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O calcanhar de Aquiles dos EUA

15.05.2015
 
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Sábado passado, houve em Moscou um vastíssimo Desfile da Vitória, comemorativo dos 70 anos da rendição dos nazistas alemães ao Exército Vermelho, e da implantação da bandeira soviética no alto do prédio do Reichstag em Berlin. Houve alguns aspectos raros nesse desfile, que gostaria de destacar, porque conflitam com a narrativa da propaganda ocidental oficial. 


Primeiro, não desfilaram só soldados russos, naquele dia: soldados de dez outras nações também tomaram parte, inclusive a Guarda de Honra chinesa e um contingente de Granadeiros da Índia. Dignitários dessas nações lá estavam presentes, e o presidente chinês Xi Jinping e a esposa estavam sentados ao lado do presidente Vladimir Putin, o qual, no discurso de abertura do desfile, alertou contra as tentativas para criar um mundo unipolar - palavras fortes, destinadas declaradamente aos EUA e aos aliados ocidentais dos EUA. 

Segundo, exame rápido do equipamento militar que atravessou pelo chão a Praça Vermelha, ou que a sobrevoou, indica que, exceto a mútua autoaniquilação nuclear, não há muito que os EUA possam lançar contra a Rússia, que a Rússia não consiga neutralizar.

Tudo sugere que as tentativas dos EUA para isolar a Rússia resultaram no exato oposto: se 10 nações, entre as quais a maior economia do mundo, somando 13 bilhões de pessoas, querem deixar de lado as diferenças e se pôr ombro a ombro com os russos para enfrentar as tentativas dos EUA de implantar alguma dominação global, nesse caso é bem claro que o plano dos EUA não tem possibilidade de funcionar. 

A mídia-empresa ocidental só fez repetir que 'líderes ocidentais' não compareceram à celebração, em surto de vaidade ferida ou porque obedecem ordens do governo Obama. Mas seja pelo motivo que for, a ausência só chama a atenção para a irrelevância daqueles 'líderes', seja para derrotar Hitler, seja para comemorar a derrota sobre Hitler 70 anos depois. 

Putin, em seu discurso, contudo, agradeceu especificamente aos franceses, britânicos e norte-americanos pela ajuda para o esforço de guerra. Lamento que não tenha agradecido também aos belgas, que tanto ajudaram em Dunquerque.

Um pequeno detalhe do desfile chamou especialmente a atenção: o ministro da Defesa Sergei Shoigu, budista, nascido na República de Tuva, e um dos mais respeitados líderes russos, que comandou o Ministério de Emergências, antes de assumir o Ministério da Defesa, fez algo que nenhum de seus antecessores jamais fez: no instante de iniciar a cerimônia, antes de pôr o quepe, o ministro fez o sinal da Cruz, à maneira dos russos ortodoxos. Esse simples gesto converteu o desfile, de simples exibição de pompa militar, num ritual sagrado. 

Na sequência, veio a marcha, em passos lentos, com duas bandeiras lado a lado [não começaram lado a lado: a bandeira soviética veio à frente[1]] da bandeira russa, a bandeira que foi desfraldada no topo do Reichstag em Berlim no Dia da Vitória, há 70 anos [a bandeira que foi posta no topo do Reichstag em Berlim é outra, diferente da que desfilou sábado[2]]. A marcha foi acompanhada por uma canção popular durante a 2ª Guerra Mundial. O título? "A Guerra Sagrada". A mensagem é clara: o povo russo e os militares russos outra vez se põem nas mãos de Deus, a serviço de Deus, para sacrificar-se mais uma vez para salvar o mundo das violências de (mais) um império do mal.

Para os que tentem desmentir qualquer dessas ideias, porque seriam propaganda do estado russo, há mais uma coisa que todos têm de saber. Ouviram falar da procissão que se organizou espontaneamente, na qual, depois do desfile oficial, meio milhão de pessoas marcharam por Moscou com retratos de parentes mortos na 2ª Guerra Mundial? O evento recebeu o nome de "O Regimento Imortal" (Бессмертный полк).[3] 

Procissões semelhantes aconteceram em muitas cidades em toda a Rússia, com número estimado de participantes em torno de 4 milhões. A imprensa ocidental ou não noticiou ou apresentou o Regimento Imortal como tentativa de Putin, para provocar sentimentos antiocidentais. Ora! Pura propaganda, isso sim, meus companheiros de viagem espacial, é esse tipo de "cobertura jornalística"! 

