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Pablo Vierci: 36 anos escrevendo o livro da tragédia dos Andes

14.12.2008
 
Pages: 1234

V: A travessia do Nando, Roberto e Tintín, alcançando a cimeira da montanha... e logo Nando e Roberto, faz parte intrínseca dessa «parceria com a neve». É uma história quase sem fim, 72 dias. Acontece uma parceria por causa disso. Não trata-se de uma noite de tragédia como o «Titanic». Acho que a travessia final dos três escaladores e logo na fase final os dois, é resultado dessa parceria marcada por princípios extremamente claros como a lealdade, oferecer tudo pelo amigo, ultrapassar as fronteiras dos próprios limites, tocar na frente sempre sem conhecer o resultado, ir á procura dos helicópteros pois eles nunca iam chegar na procura deles.

P: O relacionamento com o arrieiro Chile que encontrou o Nando e Roberto naquele riacho barulhento?

V: Visitei o Sergio Catalán na casa dele, na pré-cordilheira argentina no ano 2007. Do jeito que a turma fala, ele também é um sobrevivente pois seu padrão e muito diferente á esse que possui a sociedade tradicional. Um homem que deixou seu rebanho ao dispor dos pumas tentando ajudar pessoas que ele não conhece. Um homem incrível, leal, produto da montanha, um engrenagem dessa cadeia tão estranha e enigmática que une esta história toda, nesses 72 dias.

P: Conhecendo todos os sobreviventes antes do acidente, sem jogar o termo «maluco» acima da mesa, acham que as personalidades deles mudaram?

V: O objetivo do livro «La sociedad de la Nieve » é mostrar quem são hoje aqueles destaques e testemunhas daquela epopéia. É o leitor do livro esse que vai julgar se eles mudaram ou não. Caso tivessem mudado qual é a orientação que acabaram tendo as vidas deles.

P: O que você lembra na hora que a Rádio Carve ( www.carve850.com.uy ) começou informar a tabela de sobreviventes?

V: Todos esses são fatos que lembro com detalhes precisos, nem só pelo fato em si próprio senão tudo quanto acabou rodeando-o. Lembranças seletivas, às vezes lembrando tudo mas isso ocorre pois tudo quanto a gente consegue lembrar envolve com muita clareza grandíssimas emoções e junto com elas exprimem-se cheiros, a hora do dia, a facho de luz do sol dando um mergulho a traves da janela do meu quarto, e eu chorando e tremendo no entanto iam aparecendo os nomes dessa tabela, pensando naqueles que salvaram-se e aqueles outros que morreram.

P: Tem alguém neste mundo que ache que quatro livros do mesmo assunto é negócio mesmo tentando andado 36 anos?

V: Já tínhamos falado deste assunto mas acho que tem dois livros que envolvem os dezesseis sobreviventes e dois autobiográficos. Este segundo dos 16 era imprescindível, mas também era imprescindível deixar muitos anos passar. O fato de que algumas semanas depois do lançamento, apareça uma edição trás a outra, na Argentina e Uruguai, exprime que, do mesmo jeito que eles falam, estão retornando para o mundo todo uma coisa que não lhes pertence, que é apenas um empréstimo, por ter salvado suas vidas e de jeito especifico para que salvaram suas vidas.

P: Porque escolheram essa sede para o lançamento do livro?

V: Tem símbolos que são muito marcantes. Este fato está carregado de símbolos. O livro só poderia ter sido lançado nesse lugarzinho. Assistiram 850 pessoas além da imprensa do mundo inteiro pois tudo mundo percebeu que isso era um símbolo e ninguém estava querendo deixar de experimentar esse sentimento.

P: No final, regredindo no tempo pois este correspondente tinha apenas oito anos, minha pele arrepia-se mais uma vez pela lembrança daquela data marcante de um dia de dezembro no qual a imprensa uruguaia com extrema felicidade confirmava que dezesseis sobreviventes uruguaios que tinham sumido nos Andes chilenos o dia 13 de Outubro de 1972 voltaram sem o Fairchild F-227 mas com malas lotadas de «garra uruguaia» que fizeram possível aquele «Maracanaço da vida».

Na hora que o tempo começava esquentar em Montevidéu, a orla do meu bairro do peito Malvín vestia-se glamorosa e a areia e água do Rio da Prata e até a própria «Ilha das Gaivotas» convidava aos vizinhos curtir uma caminhada na hora do pôr-do-sol. A cada tarde, a vovozinha dos meus grandes amigos, Roman e Daniel Ruiz de Luzuriaga, proprietária da antiga e famosa «Clínica Dental Yaguarón», era uma das pessoas que gostava andar pela orla desde a Rua Yacó até o Cinema da Praia com os dois netos e eu que com as nossas bicicletas Liggie e Graziella dávamos uma de ciclista ultrapassando e ziguezagueando homens, mulheres, outras crianças e cachorros na procura do número um no pódio virtual.

Foi a hora de voltar para casa. Primeiro trecho do retorno: O cruzamento da orla. Sempre difícil pois nessa hora os carros voltavam desde a região comercial da Cidade Velha e o Centro para Malvín, Punta Gorda e Carrasco e os faróis não existiam. Logo subindo dois quarteirões pela Rua Yacó atingindo a Praça Fabini e assim que a Avenida Rivera ficava perto e a turma começava andar pela Rua Candelaria, (Rua Yacó do outro lado da Pracinha), Nené, a mãe dos meus amigos que correndo e chorando desce pela Av. Rivera pegando Candelaria rumo á orla querendo compartilhar sua grande alegria conosco, que por incrível que pareça já estávamos pertinho e tanto.

Logo vieram os comentários com emoção que ninguém conseguia entender.

Ela falou assim: Encontraram-nos!! Encontraram-nos!!

O quê está falando minha filha? Falou a vovozinha.

A Nené voltou dizer: Encontraram-nos, encontraram-nos...os carinhas do acidente?

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