcançar resultados reais.

A segundo questão é o problema de bombardear a Síria. Obama falou de bombardear territórios controlados pelo Estado Islâmico, não de bombardear áreas tomadas pelas tropas sírias. Do ponto de vista legal, se o Estado Islâmico estiver em território sírio, qualquer ataque contra ele pode ser interpretado como ato de guerra. Os EUA não sabem como o presidente Assad responderá. Segundo o general Jim Poss, ex-diretor da Inteligência da Força Aérea dos EUA, há sérias razões pelas quais políticos norte-americanos não dão sinal de ter pressa alguma para começar a bombardear a Síria: as defesas aéreas sírias estão entre as melhores do mundo, testadas diariamente contra a melhor, indiscutivelmente, força aérea do planeta: os israelenses. Assim sendo, os norte-americanos deve temer baixas pesadas na Síria.

"A questão é definir quem Obama bombardeará na Síria, porque há sérias dúvidas sobre se estará bombardeando militantes, não instalações do governo do presidente Assad que impedem os militantes de chegar a Damasco" - disse ao Pravda.Ru Yevgeny Satanovsky, Presidente do Instituto para Estudos de Israel e do Oriente Médio. Esse especialista prevê que o presidente Assad reagirá imediatamente, no caso de Obama pôr-se a bombardear posições do Exército Árabe Sírio e subúrbios de Damasco.

"Fato é que ninguém derrotará o ISIS, ninguém e, menos ainda, os EUA" - disse Pravda.Ru Mikhail Chernov, cientista político e vice-diretor do Centro de Situação Estratégica. - "Os EUA precisam do que estão fazendo agora para gerar guerra em grande escala, e forçar outros atores a também se envolver - atores regionais e não regionais. Não há bombardeios que destruam o ISIS, e ninguém conseguirá. Os objetivo é forçar outros países a envolverem-se, seja como for - ideologicamente, com recursos, infraestrutura, serve qualquer envolvimento. O objetivo real de Obama talvez seja enfraquecer um pouco o ISIS. Talvez os EUA tenham superestimado a própria importância. Seja como for, só importa aos EUA que a situação sirva como disparador para uma grande guerra no Oriente Médio.

"Quanto ao bloqueio financeiro, o Estado Islâmico recolhe impostos no território que controla militarmente, vende petróleo e recebe ajuda de fundações privadas no Golfo Persa. O petróleo deles é vendido por canais ilegais ou semilegais, inclusive estados árabes aliados dos EUA, dentre os quais a Turquia. Se os EUA quisessem criar qualquer tipo de bloqueio financeiro, já teriam criado há muito tempo" - disse Azhdar Kurtov.

Para Yevgeny Satanovsky, eles vendem petróleo ao preço de $25/barril, de duas a quatro vezes mais barato que os preços mundiais. "Quanto a isso, Obama nada pode fazer. O Qatar financiou, financia e financiará islamistas, e a Arábia Saudita financiará outros islamistas" - diz Satanovsky.

"O ISIS é faca de dois gumes. Por um lado são absolutamente doidos, seus combatentes são selvagens e ferozes em suas ações dentro do Iraque. Por outro lado, são políticos profissionais bem educados, com conexões no ocidente, talvez com origens também ocidentais, e criam a base econômica e financeira para que o Estado Islâmico funcione" - disse Mikhail Chernov. - Será destruído? Duvido, porque eles são garantia de grande suprimento ilegal de petróleo barato, e muitas empresas norte-americanas aproveitam-se disso para obter o petróleo que elas próprias vendem."

Quanto à "ampla coalizão" de fantoches dos EUA, incluirá Canadá, Austrália, Reino Unido e vários estados europeus membros da OTAN, diz Azhdar Kurtov. - "Talvez inclua Ucrânia ou Geórgia, os estados do Báltico, claro - disse Yevgeny Satanovsky. - "Mas de fato a questão de amplíssimas coalizões é absoluto nonsense. Todas essas coalizões falharam em tudo quanto poderiam falhar no Iraque, no Afeganistão. Uma coalizão pode destruir governos centralizados, mas não há 'coalizão' que consiga combater terroristas, nem jamais souberam como fazer tal coisa."

"A Rússia apoiará os EUA, se os EUA lutarem contra o terrorismo" - continuou Yevgeny Satanovsky. - "Mas o presidente Obama vai combater o terrorismo com uma mão e, com a outra, tentará derrubar o presidente Assad. Por que deveria a Rússia dar luz verde a um golpe contra o presidente sírio - que é hoje o único fator-agente efetivo a impedir que a Síria entre em colapso e converta-se em mais um enclave terrorista, como aconteceu à Líbia?"*****

 


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