Não, não foi propaganda. Foi manifestação entusiasmada, espontânea, de sentimento público genuíno. Quem se dedicar a refletir sobre isso, um instante que seja, logo perceberá que não se pode 'montar' artificialmente cenas desse tipo. E a ideia de que milhões de pessoas prostituiriam a própria morte para finalidades de propaganda é, sinceramente, cínica e insultante.


* * *


Em vez de entrar em colapso silencioso, os EUA resolveram comprar briga com a Rússia. Parece que já perderam a briga, mas permanece uma questão: quantos países a mais os EUA ainda conseguirão destruir, antes de os EUA aprenderem a suportar a ideia de que sua derrota e desintegração são inevitáveis?

Como Putin disse no verão passado, no fórum da juventude Seliger, "Tenho a impressão de que basta os EUA tocarem, que qualquer coisa vira Líbia e Iraque." 

É verdade. Os EUA têm vivido em frenesi de destruição, um país depois do outro. O Iraque foi esquartejado, a Líbia é terra de ninguém, a Síria está convertida em área de desastre humanitário, o Egito, em ditadura militar que executa programa de prisões em massa. 

O mais recente fiasco dos EUA é o Iêmen, onde o governo pró-EUA foi recentemente derrubado, e os cidadãos norte-americanos que não conseguiram escapar a tempo tiveram de esperar que russos e chineses os resgatassem e os despachassem para os EUA. 

Mas foi o fiasco norte-americano anterior ao Iêmen, o fiasco na Ucrânia, que mobilizou os russos, bem como os chineses, que afinal decidiram que os EUA foram longe demais, e que novos passos na mesma direção resultarão em escalada automática. 

O plano dos russos, com chineses, indianos e grande parte do resto do mundo, é preparar-se para guerra com os EUA, ao mesmo tempo em que fazem o possível para evitar qualquer guerra. O tempo está do lado dos pacifistas, porque a cada dia que passa eles se fortalecem, enquanto os EUA só enfraquecem. Mas enquanto esse processo prossegue, os EUA podem "tocar" mais alguns países, convertendo tudo em Líbia ou Iraque. 

A Grécia será a próxima da lista? Ou, quem sabe, jogam sob o trem os estados bálticos (Estônia, Latvia, Lituânia), que são hoje membros da OTAN (quer dizer, cordeiros a serem sacrificados)? A Estônia está apenas a algumas horas de carro da segunda maior cidade russa, São Petersburgo; tem grande população russa; tem capital habitada por maioria russa; e tem governo furiosamente antirrusso. Dos quatro itens, só um não faz sentido algum. Será o próximo, em fase de preparação para a autodestruição? 

Algumas repúblicas da Ásia Central, no sensível 'baixo ventre' da Rússia, também podem já estar maduras para serem também "tocadas" pela vara de condão de desgraças dos EUA.

Não há dúvida possível de que os norte-americanos continuarão a espalhar desgraças pelo mundo, sempre 'tocando' países vulneráveis, exploráveis, pelo maior tempo que consigam. Mas há outra pergunta que se tem de perguntar: os norte-americanos nunca usam a própria vara de condão de desgraças para se autodesgraçarem? Porque, se se pensa bem, o próximo candidato a desgraça extrema com conversão em terra arrasada a bombas, pode ser o próprio país, os EUA eles mesmos. Consideremos essa opção.

Como os eventos em Ferguson, e mais recentemente também em Baltimore, já indicaram, as tensões entre afro-norte-americanos e a Polícia só fazem escalar, a tal ponto que explosões começam a acontecer por todos os lados, cada vez mais prováveis. 

A 'guerra às drogas', nos EUA, foi guerra essencialmente contra homens negros latinos; cerca de 1/3 da população de negros jovens está encarcerada. Os mesmos homens jovens negros norte-americanos estão também expostos a alto risco de serem baleados pela Polícia. A bem da verdade deve-se dizer que a Polícia também está exposta a alto risco de ser baleada por homens jovens negros, o que leva os policiais a viverem com medo e a reagir sem qualquer ponderação ou equilíbrio. 

