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Haveria no Brasil de hoje clima para golpe militar?

04.09.2016
 
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Com esta imprensa que temos aí, não duvido que, a qualquer momento, entrevistem alguns generais e os consultem sobre as possibilidades de um iminente golpe de Estado. Eu já vi coisas assim: repórteres perguntando a generais se existia algum golpe em curso no país. Como se algum conspirador admitisse as intenções de golpear. Não estou com isso dizendo que algum general conspira, atualmente, no Brasil, refiro-me à "ingenuidade" de certos profissionais de imprensa. 

Fernando Soares Campos



Conspiração contra um governo (qualquer que seja) é uma constante, é uma atitude comum a oposições de qualquer orientação político-ideológica. Uns mais desleais que outros, mas conspirar é muito comum entre adversários. 

Golpear um governo não depende apenas de "clima" ou "ambiente"; mas, acima de tudo, de oportunidade. E essa oportunidade a oposição brasileira está criando [criou], com o apoio da mídia golpista, pois quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Lembram-se? Os tempos são outros, os métodos talvez também sejam outros, porém não menos violentos. 

Milhares de pessoas já morreram porque não acreditavam em golpe militar iminente. Duvido que, na manhã de 1º de abril de 64, os militantes de esquerda e a população brasileira em geral acreditassem que, naquele mesmo dia, os tanques estariam nas ruas. 

Eu perguntaria aos companheiros chilenos se eles poderiam nos relatar como se sentiam no dia em que bombardearam o Palácio La Moneda e eliminaram o presidente Salvador Allende. Se a população havia sido notificada sobre o "evento". Se os companheiros argentinos, por acaso, receberam algum boletim informativo com uma nota do tipo "Amanhã cedo vamos golpear". Como foi o primeiro dia de matança aí na Argentina, hein? Como estava o clima naquele dia? Muito frio? Chuvoso? Nevasca? Calor? 

O AI-5 do general Costa e Silva, em 68, impôs o fechamento do Congresso Nacional e censura à imprensa. Estabeleceu de vez a ditadura que começou em 64. Porém, nos dias de hoje, com a imprensa e o Congresso que temos aí, não precisa cassar mandatos por decreto nem impor censura à imprensa. Pra quê?! Eles já aprenderam a autocensurar-se, a obedecer, a mancomunar-se. Nada de atos de exceção, hoje basta o que já podem e estão fazendo: interpretar a Constituição e as leis ordinárias ao bel-prazer dos interessados em condenar, absolver, usufruir ou negar usufruto.

 

Fala-se em imprensa livre como se liberdade de imprensa conferisse o direito à mentira, ao engodo, às meias-verdades, às acusações precipitadas, sem que o acusado tenha direito a defesa. 

Impérios jornalísticos estão a serviço do poder plutocrático, em permanente luta para desqualificar e criminalizar um partido político que chegou ao poder e instalou no primeiro escalão quadros médio-classistas, cabeças pensantes cujas experiências, até então, teriam sido aproveitadas em cargos e funções estritamente técnicas e burocráticas, sem expressivo poder de decisão ou influência política. Cabeças pensantes, sim, porém, mais que isso, corações e mentes sensíveis aos clamores dos mais necessitados.


"Não há clima pra golpe". Ouvi muito essa frase quando alertava para as investidas golpistas explicitamente reveladas nos comportamentos da mídia empresarial, de grupelhos políticos e mesmo de elementos atuantes na esfera do Judiciário. Muitas vezes fui tratado como "paranoico" ou "teórico da conspiração", como se teorizar sobre conspirações fosse uma atividade literária de menor importância, sem qualquer caráter jornalístico.

 

Em 2005 escrevi artigo intitulado "Cabo Anselmo e os neogolpistas", do qual extraio esse trecho:

 

"Hoje o que me causa estranheza é ver que os próprios alvos de um golpe de Estado negam a existência de um complô contra o governo Lula, incluindo aí o próprio presidente Lula, que já exteriorizou seu ceticismo em relação aos "boatos" de golpe. Muita gente alega que a política do atual governo está plenamente alinhada com os interesses das elites econômicas e financeiras daqui e de além-mar. E por isso descartam as possibilidades de um golpe contra um governo eleito com esmagadora aprovação popular (só isso já constitui motivo suficiente para os derrotados nas urnas desejarem golpear)."

 

Durante os 13 anos em que o Brasil esteve sob os governos progressistas do Partido dos Trabalhadores, pudemos observar que não adianta multiplicar os lucros dos muito abastados acreditando que, com isso, eles se sentiriam saciados, satisfeitos com o progresso patrimonial. Para estes, que, durante décadas, se revezaram na Presidência da República, em geral com o mesquinho propósito de atender projetos pessoais e a orgástica satisfação de seus egos inflados, o mais importante seria a retomada do poder institucional. Imaginemos quantas madames fazem cobrança aos seus maridos, instigando-lhes o ódio e a cobiça. Quanta inveja! Imaginemos de quanta covardia são capazes, para novamente se apossarem do trono. Unidos na derrubada do governo do povo, agora vão se engalfinhar entre si na luta por um maior quinhão na divisão do butim.

Em diversas ocasiões, quando ouvi alguém afirmar que "não há clima pra golpe", respondi: o que precisa de bom clima é dia de praia e lavoura; para golpear eles precisam de oportunidade. E oportunidade se constrói. E hoje temos a comprovação: construíram a oportunidade e depuseram, através de maquiavélica "engenharia golpista", a nossa legítima presidenta Dilma Rousseff.

 

Obs.: Este artigo é uma atualização e adaptação texto do mesmo autor escrito e publicado em julho de 2007, na revista digital NovaE, sob o título "Clima é pra lavoura; golpe exige oportunidade", confira o original aqui:   http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=665

 

Destaque de notícias da semana:

 

BOFF: IMPEACHMENT PODE EVOLUIR PARA GOLPE MILITAR
Brasil 247 - 1 DE SETEMBRO DE 2016 
Para o teólogo Leonardo Boff, existe o risco de o impeachment de Dilma Rousseff pode virar "um gole militar"; "Os riscos desse golpe parlamentar é que se transforme num golpe militar. Há consciência no povo, segundo a qual não se tolera mais um golpe para favorecer a classe dominante. Se a reação dos movimentos sociais for forte, o que se presume, os golpistas civis poderão chamar de novo os militares como fizeram em 1964", disse Boff nesta quinta-feira
LEIA MAIS: http://www.brasil247.com/pt/247/brasil/252982/Boff-impeachment-pode-evoluir-para-golpe-militar.htm


TEMER AUTORIZA USO DAS FORÇAS ARMADAS NA AVENIDA PAULISTA NO DOMINGO

Brasil 247 - 2 DE SETEMBRO DE 2016 
Forças Armadas foram autorizadas pelo presidente Michel Temer para atuarem na "garantia da lei e da ordem" durante a passagem da tocha paraolímpica, na Avenida Paulista, neste domingo (4); decisão coincide com o aumento da repressão às manifestações; na mesma data estão marcados vários protestos contra o governo do peemedebista, que foram proibidos nesse dia
LEIA MAIS: http://www.brasil247.com/pt/247/sp247/253114/Temer-autoriza-uso-das-For%C3%A7as-Armadas-na-Avenida-Paulista-no-domingo.htm  

 


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