Com a economia andando a passos firmes rumo ao colapso - perto de 100 milhões de norte-americanos em idade laboral estão desempregados ("fora da força de trabalho", como dizem os técnicos, como se os pobres lá estivessem por vontade própria) - já pode estar bem claro, para parcela sempre crescente da população, que continuar a cooperar com as autoridades deixou de ser estratégia útil: de um modo ou de outro, você sempre acaba ou preso ou morto;  mas você nunca alcança qualquer dos benefícios temporários que advêm de ignorar a lei.

Há uma interessante assimetria na habilidade da mídia-empresa nos EUA para bloquear informações sobre agitação e insurgência civis: se a coisa acontece do outro lado do mundo, então as notícias são, ou cuidadosamente calibradas, ou totalmente suprimidas. (Alguma rede norte-americana de notícias informou sobre o recente reinício dos bombardeiros contra áreas civis, pelos militares ucranianos? Claro que não.) Isso é possível, porque os norte-americanos são notoriamente narcísicos e muitíssimo indiferentes ao resto do planeta, do qual os norte-americanos pouco sabem (e o que pensam que sabem frequentemente está errado). 

Mas se a agitação acontece dentro dos EUA, então os mais variados veículos da mídia-empresa disputam entre eles a coroa do 'noticiário' mais sensacionalizado, para obter maior 'visibilidade' e atrair mais dinheiro de anunciantes. 

A mídia-empresa dominante nos EUA é controlada com mão de ferro por um pequeno grupo de grandes empresas e conglomerados, o que faz da informação nos EUA um só enorme monopólio, mas no que tenha a ver com vender tempo a anunciantes, ainda predominam os princípios do mercado de publicidade.

Assim sendo, há potencial para um ciclo positivo de retroalimentação: mais agitação civil corresponde a 'noticiário' mais sensacionalizado, o qual, por sua vez amplifica a agitação civil, o que permite noticiário ainda mais sensacionalizado. E há um segundo ciclo positivo de retroalimentação: quanto mais agitação civil há (ou é noticiada, mesmo que nem haja), mais a política responde com mais violência mais desequilibrada, o que gera mais indignação e fúria nas ruas, o que amplifica a agitação social. 

Esses dois ciclos de retroalimentação podem continuar a desenvolver-se sem qualquer controle por algum tempo, mas o final, como se viu em todos os incidentes recentes desse tipo, é sempre igual: aparecem os soldados da Guarda Nacional, toque de recolher, lei marcial.

A rápida intromissão dos militares pode parecer meio estranha, considerando que a maioria dos departamentos de Polícia, até nas menores cidades, já foram nos anos recente pesadamente militarizados, e até o pessoal da segurança em algumas áreas de escolas já andam em veículos militares e armados com metralhadoras. Mas a progressão é natural. 

Por um lado, quando as pessoas que habitualmente recorrem à força bruta descobrem que a força bruta não está funcionando, elas naturalmente assumem que não esteja funcionando porque estão usando pouca força bruta, força bruta de menos. Por outro lado, se o sistema de justiça criminal já não passa de travesti e se converteu em matadouro, por que não encurtar a tramitação burocrática e impor logo a lei marcial?

Já há quantidade escandalosamente gigantesca de armas de todos os tipo nos EUA, e mais armas virão, sobretudo agora, quando os EUA estão sendo forçados a fechar bases militares no exterior por falta de dinheiro para mantê-las. E todas essas armas serão usadas, pela mesma razão e do mesmo modo como se passou a usar tantos tijolos vermelhos em Boston. Vocês sabem: começaram a chegar a Boston muitos, muitos tijolos vermelhos, descarregados aqui por navios britânicos, que os traziam como lastro. 

Daí surgiu o ímpeto de fazer alguma coisa com tantos tijolos vermelhos. Mas construir prédios de tijolos é processo difícil, trabalhoso, sobretudo se os construtores vivem bêbados. Então a solução encontrada foi usar os tijolos vermelhos para pavimentar calçadas - coisa que qualquer um faz, mesmo caído de quatro pelo chão. O mesmo vai acontecer com o equipamento militar que está sendo repatriado para os EUA. Será usado, porque aí estará, à mão; e será usado do modo mais estúpido possível: um mesmo povo, uns atirando contra os outros.

Mas coisas ruins sempre acontecem a militares que recebam ordens para matar o seu próprio povo. Uma coisa é andar matando aqueles "cabeças de toalha" [orig. "towel-heads"] em terra distante; outra coisa, bem diferente, é receber ordens para atirar em alguém que pode ser seu próprio irmão que vem pela rua na qual você nasceu e foi criado. Esse tipo de ordens resulta em fragging (soldados que assassinam os próprios superiores), em desobediência e em movimentos de deserção ou de defesa do lado oposto. 

E é aí que as coisas ficam interessantes. Porque, você sabe, se você atira contra, prende, detém ou por qualquer modo abusa de uma população civil desarmada por tempo suficiente, a resposta que fatalmente surge é uma insurgência armada. Não há como as prisões, para organizar insurgências. 

Por exemplo: o ISIS, ou o Califato Islâmico, foi ideado por gente que, antes, trabalhara para Saddam Hussein, durante o tempo em que os norte-americanos os mantiveram presos. Colheram aquela oportunidade para planejar e construir uma estrutura organizacional eficiente; na sequência, quando foram soltos, voltaram a encontrar-se e puseram-se a trabalhar. Manter presos 1/3 dos norte-americanos negros jovens é a melhor maneira de favorecer que eles se organizem e organizem uma insurgência efetiva.

Para ser efetiva, uma insurgência carece de muitas, muitas armas. Aqui, mais uma vez, há um procedimento para adquirir tecnologia militar que já se tornou quase rotina. 

Que armas estão sendo usadas pelo ISIS? Ora, armas norte-americanas, é claro, que os EUA forneceram ao regime, em Bagdá, e que o ISIS capturou como troféus quando o exército iraquiano recusou-se a lutar e se escafedeu. E que armas estão sendo usadas pelos rebeldes houthis no Iêmen? Ora, armas norte-americanas, é claro, que os EUA forneceram ao governo que lá havia e que já foi derrubado, e que era pró-EUA. E que armas estão sendo usadas contra o regime de Bashar al-Assad na Síria? Ora, armas norte-americanas, é claro, vendidas aos terroristas pelo governo ucraniano, que as obteve dos EUA. 

Há um padrão aqui: seja onde for que os EUA armem, treinem e equipem um exército, esse exército tem fortes chances de simplesmente derreter, com as suas armas caindo imediatamente nas mãos dos que precisam delas para usá-las contra os interesses norte-americanos. 

E por que, afinal, esse mesmo padrão não se aplicaria também nas muitas áreas nas quais os EUA já puseram o próprio país sob ocupação militar?

Mais uma vez, é onde as coisas ficam realmente interessantes: uma insurgência bem armada, bem organizada, constituída por e composta de pessoas realmente radicais, gente furiosamente indignada, pessoas que absolutamente nada têm a perder e estão lutando pelo próprio palmo de terra e pelas próprias famílias, e que encontrarão pela frente militares norte-americanos derrotados, desmoralizados, que sempre falharam espetacularmente em absolutamente todos os países que eles "tocaram".

Há quem diga que "a burocracia do establishment é invencível". Mas e se você tiver uma divisão de tanques para controlar as quatro esquinas em torno do palácio do governo, canhões apontados em todas as direções, atirando contra tudo que se mova? E se você tiver infantaria suficiente para tocar a campainha de todas as casas de todos os burocratas-chefes da cidade? Não se alterariam as probabilidades de vitória contra pelo menos uma burocracia de um establishment?

Os EUA talvez tenham de "tocar" mais alguns países, antes de se verem diante desse cenário, mas é provável que (exceto no caso de guerra total) mais dia menos dia o 'feitiço' que os EUA espalham pelo mundo como destruição completa e garantida volte-se contra o 'feiticeiro'. Quando acontecer, todos aqueles países cujos soldados desfilaram pela Praça Vermelha no sábado passado já não precisarão se preocupar com EUA. ***** 

 

12/5/2015, Dmitri Orlov, Club Orlov
http://cluborlov.blogspot.com.br/2015/05/americas-achilles-heel.html  

 


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